STJ limita agravante de calamidade pública em crimes na pandemia
STJ decide que agravante do art. 61, II, "j" do CP exige prova de aproveitamento da calamidade, evitando incidência automática.

O STJ decidiu que a circunstância agravante prevista no art. 61, II, "j", do Código Penal não incide automaticamente por ocasião de calamidade pública; é preciso demonstrar que o agente se valeu da situação excepcional para praticar o crime. A decisão afastou a agravante em caso de estupro de vulnerável cometido durante a pandemia, reduzindo a pena, mas manteve o regime inicial fechado em razão da gravidade concreta.
Contexto
A pandemia de Covid-19 gerou questão prática recorrente no âmbito penal: se a simples ocorrência do delito durante estado de calamidade pública autoriza a aplicação da agravante prevista no art. 61, II, "j", do Código Penal (Lei 2.848/1940). Tribunais têm entendido o tema de forma divergente, com algumas cortes estaduais aplicando a agravante de modo praticamente automático, enquanto turmas deste Superior Tribunal de Justiça vêm exigindo vínculo causal entre a calamidade e a conduta criminosa. A controvérsia importa porque a inclusão indevida da agravante amplia a pena-base e pode influir no regime inicial e em efeitos secundários da condenação, afetando a aplicação do princípio constitucional da individualização da pena (art. 5º, XLVI, e princípios gerais do processo penal).
No caso analisado, o condenado foi sentenciado em primeira instância por estupro de vulnerável e recebeu aumento por ter o crime ocorrido durante a calamidade pública decretada por conta da pandemia. O Tribunal de Justiça local manteve a agravante ao entender que sua natureza seria objetiva. A defesa recorreu ao STJ alegando a necessidade de demonstrar que o agente se beneficiou das facilidades criadas pela calamidade para a prática do delito.
O que foi decidido
A turma do STJ, por meio do voto do relator, concluiu que a agravante do art. 61, II, "j", do Código Penal exige prova de que a situação excepcional foi instrumental para o crime — isto é, que o agente se aproveitou da calamidade pública ou da vulnerabilidade dela decorrente para consumar o delito. Contrariando a interpretação objetiva adotada pelo TJ, o STJ entendeu que admitir a incidência automática violaria o princípio da individualização da pena e poderia levar à aplicação indiscriminada do aumento a todos os crimes cometidos no período pandêmico.
No plano concreto, como não houve demonstração nos autos de que o condenado utilizou a pandemia para viabilizar ou facilitar o estupro de vulnerável, o relator afastou a agravante. Em razão disso, procedeu-se à nova dosimetria, com redução da pena de nove anos e quatro meses para oito anos de reclusão. Mantido, contudo, o regime inicial fechado em razão da gravidade concreta: foram consideradas, como elementos determinantes, o modo de execução, o vínculo afetivo com a família da vítima e circunstâncias que facilitaram o acesso ao crime.
Base normativa e precedentes
- Art. 61, II, "j", Código Penal (Lei 2.848/1940) — agravante aplicável quando o crime for cometido em ocasião de calamidade pública; sua interpretação é objeto da controvérsia.
- Art. 59, Código Penal (Lei 2.848/1940) — critérios para a fixação da pena; utilizados pelo relator ao reavaliar as circunstâncias judiciais após afastada a agravante.
- Art. 5º, Constituição Federal de 1988 — princípio da individualização da pena e demais garantias fundamentais que orientam a tipificação e dosimetria pena.
- Jurisprudência das 5ª e 6ª turmas do STJ — entendimento citado no voto segundo o qual a agravante exige demonstração do aproveitamento da calamidade, evitando aplicação objetiva e automática.
- Princípios gerais do processo penal e da dosimetria — necessidade de provar a existência e a relevância da circunstância agravante para majoração da pena.
Impacto prático
- Para advogados de defesa: reforça argumento para impugnar majorações automáticas da pena com base em períodos de calamidade, exigindo demonstração do nexo causal entre situação excepcional e a conduta.
- Para magistrados: orientação para examinar, na fase de dosimetria, se há elemento probatório que comprove que o agente se valeu da calamidade; evita aplicação mecânica do art. 61, II, "j".
- Para o Ministério Público: necessidade de produzir prova robusta sempre que pretender a incidência da agravante, articulando elementos factuais que demonstrem a vantagem obtida com a calamidade.
- Para processos em curso: decisões transitadas e proferidas com base em interpretação objetiva poderão ser objeto de recursos ou revisões quando presentes fundamentos análogos; porém, a alteração da pena não implica automaticamente reabertura do regime quando presentes motivos aptos a mantê-lo.
O que observar
- Padrão probatório: será relevante verificar que tipo e extensão de prova o Tribunal considerará suficientes para caracterizar o "aproveitamento" da calamidade (ex.: uso de isolamento social para ocultar crime, uso de medidas excepcionais para facilitar acesso, manipulação de inexistência de testemunhas presenciais).
- Modulação e repercussão: embora o caso tenha decidido nos limites da controvérsia individual, permanece aberto o debate sobre eventual necessidade de modulação de efeitos para sentenças já transitadas em julgado que aplicaram a agravante de forma objetiva.
- Recursos cabíveis: decisões que afastarem a agravante podem ser objeto de embargos de declaração ou recurso especial/recurso extraordinário conforme matéria federal ou constitucional envolvida; estratégia recursal deve considerar precedentes vinculantes e súmulas.
- Risco processual-prático: manter o regime inicial fechado mesmo com redução da pena mostra que o afastamento da agravante nem sempre resultará em benefício prisional imediato; avaliação da gravidade concreta e demais circunstâncias judiciais continuará decisiva.
Em síntese, o acórdão do STJ reafirma a necessidade de individualização e prova do nexo entre calamidade pública e a vantagem auferida pelo agente, evitando majorações automáticas de pena em episódios coletivos de crise como a pandemia.
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