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STF debate nulidade de provas em crimes sexuais por violação de direitos da vítima

Moraes aponta herança machista no Direito brasileiro e STF analisa se provas podem ser ilícitas em contextos de revitimização.

Migalhas5 min de leitura
STF debate nulidade de provas em crimes sexuais por violação de direitos da vítima
Foto: Heloísa Oss Boll / Unsplash

O Supremo Tribunal Federal está examinando questão processual fundamental sobre a validade de provas produzidas em investigações de crimes sexuais quando a obtenção dessa prova ocorre em contexto de violação aos direitos fundamentais da vítima. O debate implica reconhecer, ou não, a ilicitude e consequente nulidade de atos processuais que expõem a vítima a constrangimentos, humilhações ou revitimização durante a instrução probatória.

Contexto

O julgamento ressurge em um momento crítico para a jurisprudência brasileira sobre tutela processual da vítima de crime sexual. Historicamente, o ordenamento jurídico brasileiro incorporou normas explicitamente discriminatórias contra mulheres: até 1988, o Código Civil de 1916 permitia ao genitor deserdar a "filha desonesta" — aquela que mantivesse vida sexual ativa ainda sob seu teto. Antes da Constituição de 1988, mulheres casadas dependiam de autorização do marido para apresentar queixa-crime em ações penais privadas, incluindo denúncias de estupro.

Esse contexto histórico não é mera curiosidade: ele ilumina o porquê de comportamentos discriminatórios e revitimizadores perseverarem em ambientes processuais até hoje. A jurisprudência consolidada reconheceu que o crime de estupro envolve violência e comporta ação penal pública, permitindo ao Ministério Público atuar independentemente da vontade da vítima — avanço que ocorreu no STF ainda na década de 1960. Contudo, garantir a instauração do processo e sua condução sem revitimização são desafios distintos e ainda não plenamente resolvidos.

O que foi decidido

O plenário do STF não finalizou o julgamento durante a sessão de 18 de janeiro, mas delibera especificamente sobre a possibilidade de reconhecer a nulidade de atos processuais em crimes sexuais quando a vítima sofra constrangimentos, humilhações ou revitimização durante depoimento, inclusive pela tolerância, omissão ou insuficiente atuação do magistrado responsável pela direção da instrução.

O ministro relator sinalizou entendimento de que o ordenamento jurídico brasileiro, historicamente marcado por discriminação de gênero, ainda reflete essas estruturas machistas em julgamentos atuais. Destacou que persiste a narrativa que transfere à vítima responsabilidade pela violência sofrida — argumentos baseados em vestuário, consumo de bebida alcoólica ou outras características pessoais da ofendida. A crítica aponta que essa prática transforma a vítima do delito mais grave em "indutora" do agressor, invertendo culpa e responsabilidade.

A questão central é processual e probatória: se atos de instrução realizados sob violação dos direitos fundamentais da vítima devem ser anulados ou se sua validade permanece íntegra, permitindo condenação baseada neles.

Base normativa e precedentes

  • Art. 5º, incisos III, V e X, CF/88 — Proteção à dignidade da pessoa humana, direito de resposta e inviolabilidade de intimidade, vida privada e honra.
  • Art. 217-A, CP — Crime de estupro, que dispensa comprovação de violência específica desde a reforma penal de 2009 (Lei 12.015/2009), abrangendo qualquer pessoa e situação de vulnerabilidade.
  • Código de Processo Penal, arts. 156-A e parágrafos — Direitos das vítimas durante instrução, incluindo direito ao respeito ao seu direito de ser informada e de participar do processo.
  • Lei 14.245/2021 — Lei que instituiu protocolo de tratamento de vítima de estupro e aprimorou direitos processuais da ofendida, vedando conduta constrangedora ou humilhante durante inquérito e processo.
  • Jurisprudência consolidada do STJ e STF — Reconhecimento de que violação a direitos fundamentais da vítima no contexto de investigação e julgamento de crime sexual justifica reformas de decisões condenatórias; princípio da dignidade da pessoa humana orienta interpretação de direitos processuais da vítima.

Impacto prático

A decisão afetará diretamente a forma como são conduzidas audiências de instrução em crimes sexuais:

  • Para o Ministério Público: obrigação de fiscalizar e objeção contra perguntas ou práticas que caracterizem revitimização; eventual responsabilização por omissão insuficiente na tutela do direito fundamental da vítima.
  • Para magistrados: dever de direção atenta da audiência, impedindo perguntas vexatórias, insinuações sobre comportamento da vítima alheias ao fato típico, ou adoção de postura que desvalorize preconceituosamente o depoimento.
  • Para advogados de defesa: limitação de estratégias processuais baseadas em estigmatização da vítima; risco de anulação de atos processuais em que tal prática tenha ocorrido.
  • Para vítimas e seus procuradores: potencial ampliação de direitos processuais, possibilidade de questionar nulidade de atos que violaram sua dignidade, e fundamentação para reformas de decisões absolutórias em que revitimização ocorreu.
  • Em ações em curso: advogados de vítimas podem passar a postular, com maior consistência, a nulidade de audiências ou trechos de depoimento, amparando-se em violação de direitos fundamentais, não apenas em erro processual procedimental.

O que observar

Alguns pontos permanecem em aberto:

Modulação de efeitos: Caso o STF reconheça a ilicitude de provas produzidas em contexto de revitimização, pode fixar se tal reconhecimento aplica-se a processos já finalizados (como o caso Mari Ferrer) ou apenas aos prospectivos. A Súmula 7 do STJ veda reexame de fatos e provas em recurso especial, mas questão constitucional de violação de direitos fundamentais pode justificar exceção.

Delimitação de "revitimização": O conceito carece de critérios objetivos. A decisão deve especificar quais práticas a caracterizam — simplesmente questionar a vítima sobre detalhes do crime constitui revitimização, ou é necessário constrangimento manifesto? Será necessário regulamentação posterior.

Ônus probatório: Quem alega revitimização (vítima ou seu procurador) deverá demonstrá-la já na contestação ou apelação, ou pode surgir tardiamente em recurso? O julgado dará sinais sobre isso.

Próximos recursos: Caso a decisão seja favorável à vítima no caso Mari Ferrer, é possível novo julgamento do STJ ou voltar à origem para novo julgamento em 1ª instância? A jurisprudência precisará delinear caminho processual.

A decisão, quando proferida, marcará inflexão importante na tutela penal das vítimas de crime sexual, reposicionando o direito processual penal em torno da dignidade da pessoa humana, não apenas da verdade formal ou eficiência processual.

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