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Prova pericial em ações antitruste: entre juízes e economistas

O controle jurídico da perícia econômica em casos de cartel exige que magistrados escrutiniem metodologias sem se tornarem economistas.

JOTA4 min de leitura
Prova pericial em ações antitruste: entre juízes e economistas
Foto: Sasun Bughdaryan / Unsplash

A Lei nº 12.529/11 assegura às vítimas de cartéis direito a indenização pelas perdas e danos sofridos, com possibilidade de multiplicação em dobro, conforme o contexto. Porém, entre o direito formal e seu exercício efetivo existe um abismo técnico: quantificar monetariamente o prejuízo causado pela conduta colusiva. Esse é o núcleo da dificuldade que confronta a reparação civil na esfera concorrencial e que revela um dilema institucional fundamental entre conhecimento econômico e decisão jurídica.

Contexto

O dano cartelista estrutura-se, fundamentalmente, no conceito de sobrepreço — a diferença entre o preço efetivamente cobrado no mercado colusivo e aquele que teria prevalecido sob condições de rivalidade genuína (o chamado "but for price" ou preço contrafactual). Essa grandeza não é observável diretamente; é construída mediante reconstrução econômica de um cenário hipotético. Enquanto economistas dedicam-se a modelar essa realidade alternativa usando dados, pressupostos técnicos e, não raro, econometria sofisticada, magistrados enfrentam a tarefa de decidir sobre fatos jurídicos com base em prova cuja essência transcende as fronteiras do conhecimento jurídico tradicional.

A controvérsia não é meramente acadêmica. A escolha do modelo econômico, o período de comparação, a seleção de bases de dados, o tratamento de variáveis e a construção do cenário contrafactual constituem escolhas técnicas com impacto decisivo no resultado quantificado do dano — e, consequentemente, na indenização fixada. A perícia, portanto, não encerra a disputa econômica; antes, amplia-a ao interior do processo judicial, incorporando ao debate cada um desses elementos tecnicamente contestáveis.

O que foi decidido

O artigo 479 do Código de Processo Civil de 2015 estabelece, de modo imperativo, que o magistrado "aprecie" a prova pericial e indique, fundamentadamente na sentença, "os motivos que o levaram a considerar ou deixar de considerar as conclusões do laudo, levando em conta o método utilizado pelo perito". Esse dispositivo veda — ao menos em teoria — a delegação da decisão ao perito e impõe ao julgador o dever de crítica ativa sobre a perícia.

Mas essa obrigação não significa que o juiz deva replicar, ele próprio, a análise econômica, testar modelos econométricos ou determinar qual é a "melhor" técnica de estimação de prejuízos. Exigir isso transformaria magistrados em economistas, inversão epistemicamente ingênua e institucionalmente inadequada. De forma inversa, delegar integralmente ao perito equivale a convertê-lo em decisor de facto, usurpando função que a Constituição e a lei reservam ao magistrado — outra deformação institucional inaceitável.

Base normativa e precedentes

  • Art. 47, Lei nº 12.529/11 — Confere às vítimas de cartéis direito a indenização pelas perdas e danos, passível de multiplicação em dobro em determinados contextos.

  • Art. 479, Código de Processo Civil (Lei 13.105/2015) — Impõe dever de apreciação ativa da prova pericial, vedando delegação tácita ao perito e exigindo motivação judicial quanto ao método utilizado.

  • Princípio da definitividade jurisdicional — O Direito, diferentemente da Ciência, opera sob lógica de decisão temporal limitada e definitiva, ainda que diante de dissenso científico.

  • Controle de admissibilidade de prova técnica — A jurisprudência consolidada reconhece que nem todo conhecimento técnico é juridicamente relevante ou admissível, dependendo de sua conexão com a controvérsia e método cientificamente robusto.

Impacto prático

Para advogados em litigância antitruste, essa compreensão define a estratégia processual em múltiplos pontos:

  • Seleção de perícia: A escolha do perito não pode ser puramente técnica; deve considerar sua capacidade de comunicar metodologia de forma inteligível ao magistrado.

  • Estruturação do laudo: Fundamental delinear claramente por que o modelo selecionado é apropriado para aquele mercado específico, explicitando premissas contestáveis e suas justificativas.

  • Impugnação do laudo: A defesa técnica não deve focar apenas em discordâncias econômicas abstractas, mas em ilógicas processuais — inconsistências metodológicas, falta de dados, pressupostos não fundamentados.

  • Apresentação de contrarprova: Perícias concorrentes devem documentar não apenas conclusões diversas, mas as razões metodológicas que levaram a divergir, permitindo ao juiz comparar abordagens.

Para magistrados, o impacto situa-se em redefinir seu papel na perícia. Não se trata de abdicar da decisão (e com ela, da responsabilidade institucional), nem de fingir dominar econometria. Trata-se de exercer controle jurídico rigoroso sobre o processo de incorporação de conhecimento técnico ao processo — escrutinando a robustez metodológica, a adequação do modelo ao mercado específico e a transparência das escolhas técnicas.

O que observar

O mecanismo de apreciação judicial previsto no art. 479 do CPC/15 desdobra-se em duas etapas críticas:

  1. Escolha do modelo em abstrato: O magistrado deve questionar se o modelo teórico selecionado captura adequadamente a dinâmica do mercado relevante. Não se exige expertise econométrica, mas pergunta crítica: por que este modelo, e não outro?

  2. Operacionalização do modelo: Examinam-se dados, pressupostos, variáveis tratadas e exclusões feitas. A transparência desse processo torna-se verificável.

Riscos para profissionais: em ações antitruste de grande vulto, a falta de clareza metodológica em laudo pericial pode resultar em sentença que desconsidere integral ou parcialmente suas conclusões — gerando indenizações subestimadas ou cassação em apelação. Magistrados que simplesmente "aderem" ao laudo, sem cumprir o dever de apreciação, expõem-se a reforma por ofensa ao art. 479 do CPC/15.

O desafio institucional permanece não resolvido em legislação ou jurisprudência pacífica: como calibrar o escrutínio sem que o juiz se torne economista, e sem que o perito vire juiz. A resposta exige desenvolvimento contínuo de literacy técnico entre magistrados e rigor metodológico entre economistas-peritos, sob vigilância processual ativa.

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