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Empresário preso se casa com advogada de sua defesa criminal

Thiago Brennand, condenado por crimes contra mulheres, contrai matrimônio com sua defensora Karina Kufa em cerimônia por procuração.

Migalhas4 min de leitura
Empresário preso se casa com advogada de sua defesa criminal
Foto: Matthew Ansley / Unsplash

O empresário Thiago Brennand, atualmente encarcerado na penitenciária de Potim, no interior de São Paulo, contrai matrimônio com a advogada Karina Kufa, integrante de sua equipe de defesa em processos criminais. A cerimônia está marcada para 2 de fevereiro e será realizada por procuração, modalidade admitida pelo ordenamento brasileiro para situações de custódia e impossibilidade de comparecimento presencial.

Contexto

Brenand tornou-se figura central em controvérsias penais após agosto de 2022, quando foi flagrado agredindo uma mulher em local público (academia em São Paulo). Desde então, acumula processos e condenações envolvendo crimes contra mulheres, incluindo acusações de estupro e agressão. Permanece custodiado há aproximadamente três anos, cumprindo penas em estabelecimento penal do estado de São Paulo.

Karina Kufa, advogada especializada em Direito Eleitoral e Processual Eleitoral, integrou a equipe de defesa de Brennand há cerca de quatro meses. Sua trajetória profissional inclui atuação em questões eleitorais de grande visibilidade nacional e debates jurídicos sobre liberdade de expressão e regulação de plataformas digitais.

O que foi decidido

Não se trata de decisão judicial, mas de ato de vontade das partes — a formalização do casamento civil entre Brennand e Kufa. O casal, ambos com quarenta e seis anos, obteve autorização para realizar o matrimônio por procuração, regime que dispensa a presença física do nubente quando circunstâncias o justifiquem. A cerimônia será executada mediante representação legal, adequada à condição de encarceramento do empresário.

Segundo Kufa, o relacionamento originou-se em conversas realizadas no parlatório da unidade penal, espaço de visitação separado por vidro, onde ambos permaneceram sem contato físico. A advogada descreveu a aproximação como fundamentada em "paixão pelas palavras" e compatibilidade intelectual, negando qualquer dinâmica imprópria durante o período de assistência jurídica.

Base normativa e precedentes

  • Art. 1.121, Código Civil (Lei 10.406/2002) — admite a celebração do casamento por procurador, desde que o instrumento de procuração seja público e especial para esse fim
  • Art. 102, Lei de Execução Penal (Lei 7.210/1984) — reconhece direitos fundamentais do preso, incluindo direitos civis e familiares
  • Jurisprudência consolidada dos tribunais brasileiros — aceita casamento por procuração de pessoa encarcerada como exercício de direito civil fundamental, sem impedimento processual direto
  • Artigos 27 a 29, Código de Processo Penal — regulam as relações entre defensor e cliente durante o cumprimento de pena

Impacto prático

O casamento entre advogada e cliente custodiado levanta questões éticas e deontológicas relevantes:

  • Conflito de interesses: a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) possui normas de conduta profissional que abordam relacionamentos entre profissional jurídico e cliente, a fim de evitar prejuízos à defesa e violação da confiança inerente ao vínculo profissional
  • Continuidade da defesa: após a celebração, persiste a questão sobre a adequação de Kufa permanecer como defensora de Brennand em processos em andamento ou se tal vinculação pessoal configuraria impedimento
  • Testemunho cruzado: em eventual produção de provas testemunhais, cônjuges possuem prerrogativas processuais (direito de recusa) que podem complexificar a dinâmica processual
  • Para a execução penal: o casamento não altera o regime de cumprimento de pena, mas amplia direitos visitacionais e comunicacionais do preso com terceiros

O que observar

A controvérsia levanta pontos jurídicos e éticos a acompanhar:

  1. Conflito de interesse: embora casamentos entre profissionais jurídicos e clientes não sejam ilícitos, códigos de ética profissional de diversos conselhos federais impõem vigilância sobre relacionamentos que possam comprometer a imparcialidade ou o sigilo profissional. A OAB poderá ser acionada para análise sobre a adequação da manutenção de Kufa como defensora

  2. Presunção de inocência versus reputação: enquanto Brennand goza da presunção de inocência até trânsito em julgado, condenações já lavradas produzem efeitos jurídicos e podem influenciar a estratégia defensiva e a credibilidade da tese de inocência que Kufa defende

  3. Recursos cabíveis: os processos contra Brennand podem estar em fase de apelação ou em recursos extraordinários (STJ, STF). A inserção de novo vínculo pessoal com a defensora não afeta a legitimidade dos recursos, mas reforça a importância de transparência processual

  4. Próximos passos: a defesa pode buscar anulação de condenações anteriores por alegação de ineficiência da assistência prestada anteriormente, ressalvando-se que relacionamentos posteriores não retroagem automaticamente

A situação ilustra a tensão entre direitos civis e fundamentais (casamento, liberdade de associação) e princípios éticos que regem a profissão jurídica no Brasil.

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