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Pesquisa Quaest: perda de votos de Bolsonaro não favorece Lula em 2024

Análise de como o desgaste de Flávio Bolsonaro em pesquisa Quaest não se converte em ganhos para Lula, revelando dinâmica eleitoral mais complexa.

JOTA5 min de leitura
Pesquisa Quaest: perda de votos de Bolsonaro não favorece Lula em 2024
Foto: Tutz Dias / Unsplash

A mais recente rodada de pesquisa divulgada em junho de 2024 pela Genial/Quaest apresenta dinâmica eleitoral distinta daquela frequentemente retratada pela cobertura política tradicional. Embora Flávio Bolsonaro (PL) tenha perdido 4 pontos percentuais no primeiro turno (de 33% para 29%) e 3 pontos no segundo turno (de 41% para 38%), essa retração não se converteu em benefício direto para o presidente Lula, um fenômeno que desnuda a complexidade da polarização política brasileira contemporânea.

Contexto

O panorama eleitoral de 2024 foi estruturado, até aquele momento, em torno de dois polos bem definidos: o campo governista e o bolsonarista. A dinâmica polarizada é característica do sistema político brasileiro desde 2018, quando a eleição de Jair Bolsonaro criou uma fragmentação que perdura. O desgaste específico de Flávio Bolsonaro decorreu de revelações públicas envolvendo seu relacionamento com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, incluindo áudios em que solicitava recursos financeiros relacionados a um filme intitulado "Dark Horse". Esse evento funcionou como catalisador de uma erosão eleitoral que, conforme captado pela pesquisa, afetou particularmente segmentos do eleitorado menos ideologicamente cristalizados.

Paralelamente, o governo Lula vinha implementando uma série de programas sociais e econômicos — entre eles o Desenrola Brasil, medidas de contenção de preços de combustíveis, a eliminação da "taxa das blusinhas", o Move Brasil, o Programa Brasil contra o Crime Organizado e a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda — que teoricamente poderiam repercutir favoravelmente na percepção eleitoral. Contudo, conforme os dados revelam, a eficácia dessas iniciativas estava ainda em fase de assimilação pela população, com índices de desconhecimento variando entre 36% e 50%, salvo exceção da medida de isenção de imposto de renda, que contava com maior disseminação de conhecimento público.

O que foi decidido

A pesquisa não constitui uma "decisão" em sentido técnico, mas revela um padrão comportamental eleitoral: a retração de Flávio Bolsonaro não se explica como simples transferência de votos para Lula, conforme o raciocínio linear sugeriria. Os dados indicam que apenas 5 pontos percentuais dos 32 pontos que estavam distribuídos entre outros candidatos migraram para Lula no segundo turno. Em contraste, 9 pontos percentuais gravitaram para Flávio Bolsonaro, enquanto 18 pontos percentuais se dissiparam em votos brancos, nulos ou em eleitores indecisos.

O fenômeno revela-se ainda mais significativo quando analisados os segmentos específicos afetados. Entre eleitores independentes, o apoio a Flávio Bolsonaro contraiu 7 pontos percentuais (de 31% para 24%), representando uma erosão particularmente relevante em um segmento tradicionalmente decisivo em pleitos presidenciais. Igualmente importante foi a contração entre eleitores de direita que não se identificam com o bolsonarismo propriamente dito, cuja taxa caiu de 88% para 82%. Essa erosão ocorreu justamente fora do núcleo ideológico mais consolidado do eleitorado bolsonarista, sugerindo que o desgaste impactou especialmente os grupos com menor identificação partidária.

Base normativa e precedentes

Embora pesquisas eleitorais não constituam objeto direto de regulação constitucional específica, o sistema eleitoral brasileiro opera sob o marco normativo de:

  • Lei 9.504/1997 — Lei das Eleições, que disciplina candidaturas, campanha e propaganda, estabelecendo o panorama institucional no qual essas disputas ocorrem.
  • Constituição Federal/1988, Art. 17 — Direito de criação de partidos políticos e sua liberdade de organização interna, reflexo da fragmentação eleitoral observada.
  • Jurisprudência do TSE — A Corte Eleitoral vem consolidando entendimentos sobre limites à propaganda e à conduta de candidatos, contexto relevante para compreender como fatos como aqueles envolvendo Flávio Bolsonaro repercutem na esfera legal (investigações administrativas e potenciais responsabilidades eleitorais).
  • Resolução TSE 23.610/2020 — Disciplina a realização de pesquisas eleitorais e sua divulgação pública, garantindo a legitimidade técnica de levantamentos como o da Quaest.

Impacto prático

Para analistas políticos e estrategistas de campanha: o dado revela que a estratégia de capitalizar sobre o desgaste do adversário não ocorre automaticamente. A migração de votos distribui-se de forma não linear, beneficiando especialmente candidatos alternativos dentro do mesmo espectro ideológico (Renan Santos pela Missão, Romeu Zema pelo Novo e Ronaldo Caiado pelo PSD receberam benefício dessa dinâmica).

Para o Executivo: embora o governo colha benefícios eleitorais de suas iniciativas recentes, estes permanecem subutilizados em termos de comunicação política. A persistência de 36% a 50% de desconhecimento sobre programas-chave sugere margem adicional para ganhos eleitorais caso a disseminação de conhecimento sobre essas medidas seja melhorada.

Para candidatos de direita fora da polarização central: abriu-se uma "janela eleitoral" de votos que, embora migrem da esfera bolsonarista, não consolidam uma liderança de uma terceira alternativa. O risco-limite é a pulverização desses votos em brancos e nulos.

O que observar

Primeiro, a volatilidade do eleitor independente exige cautela interpretativa. O padrão capturado em junho dificilmente permaneceria congelado até outubro. Eventos subsequentes — investigações sobre os áudios de Flávio Bolsonaro, mudanças na conjuntura econômica ou novos episódios no noticiário político — poderiam reconfigurar essa topografia eleitoral.

Segundo, a concentração de votos em Lula e Flávio Bolsonaro (68% no primeiro turno, 82% no segundo) reforça a tese de que a polarização permanece estruturante. O surgimento de candidato competitivo fora desse eixo mostrou-se improvável com base nesses dados.

Terceiro, a defasagem entre conhecimento de políticas públicas e repercussão eleitoral sugere que o governo ainda não havia maximizado o retorno comunicativo de suas iniciativas. A ampliação futura dessa disseminação poderia alterar a dinâmica observada.

Por fim, o comportamento do eleitor de direita não-bolsonarista (queda de 88% para 82%) merece monitoramento, pois representa a zona de maior volatilidade eleitoral e, potencialmente, a margem decisória em um eventual segundo turno.

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