TJBA defere liminar de isenção de ICMS para associação beneficente
Juíza da Bahia anula indeferimento arbitrário de isenção de ICMS e reconhece direito de entidade assistencial ao benefício fiscal.
A 11ª Vara da Fazenda Pública de Salvador deferiu liminar em favor de uma associação beneficente contra a Secretaria de Fazenda estadual, suspendendo a exigibilidade de crédito tributário de ICMS. A decisão reconheceu que o indeferimento da isenção pela administração pública, baseado em dúvida não fundamentada em auditoria contrária, configurou ato administrativo abusivo, violando o direito da entidade assistencial.
Contexto
O cenário que contorna a controvérsia envolve a aplicação das normas de isenção de ICMS a entidades beneficentes, um tema que combina tensão entre a capacidade contributiva, princípios constitucionais de subsídio a atividades assistenciais e o poder discricionário das administrações fazendárias estaduais. A legislação estadual baiana, por meio do artigo 265, inciso XI, de seu regulamento de ICMS, prevê isenção para entidades que comprovem natureza assistencial e cumprimento de requisitos específicos. A controvérsia frequentemente surge quando órgãos fazendários contestam a elegibilidade de contribuintes com base em fundamentos genéricos ou em interpretações restritivas de requisitos formais, sem suporte em análises técnicas robustas. Neste caso, a Secretaria de Fazenda baseou sua recusa em três argumentos: expiração do Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social (Cebas), impossibilidade de verificar ausência de finalidade lucrativa, e volume de operações incompatível com o benefício. A jurisprudência consolidada dos tribunais superiores tem enfatizado que a concessão de benefícios fiscais constitui direito subjetivo do contribuinte quando preenchidos os requisitos legais, não deixando margem significativa para arbítrio administrativo.
O que foi decidido
A magistrada Marcia Gottschald Ferreira deferiu a liminar com base em dois pilares fundamentais: a caracterização do periculum in mora (risco de dano irreparável) e a presença de fumus boni iuris (aparência de direito). A decisão reconheceu que a negação do credenciamento forçava a entidade a recolher ICMS sobre operações que a lei estadual, em tese, isentava, causando prejuízo financeiro imediato e irreversível às atividades assistenciais.
No tocante aos argumentos da administração, a juíza rebateu cada um: quanto à alegada expiração do Cebas, a entidade apresentou protocolo comprovando que a renovação havia sido realizada antes do vencimento anterior, desmontando a premissa fática do indeferimento. Relativamente à impossibilidade de aferir a destinação dos recursos, a magistrada observou que a documentação técnica apresentada (relatório detalhado de transferências) permitia verificar que o superávit operacional era reinvestido em finalidades estatutárias, confrontando diretamente a alegação de insolvência informativa. Quanto ao terceiro argumento — volume de operações e recursos públicos incompatíveis com isenção — a juíza identificou aparente ilegalidade, já que o regulamento estadual não prevê limitador de faturamento ou restrição fundada na origem pública de outras receitas para credenciamento.
A fundamentação repousa explicitamente no artigo 151, inciso IV, do Código Tributário Nacional, que disciplina hipóteses de suspensão de crédito tributário; no artigo 5º, LXIX, da Constituição Federal, que autoriza mandado de segurança contra ato ilegal ou abusivo de autoridade pública; e nos artigos 1º e 7º da Lei 12.016/2009, que exigem presença de direito líquido e certo e relevância do fundamento para deferimento da medida cautelar.
Base normativa e precedentes
- Art. 265, XI, Regulamento do ICMS/BA — Prevê isenção de ICMS para entidades beneficentes que cumpram requisitos de assistencialidade e documentação.
- Art. 151, IV, CTN — Disciplina suspensão de crédito tributário quando presentes condições legais.
- Art. 5º, LXIX, CF/88 — Fundamento constitucional para concessão de mandado de segurança contra abuso de autoridade pública.
- Arts. 1º e 7º, Lei 12.016/2009 — Exigem fumus boni iuris e periculum in mora para deferimento de liminar em mandado de segurança.
- Jurisprudência consolidada (STJ/STF) — O direito a benefício fiscal é direito subjetivo quando preenchidos requisitos legais; recusa arbitrária configura ato abusivo.
Impacto prático
Para a associação beneficente em questão, a liminar permite a suspensão imediata da exigibilidade de ICMS sobre operações de saída interna de mercadorias doadas e operações subsequentes, viabilizando a continuidade de atividades assistenciais sem pressão financeira de cobrança retroativa.
Para a Secretaria de Fazenda estadual, a decisão estabelece que indeferimentos de isenção não podem repousar em fundamentos genéricos ou em dúvida pura; exigem-se elementos técnicos concretos, como auditoria fiscal específica ou inconsistências documentais demonstráveis. Administrações fazendárias que pretendam negar isenção a entidades beneficentes devem documentar falhas objetivas, não suposições.
Para o terceiro setor baiano, a decisão sinaliza que cortes no acesso a benefícios fiscais com base em formalidades expiradas (Cebas) ou alegações de impossibilidade de verificação documentária, quando há prova material em contrário, tendem a ser revertidos pela via do mandado de segurança. Associações que cumprem requisitos estatutários dispõem de caminho jurídico viável para questionar negativas arbitrárias.
O que observar
O recurso cabível à decisão liminar é o agravo de instrumento, acessível à Secretaria de Fazenda para questionar a suspensão da exigibilidade. Eventual interposição redefinirá a discussão sobre relevância dos fundamentos fáticos e jurídicos.
A sentença final do mandado de segurança (MS 8094302-56.2026.8.05.0001) permanece pendente e pode trazer modulação de efeitos ou confirmação integral da tese. Advogados que representem entidades beneficentes em contencioso tributário devem observar que a decisão reforça o ônus da administração de fundamentar adequadamente negações de isenção, invertendo parcialmente a distribuição de ônus probatório consolidada em casos de benefícios fiscais.
Risco residual: a administração pode reformular indeferimento com base em auditoria fiscal concreta e específica, contornando a crítica de arbitrariedade. A sentença final do processo determinará se tal possibilidade sobrevive ou se a tese se consolida irrevogavelmente.
Você concorda com a decisão?
🔔 Acompanhe este assunto
Siga os temas desta matéria — a gente te avisa quando houver nova decisão ou conteúdo, direto no seu Meu JusFeed.
Comentários (0)
Seja o primeiro a comentar essa matéria.
Relacionadas em Tributário
Ver tudo
Justiça Federal do RS afasta IR sobre valorização na herança
Decisão da 13ª Vara Federal de Porto Alegre reconhece ausência de ganho tributável na transmissão hereditária e evita bitributação com o ITCMD.

Senado recebe proposta do TCU e avança fixação da alíquota da CBS
Senado passa a ter prazo para definir alíquota da CBS com impacto direto na neutralidade de arrecadação e no orçamento da União.

Juiz federal determina exclusão do ISS da base do PIS/Cofins
Decisão de primeira instância acolhe pedido para excluir ISS da base do PIS e da Cofins, em linha com o Tema 118 do STF; implicações práticas e limites.