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STJ: locatário inadimplente não tem direito de retenção por benfeitorias

A 3ª Turma do STJ decidiu que o direito de retenção por benfeitorias não opera quando o locatário está em mora; a posse de boa-fé exige adimplemento dos aluguéis.

Consultor Jurídico (ConJur)4 min de leitura
STJ: locatário inadimplente não tem direito de retenção por benfeitorias
Foto: Jessica Hearn / Unsplash

O Tribunal Superior do Justiça, em julgamento da 3ª Turma, firmou entendimento no sentido de que o direito de retenção por benfeitorias não é aplicável ao locatário que está em débito com aluguéis e encargos. A relatora consignou que a retenção exige posse de boa-fé, cuja configuração na locação depende do cumprimento da obrigação essencial do contrato: o pagamento pontual da contraprestação.

Contexto

A controvérsia envolve a tensão entre dois institutos centrais nas relações locatícias: o direito à indenização por benfeitorias (necessárias e úteis) e o direito de retenção do bem até que essa indenização seja satisfeita. Na prática forense, é comum que locatários que investem substancialmente em reformas pretendam permanecer na posse enquanto buscam compensação, especialmente quando a reforma altera significativamente o padrão do imóvel. Por outro lado, proprietários contestam a permanência do inadimplente, alegando frustração contratual e risco à sua expectativa sobre a contraprestação. A questão ganha relevo processual em ações de despejo com pedido de condenação por aluguéis vencidos e, muitas vezes, com discussão sobre compensação e indenização por benfeitorias.

A liquidação entre indenização e retenção já suscitou divergências na jurisprudência, sobretudo quanto ao requisito subjetivo da boa-fé do possuidor e aos efeitos da mora do locatário sobre direitos reais de retenção.

O que foi decidido

A 3ª Turma do STJ negou provimento ao recurso especial interposto pela locatária que, apesar de comprovadas benfeitorias de caráter necessário e útil, estava inadimplente quanto aos aluguéis e encargos. A turma alinhou-se ao entendimento de que o direito de retenção, enquanto mecanismo que permite ao possuidor reter o bem até ser indenizado, pressupõe posse de boa-fé. No caso concreto, o inadimplemento da obrigação principal do contrato de locação rompe o equilíbrio contratual e afasta a boa-fé objetiva exigida para legitimar a retenção.

A relatora explicitou que a existência de direito subjetivo à indenização pelas benfeitorias não importa, automaticamente, em direito de retenção quando a posse se dá em condições de mora. Ou seja: é possível reconhecer o direito à indenização sem autorizar a manutenção da posse do imóvel como meio coercitivo de satisfação do crédito do locatário.

Em termos práticos, o acórdão manteve a ordem de despejo e a condenação ao pagamento dos aluguéis e encargos em atraso, afastando, porém, a pretensão de permanecer na posse do imóvel até a compensação dos valores gastos na reforma.

Base normativa e precedentes

  • Código Civil (Lei 10.406/2002) — regime das obrigações e princípios contratuais que estruturam a boa-fé objetiva e a função social do contrato.
  • Lei do Inquilinato (Lei 8.245/1991) — disciplina específica das locações e ações de despejo, bem como direitos e deveres de locador e locatário.
  • Princípio da boa-fé objetiva — consagrado no ordenamento civil e aplicável aos contratos, determinando padrões de conduta e expectativa recíproca entre as partes.
  • Súmula e jurisprudência consolidada do tribunal — a jurisprudência pátria tem distinguido o direito à indenização pela prática do direito de retenção, vinculando este último à boa-fé do possuidor.

Impacto prático

  • Para advogados de locadores: a decisão reforça fundamento para pedido de despejo e impugnação de pretensões de retenção feitas por inquilinos em mora; a tese da boa-fé objetiva e do equilíbrio contratual ganha força probatória.
  • Para advogados de locatários: o veredito demonstra a limitação estratégica de buscar retenção como meio de garantia de indenização quando há inadimplência; importa focar na prova da natureza das benfeitorias e na negociação extrajudicial ou em pedido condenatório autônomo de indenização.
  • Para proprietários e administradoras de imóveis: a sentença tranquiliza quanto à possibilidade de retomada do imóvel mesmo diante de benfeitorias relevantes, desde que comprovada a mora do locatário.
  • Processos em curso: decisões de primeiro e segundo grau que eventualmente tenham admitido retenção de locatários inadimplentes ficam vulneráveis a recurso especial com base na mesma tese do STJ.

O que observar

  • Elemento fático decisivo: a configuração da posse de boa-fé continua sendo o centro da análise. Em casos futuros, será crucial demonstrar, por prova documental e pericial, a extensão das benfeitorias e o caráter da mora (período, valores, notificações).
  • Diferença entre indenização e retenção: advogados devem pleitear forma de satisfação do crédito mais adequada — execução de título condenatório ou compensação em sede processual — em vez de confiar na retenção do bem como meio coercitivo quando houver inadimplência.
  • Recursos e modulação: a decisão admite interposição de recursos cabíveis, e resta saber se futuros precedentes do tribunal ou medidas de modulação podem alterar a amplitude dos efeitos da tese; verificar eventual uniformização pela corte em órgãos fracionários ou plenário.
  • Risco de soluções alternativas: em negociações, acordos que prevejam compensação das benfeitorias com débitos locatícios podem ser mais seguros do que tentativa de retenção judicial.

Conclusão: o STJ delineou um critério pragmático e contratual para impedir que o instrumento do direito de retenção sirva de lastro a condutas contraditórias do locatário inadimplente. A lição prática é clara: a proteção à indenização por benfeitorias subsiste, mas a retenção como meio de coação exige posse legitimada pela boa-fé, normalmente assentada no adimplemento das obrigações locatícias.

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