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Operação Miragem: irregularidades do Digimais antecipadas em disputa judicial

Investigação da PF contra o banco Digimais revela padrão de fraude similar ao de outros casos; disputa com Yards Capital já apontava atuação irregular.

JOTA4 min de leitura
Operação Miragem: irregularidades do Digimais antecipadas em disputa judicial
Foto: Matt Popovich / Unsplash

A Polícia Federal deflagrou, em junho de 2024, a Operação Miragem contra o banco Digimais, vinculado ao pastor evangélico Edir Macedo, com bloqueio de R$ 670 milhões em bens e cumprimento de nove mandados de busca e apreensão contra diretores da instituição. A investigação, baseada em relatórios do Banco Central, aponta manipulação de demonstrativos contábeis e registros regulatórios com objetivo de viabilizar operações irregulares e ocultar possível insolvência.

Contexto

As supostas irregularidades do Digimais não surgiram isoladamente. Uma disputa judicial anterior entre a gestora de investimentos Yards Capital e o banco já sinalizava práticas temerárias da instituição financeira. O padrão identificado — inflação artificial de patrimônio de fundos mediante operações carentes de lastro econômico — reproduz esquema similar ao do Banco Master, caso que marcou jurisprudência em matéria de fraude financeira.

O Digimais, antigo Banco Renner, foi adquirido por Edir Macedo, fundador da Igreja Universal e proprietário da RecordTV. Recentemente, o BTG Pactual havia anunciado acordo de aquisição da instituição, negócio que permanecia pendente de algumas condições, mas que as autoridades federais indicam estar praticamente inviabilizado com a deflagração da operação.

Paralelo à investigação da Polícia Federal, pessoas próximas aos processos informaram que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) também conduz apuração sobre o banco. O Grupo ID, entidade vinculada ao mesmo ecossistema, também é alvo de suspeitas relacionadas ao fundo Herman.

O que foi decidido

A Operação Miragem, deflagrada em 23 de junho de 2024, resultou no bloqueio de R$ 670 milhões em bens de pessoas ligadas ao Digimais e na afastação dos sigilos bancário e fiscal dos investigados. Nove mandados de busca e apreensão foram cumpridos contra diretores da instituição, incluindo João Urbaneja (bispo de confiança de Macedo) e seu filho Thiago Rodrigues Urbaneja.

Os relatórios do Banco Central que subsidiaram a ação federal apontam manipulação sistemática de demonstrativos contábeis e registros regulatórios. O objetivo investigado seria viabilizar operações desprovidas de regularidade legal e dissimular situação de insolvência da instituição.

Base normativa e precedentes

  • Lei de Crimes Financeiros (Lei 7.492/1986) — Define crimes contra o sistema financeiro nacional, incluindo operações com documentação falsa e manipulação contábil;
  • Lei de Lavagem de Dinheiro (Lei 12.683/2012) — Aplicável quando há ocultação da origem de valores mediante operações financeiras fraudulentas;
  • Resolução 4.557/2017 do Banco Central — Normas prudenciais que proíbem instituições financeiras de realizar operações sem documentação comprobatória e transparência regulatória;
  • Jurisprudência em fraude financeira — O caso do Banco Master estabeleceu entendimento consolidado quanto à responsabilização criminal e administrativa de diretores em esquemas de inflação patrimonial e operações sem lastro.

Impacto prático

Para instituições financeiras reguladas, a operação reforça obrigação de compliance rigoroso e segregação clara entre operações especulativas e custodia de patrimônio de terceiros, sob pena de responsabilidade penal dos gestores e bloqueio de ativos.

Para investidores em fundos, a investigação demonstra que operações de integralização de cotas por meio de cédulas de crédito bancário sem lastro representam risco material. Cabe diligência especial ao analisar:

  • Origem dos direitos creditórios cedidos para integralização de cotas;
  • Documentação comprobatória de cada crédito;
  • Conflito de interesse quando o integrador detém percentual significativo das cotas seniores;
  • Legitimidade de auditoria independente sobre a composição do fundo.

Para credores e partes contratantes do Digimais, a afastação do sigilo fiscal e bancário permite ao Ministério Público e à Justiça Federal acesso irrestrito a fluxos financeiros, movimentos de compensação e relacionamentos com terceiros, potencializando responsabilização solidária de cúmplices.

Para reguladores (Banco Central, CVM), o caso reforça que manipulação de demonstrativos contábeis não é mera infração administrativa, mas crime federal passível de indiciamento e processos conexos em esfera penal.

O que observar

O processo da Operação Miragem tramita em segredo de justiça na Justiça Federal. Os próximos passos incluem:

  • Denúncia do Ministério Público Federal — Esperada com tipificação precisa (fraude, lavagem, estelionato contra credores);
  • Decisão sobre manutenção de bloqueios — Sujeita a revisão caso haja proposta de acordo de colaboração premiada por investigados;
  • Apurações paralelas — A CVM pode proferir sanções administrativas (multas, inabilitação) simultaneamente ao processo criminal, sem violação do non bis in idem por não ser bis in eadem matéria (esfera diversa);
  • Responsabilidade de diretores — Tanto criminalmente quanto por ação de indenização de terceiros prejudicados (investidores, credores);
  • Continuidade do acordo BTG — Com a deflagração, a transação está virtualmente paralisada; qualquer conclusão exigiria consentimento de autoridades ou sentença que afastasse as acusações.

Advogados de clientes com vínculos com o Digimais (investimentos em fundos, empréstimos, contas correntes) devem avaliar imediatamente o risco de indisponibilidade de recursos bloqueados e a necessidade de requerer ao juiz federal liberação parcial para atender obrigações essenciais.

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