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Judiciário discute barreiras de gênero em cargos decisórios e liderança

TJRJ e AMB debatem obstáculos enfrentados por mulheres na magistratura e a distância da paridade em posições de poder.

TJRJ4 min de leitura
Judiciário discute barreiras de gênero em cargos decisórios e liderança
Foto: Preillumination SeTh / Unsplash

O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, por meio do Centro Cultural do Poder Judiciário e do Observatório de Pesquisas Felippe de Miranda Rosa, promoveu em junho encontro dedicado à discussão sobre participação feminina em espaços de poder dentro da magistratura. O evento reuniu lideranças da Associação dos Magistrados Brasileiros e gestores de políticas de igualdade de gênero para refletir sobre persistência de obstáculos que limitam o acesso de mulheres a cargos decisórios no sistema judiciário brasileiro.

Contexto

A presença feminina nas estruturas decisórias do Poder Judiciário constitui tema de relevância constitucional, vinculado aos princípios fundamentais de igualdade inscritos no artigo 5º da Constituição Federal de 1988. Embora o Brasil tenha expandido significativamente o número de mulheres na magistratura nas últimas décadas, a representação em postos de liderança permanece desproporcionalmente reduzida em relação à população geral e até mesmo em relação ao contingente de magistradas atuantes.

A questão evoca debates anteriores travados em âmbito institucional quanto à implementação de políticas afirmativas, rotinas de prevenção ao assédio moral e sexual e mecanismos de promoção de igualdade no interior dos tribunais. O encontro inscreve-se em movimento mais amplo de sensibilização sobre disparidades de gênero persistentes nas carreiras jurídicas, independentemente de avanços normativos e decisórios já consolidados na jurisprudência constitucional.

O que foi discutido

O debate centrou-se na análise histórica da invisibilidade feminina como fenômeno estrutural, com destaque para mecanismo de exclusão que, embora formalmente superado, mantém-se operante por meio de obstáculos informais. Uma das participantes, juíza presidente de entidade nacional de magistrados, enfatizou que a ocupação de espaços de poder por mulheres não constitui reivindicação puramente corporativa, mas representa imperativo civilizatório vinculado ao desenvolvimento institucional e social.

O presidente do Comitê de Promoção de Igualdade de Gênero e de Prevenção e Enfrentamento dos Assédios Moral e Sexual no 1º Grau do TJRJ contextualizou historicamente a construção da narrativa de inferioridade feminina, ressaltando que a inclusão de homens nesse processo é essencial, uma vez que se trata de agenda que ultrapassa recortes de gênero isolados.

Foi apresentada metáfora importante para compreender o estado atual do problema: se antes existia um "teto de vidro" que proibia formalmente o acesso de mulheres a posições de comando, atualmente o obstáculo assume forma mais sutil de "solo pegajoso", isto é, dificuldades estruturais e informais que desestimulam o avanço ou que o tornam consideravelmente mais árduo comparado à trajetória típica de homens equivalentes em qualificação.

Base normativa e precedentes

  • Art. 5º, CF/88 (inciso I) — Igualdade formal entre homens e mulheres perante a lei, fundamento constitucional que embasa qualquer política de promoção de equidade de gênero.
  • Art. 37, CF/88 — Princípios da administração pública, incluindo impessoalidade e moralidade, que sustentam políticas de igualdade no interior da magistratura.
  • Lei 14.230/2021 — Reforma do Poder Judiciário que, entre outras disposições, reforça compromisso institucional com a promoção de igualdade de gênero e combate ao assédio.
  • Resolução CNJ nº 255/2018 — Estabelece política de igualdade de gênero, enfrentamento à discriminação e combate ao assédio moral e sexual no Poder Judiciário.
  • Jurisprudência do STF em ADPF e decisões monocráticas sobre discriminação de gênero, que reconhecem a persistência de barreiras informais mesmo após remoção de obstáculos formais.

Impacto prático

Para a magistratura: O encontro reforça necessidade de implementação efetiva de políticas previstas na Resolução CNJ, incluindo monitoramento de promoção interna, revisão de critérios aparentemente neutros que operem disparatoriamente, e acompanhamento de clima institucional que favoreça retenção de magistradas em trajetórias de ascensão profissional.

Para a administração pública em geral: A discussão estabelece precedente para que outras instituições judiciárias adoptem ou aprofundem mecanismos análogos de reflexão crítica sobre paridade em cargos decisórios, uma vez que problema transcende a magistratura.

Para advogados e operadores jurídicos: O tema conecta-se a discussões sobre garantias processuais e vedação de discriminação em acesso a oportunidades profissionais, matéria que pode fundamentar ações envolvendo recrutamento, promoção e retenção de profissionais.

Para pesquisadores e concursandos: O encontro sinaliza importância crescente de estudos empíricos sobre disparidade de gênero como tópico relevante em formação jurídica e em pesquisas sobre direito constitucional.

O que observar

A discussão promovida pelo TJRJ aponta para gap entre reconhecimento normativo da igualdade e implementação substantiva no interior de instituições. A metáfora do "solo pegajoso" é especialmente relevante porque descreve fenômeno que não se resolve por norma isolada: exige mudança de cultura institucional, revisão de práticas informais de mentoria e patrocínio, e monitoramento contínuo de indicadores de paridade.

Observe-se também que a participação de liderança masculina no debate (desembargador coordenador do comitê de gênero) reforça narrativa de que equidade não é agenda exclusivamente feminina, mas envolve compromisso institucional amplo. Isso pode facilitar ou obstaculizar implementação, dependendo de como a instituição traduzir esse reconhecimento discursivo em políticas concretas de revisão salarial, designação de funções estratégicas e combate a discriminação.

Proximos passos incluem monitoramento de indicadores de promoção de mulheres para cargos de desembargadora no TJRJ e em tribunais congêneres, assim como avaliação do impacto dos comitês de gênero já instituídos na redução de assédio e promoção equitativa. O tema permanece aberto para futuras decisões do STF que venham a estabelecer parâmetros constitucionais mais estritos sobre paridade em órgãos do Poder Judiciário.

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