Alcolumbre destrava PECs e PDLs e pressiona governo Lula no Senado
Presidente do Senado dá andamento a propostas sobre escala 6x1, redes sociais e resolução do Conanda, expondo o Planalto a derrotas legislativas.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), abriu simultaneamente três frentes legislativas sensíveis ao governo Lula: a discussão sobre o fim da escala 6x1, a sustação do decreto que regulamenta a responsabilidade das plataformas digitais e a derrubada da resolução do Conanda sobre aborto em crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. O movimento, sem acordo prévio com a oposição, transfere ao Palácio do Planalto o ônus de articular para evitar derrotas em série nas próximas semanas.
Contexto
O Senado vinha sendo visto como anteparo institucional a pautas mais sensíveis aprovadas na Câmara ou editadas pelo Executivo. A movimentação de Alcolumbre rompe esse padrão e acena à oposição liderada por Rogério Marinho (PL-RN), responsável pela autoria de duas das proposições agora destravadas. O pano de fundo é múltiplo: a PEC que extingue a jornada 6x1 já avançou na Câmara; o decreto presidencial editado na semana anterior regulamentou o novo desenho do art. 19 do Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014), redesenhado pelo Supremo Tribunal Federal em julgamento que reconheceu a inconstitucionalidade parcial do dispositivo; e a resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) trata de protocolo para aborto legal em menores vítimas de estupro, hipótese já admitida pelo art. 128, II, do Código Penal.
A convergência dessas pautas em uma única janela legislativa cria efeito cumulativo de pressão sobre o Executivo, que terá de dispersar capital político em frentes distintas.
O que foi decidido
Alcolumbre determinou o início da tramitação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da PEC 12/2026, de autoria do líder da oposição. A proposta autoriza o trabalhador a optar entre o regime celetista tradicional e um modelo flexível baseado em horas efetivamente trabalhadas. A PEC da escala 6x1, oriunda da Câmara, tende a ser apensada à de Marinho, o que desloca o eixo do debate: o relatório final terá como ponto de partida o texto da oposição, ainda que o conteúdo definitivo dependa do relator.
Em paralelo, a CCJ recebeu quatro Projetos de Decreto Legislativo (PDLs) que pretendem sustar o decreto presidencial regulamentador das plataformas digitais, encabeçados pelo PDL 398/2026. A liderança do governo prepara parecer pela constitucionalidade do ato, e a Secretaria de Relações Institucionais deverá buscar o presidente da comissão, senador Otto Alencar (PSD-BA), para reverter o ambiente. Ainda não há relator designado.
A terceira frente é o PDL 3/2025, que susta a resolução do Conanda sobre aborto em meninas vítimas de violência sexual. A previsão é que o texto seja pautado em plenário na terça-feira (2/6), data em que Brasília estará esvaziada pelo Fórum de Lisboa.
Base normativa e precedentes
- Art. 49, V, da CF/88 — confere ao Congresso competência exclusiva para sustar atos normativos do Executivo que exorbitem do poder regulamentar, fundamento dos PDLs em curso.
- Art. 60 da CF/88 — disciplina o rito das PECs, exigindo dois turnos em cada Casa e quórum de três quintos.
- Art. 19 da Lei 12.965/2014 (Marco Civil da Internet) — regime de responsabilidade civil dos provedores, cuja redação foi reinterpretada pelo STF e agora objeto do decreto regulamentador questionado.
- Art. 128, II, do Código Penal — autoriza o aborto em caso de gravidez resultante de estupro, base legal subjacente à resolução do Conanda.
- Art. 7º, XIII, da CF/88 — fixa a jornada máxima de 44 horas semanais, marco constitucional do debate sobre a escala 6x1.
- Decreto-Lei 5.452/1943 (CLT) — regime cuja flexibilização opcional é proposta pela PEC 12/2026.
Impacto prático
- Para o Executivo: risco concreto de derrota no decreto das plataformas, com efeito político imediato sobre a agenda de regulação digital e sobre a interlocução com o STF, que ainda examina recursos pendentes da decisão sobre o art. 19 do MCI.
- Para empregadores e trabalhadores: a apensação tende a deslocar o debate da extinção da escala 6x1 para a criação de um regime opcional de jornada flexível, alterando substancialmente o objeto da PEC original.
- Para o setor de tecnologia: insegurança jurídica adicional sobre o alcance da responsabilidade das plataformas, com possibilidade de o Congresso revogar o decreto antes mesmo do trânsito em julgado no STF.
- Para o sistema de proteção à infância: eventual sustação da resolução do Conanda reabre disputa sobre os protocolos administrativos de atendimento a vítimas de violência sexual, sem alterar a tipificação penal.
O que observar
A agenda dos próximos dias concentra três pontos de inflexão: (i) a designação de relator para os PDLs sobre plataformas, que sinalizará a inclinação da CCJ; (ii) a votação em plenário do PDL 3/2025, marcada para período de baixa presença em Brasília, o que tende a favorecer a oposição; e (iii) a definição do relator da PEC apensada sobre jornada, decisivo para o desfecho do debate trabalhista. Há ainda o desdobramento institucional da CPI da pedofilia, cuja instalação Alcolumbre quer acelerar e que pode operar como caixa de ressonância política das pautas em disputa. Para os profissionais que acompanham o contencioso regulatório, o risco mais imediato é o de descompasso entre o que decidir o STF sobre o art. 19 do MCI e o que sobrar, no plano infralegal, após a eventual sustação do decreto presidencial.
Comentários (0)
Seja o primeiro a comentar essa matéria.
Relacionadas em Constitucional
Ver tudoSTF articula reforma do Judiciário em três frentes sob liderança de Fachin
Presidente do STF lança iniciativas para reformar estrutura judiciária e recuperar credibilidade institucional da Corte em cenário de desgaste reputacional.
STF encerra negociação sobre Moratória da Soja e volta ao plenário
Após fracasso em tentativas de conciliação, Supremo retoma julgamento de ADIs que questionam leis estaduais que esvaziaram acordo ambiental agrícola.
Senado analisa 24 projetos estratégicos para direitos das mulheres em 2026
Senado examina agenda legislativa com 47 propostas distribuídas em sete eixos temáticos focados em combate à violência, participação política e proteção digital feminina.