TST afasta confissão ficta por atraso de cinco minutos em audiência telepresencial
A 6ª turma do TST entendeu que atraso ínfimo e ausência de prejuízo afastam confissão ficta; processo retorna à origem para nova instrução.

Decisão resumida: A 6ª turma do Tribunal Superior do Trabalho anulou a aplicação da confissão ficta imposta a reclamante que ingressou com cinco minutos de atraso em audiência telepresencial, concluindo pela ausência de prejuízo processual concreto; determinou-se a reabertura da instrução na vara de origem e novo julgamento.
Contexto
A controvérsia insere-se no debate prático sobre tolerância em audiências virtuais e os limites do instituto da confissão ficta, notadamente desde a massificação das sessões telepresenciais. A orientação consolidada pela OJ 245 da SBDI-1 aponta que não há previsão legal de tolerância para atrasos, mas a jurisprudência do TST pacificou exceções em que a rigidez da aplicação da penalidade ensejaria violação aos princípios do contraditório e da ampla defesa (art. 5º, LV, CF/88). A questão ganha relevo porque audiências digitais somam riscos técnicos (conexão, plataforma, autenticação) que podem tornar inócuo o rigor formalista se não houver prejuízo efetivo à parte contrária ou ao regular andamento processual.
O que foi decidido
A turma acolheu o recurso do trabalhador e declarou nulo o ato que reconhecera a confissão ficta. O fundamento central foi a avaliação concreta do prejuízo: no intervalo entre o apregoamento da audiência e o ingresso do reclamante — cinco minutos — não houve prática de qualquer ato instrutório relevante além da aplicação da penalidade. Assim, a colegiado entendeu que o atraso foi de pequena monta e não causou dano ao exercício do contraditório ou à defesa. Por consequência, determinou o retorno dos autos à origem para reabrir a instrução e proferir novo julgamento, afastando a eficácia da confissão ficta que havia sido aplicada na sentença de primeiro grau.
Base normativa e precedentes
- Art. 5º, CF/88 — assegura o contraditório e a ampla defesa, fundamentos que orientam a interpretação protetiva em matéria processual.
- CLT (Decreto-Lei 5.452/1943) — regime jurídico das relações trabalhistas, que disciplina o procedimento e produção de provas no processo do trabalho.
- CPC (Lei 13.105/2015) — aplicação subsidiária no processo do trabalho e princípios gerais do processo civil, inclusive sobre nulidades e atos praticados sem prejuízo.
- OJ 245, SBDI-1 — orientação da Subseção I Especializada em Dissídios Individuais que dispõe não haver previsão legal de tolerância para atrasos do comparecente às audiências.
- Jurisprudência do TST — entendimento consolidado em precedentes que autoriza flexibilização da OJ 245 em situações excepcionais quando o atraso é ínfimo e inexistente o prejuízo processual concreto.
Impacto prático
- Para advogados trabalhistas: reforça a necessidade de demonstrar concretamente o prejuízo causado pelo atraso quando da impugnação da confissão ficta; instrumentos probatórios (registro de apregoamento, ata eletrônica da audiência, prints de tentativas de conexão) tornam-se decisivos.
- Para empresas e empregadores: limita o uso automático da pretensão punitiva (confissão ficta) quando o atraso do reclamante for de curta duração e não houver atos instrutórios praticados. A estratégia processual deve priorizar a demonstração de efetivo prejuízo caso se pleiteie manutenção da penalidade.
- Para magistrados: orienta para avaliação casuística, ponderando proporcionalidade e razoabilidade antes de decretar confissão ficta em ambiente digital; deve-se registrar de modo claro os atos praticados antes de encerrar a sessão.
- Para processos em curso: decisões já confirmadas por tribunais regionais podem ser objeto de recurso ao TST quando exista pauta de nulidade semelhante; os autos voltarão à origem para reabertura quando verificada a ausência de prejuízo material.
O que observar
- Prova do prejuízo: o tribunal exigirá exame concreto do dano processual. A mera formalidade do encerramento não é suficiente; o manejo de provas sobre o fluxo da audiência é essencial.
- Registro e diligência das partes: advogados devem anotar e, quando possível, formalizar protesto imediato em ata contra encerramento prematuro, ainda que o tribunal de origem tenha considerado preclusa a argumentação por ausência de protesto.
- Precedente não absoluto: a decisão reafirma flexibilização, não eliminação, da OJ 245; cada caso continuará sujeito à valoração sob os princípios do contraditório, ampla defesa e proporcionalidade.
- Recursos e repercussão: cabe recurso ordinário ou embargos nas hipóteses previstas, e a modulação de efeitos pode ser cogitada em caso de impacto massivo nas varas trabalhistas.
- Aspecto tecnológico: tribunais e partes devem aprimorar protocolos de autenticação e registros eletrônicos das chamadas para reduzir litígios sobre atrasos originados por falhas técnicas.
A decisão reforça a orientação prática de que, no processo do trabalho telepresencial, prevalece a avaliação material do prejuízo e a proteção dos direitos de defesa sobre soluções meramente formais que resultem em perda de mérito por lapsos diminutos.
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