EPM abre curso de Direito Constitucional aplicado à jurisdição
Escola Paulista da Magistratura oferta 50 vagas para juízes em programa anual que discute processo estrutural, reforma tributária e judicialização da saúde.
A Escola Paulista da Magistratura (EPM) abriu inscrições, até 8 de junho, para o curso Direito Constitucional aplicado à jurisdição contemporânea, com 50 vagas destinadas a magistrados da ativa e aposentados do TJSP e de outros tribunais. O programa, coordenado pelo desembargador Luis Francisco Aguilar Cortez e pelo juiz Renato Siqueira De Pretto, ocorrerá entre 24 de abril e 27 de novembro, em encontros mensais on-line, e está em processo de credenciamento na Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados (Enfam).
Contexto
A capacitação continuada da magistratura ganhou status normativo com a EC 45/2004, que constitucionalizou a Enfam (art. 105, parágrafo único, I, da CF/88) e atribuiu às escolas judiciais o papel de regulamentar cursos oficiais para ingresso e promoção na carreira (art. 93, IV, da CF/88). Nesse arranjo, escolas estaduais como a EPM funcionam como espaço estratégico para formação técnica e diálogo doutrinário, especialmente em temas em que a jurisprudência ainda se acomoda.
O programa lançado pelo Núcleo de Estudos em Direito Constitucional da EPM responde a um quadro em que o juiz brasileiro é cada vez mais demandado a operar com técnicas decisórias complexas — controle de convencionalidade, processos estruturais, modulação de efeitos — que extrapolam o repertório clássico do contencioso individual. A ementa do curso reflete justamente esse deslocamento, articulando teoria constitucional com problemas concretos da atividade jurisdicional.
O que foi decidido
A EPM aprovou cronograma com seis encontros temáticos, das 10h às 12h, pelo Microsoft Teams. Os juízes do TJSP serão matriculados automaticamente; magistrados de outros tribunais devem enviar cópia da carteira funcional ao e-mail institucional do núcleo. A certificação exige frequência mínima de 75% e participação em avaliação contínua.
Os temas anunciados, com expositores confirmados, são:
- 10/6 — Processo estrutural e capacidades institucionais (juiz Fernando da Fonseca Gajardoni e professor Fredie Didier Júnior), com debate sobre o PL 3/2025;
- 19/8 — Magistratura no Estado Constitucional (juiz Fabio Francisco Esteves, TJDFT);
- 16/9 — Competência jurisdicional e reforma tributária: IBS e CBS (ministra Regina Helena Costa, STJ);
- 14/10 — Judicialização da saúde pós teses do STF (juiz Richard Pae Kim);
- 25/11 — Controle de convencionalidade e protocolos do CNJ de gênero e raça (juíza federal Camila Monteiro Pullin, TRF5);
- 2/12 — "Novo Marco Legal do Processo Constitucional" e PL 3.640/2023 (professor Luiz Guilherme Marinoni).
Base normativa e precedentes
- Art. 93, IV, CF/88 — impõe formação e aperfeiçoamento contínuo como critério da carreira da magistratura.
- Art. 105, parágrafo único, I, CF/88 — institui a Enfam, que credencia cursos oficiais para vitaliciamento e promoção.
- Resolução Enfam 2/2016 — disciplina o credenciamento de cursos de formação continuada, exigência que o programa da EPM busca cumprir.
- PL 3/2025 (Senado) — projeto sobre processo estrutural, tema do primeiro encontro, dialoga com a tutela coletiva e com a doutrina sobre litígios policêntricos.
- EC 132/2023 e LCs do IBS/CBS — pano de fundo do encontro sobre reforma tributária, cuja implementação suscitará disputas sobre competência judicial e risco de fragmentação jurisprudencial entre Justiça Federal e estadual.
- Resoluções CNJ 492/2023 e 270/2018 — instituem os Protocolos para Julgamento com Perspectiva de Gênero e de Raça, objeto do módulo sobre controle de convencionalidade.
- Pacto de San José da Costa Rica (Decreto 678/1992) — base do controle de convencionalidade na linha do julgamento do RE 466.343/SP pelo STF.
- PL 3.640/2023 — proposta de marco legal do processo constitucional, que pretende consolidar regras do controle concentrado hoje dispersas entre a Lei 9.868/1999 e a Lei 9.882/1999.
Impacto prático
- Magistrados do TJSP: matrícula automática e acesso a debate com nomes de referência, com efeito direto sobre critérios de promoção por merecimento (art. 93, II, c, CF/88), que pondera aproveitamento em cursos oficiais.
- Magistrados de outros tribunais: oportunidade de pontuação curricular e de aproximação com a produção doutrinária paulista, especialmente útil em concursos de remoção e promoção.
- Advogados e estudiosos: ainda que o curso seja fechado, a agenda sinaliza quais temas constitucionais devem ganhar tração no TJSP nos próximos meses — particularmente processo estrutural, contencioso da reforma tributária e judicialização da saúde.
- Litigantes em ações coletivas e estruturais: o debate institucional sobre capacidades decisórias e separação de poderes (art. 2º, CF/88) tende a influenciar a forma como juízes paulistas modelarão provimentos de implementação e monitoramento.
O que observar
A pendência de credenciamento perante a Enfam é o ponto sensível: sem a chancela, o aproveitamento do curso para fins de vitaliciamento e promoção fica limitado às regras locais. Vale acompanhar, ainda, como o módulo sobre IBS e CBS dialogará com a regulamentação infraconstitucional da reforma tributária, cuja arquitetura federativa pode gerar conflitos de competência entre Justiças. Por fim, o encontro sobre o PL 3.640/2023 deve antecipar discussões sobre eventual codificação do processo constitucional brasileiro — tema com potencial de redesenhar a prática do controle concentrado nos próximos anos.
Comentários (0)
Seja o primeiro a comentar essa matéria.
Relacionadas em Constitucional
Ver tudoSTF articula reforma do Judiciário em três frentes sob liderança de Fachin
Presidente do STF lança iniciativas para reformar estrutura judiciária e recuperar credibilidade institucional da Corte em cenário de desgaste reputacional.
STF encerra negociação sobre Moratória da Soja e volta ao plenário
Após fracasso em tentativas de conciliação, Supremo retoma julgamento de ADIs que questionam leis estaduais que esvaziaram acordo ambiental agrícola.
Senado analisa 24 projetos estratégicos para direitos das mulheres em 2026
Senado examina agenda legislativa com 47 propostas distribuídas em sete eixos temáticos focados em combate à violência, participação política e proteção digital feminina.