Evolução do terceiro setor: lições jurídicas da obra comemorativa
Livro do Mattos Filho reúne debate sobre governança, compliance, fundos patrimoniais e desafios regulatórios que moldam o futuro do terceiro setor.

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A publicação comemorativa do Mattos Filho sistematiza avanços e desafios regulatórios do terceiro setor, destacando governança, compliance e instrumentos como fundos patrimoniais e filantropia familiar; a obra sinaliza tendências que impactarão a gestão jurídica e fiscal das organizações da sociedade civil no curto e médio prazo.
Contexto
Nas últimas décadas o chamado terceiro setor — composto por associações, fundações, OSCIPs e outras entidades sem fins lucrativos — passou por um processo de profissionalização e maior articulação com o setor público e o mercado. Esse amadurecimento teve como vetores a exigência por transparência, melhores práticas de governança e a necessidade de segurança jurídica para atrair recursos privados e administrar parcerias com o Estado. Ao mesmo tempo, a agenda regulatória brasileira foi sendo construída por normas que buscam compatibilizar a autonomia dessas organizações com mecanismos de controle e de fomento, notadamente a Lei 13.019/2014 (o chamado Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil) e o regime civil das associações e fundações previsto no Código Civil (Lei 10.406/2002).
A relevância desta matéria para advogados, consultores e dirigentes do terceiro setor decorre de questões práticas: estruturação de fundos patrimoniais, captação via incentivos fiscais, compliance e gestão de riscos jurídicos, além de temas emergentes como finanças sustentáveis, diversidade, justiça climática e uso de inteligência artificial nas práticas de impacto social. A obra em questão aposta numa abordagem interdisciplinar para mapear onde a regulação atual se ajusta — ou requer ajustes — face às novas demandas do ecossistema.
O que foi decidido
Ainda que não se trate de decisão jurisdicional, a coletânea funciona como uma orientação técnica: consolida entendimentos sobre quais práticas de governança e compliance devem ser adotadas e aponta instrumentos jurídicos mais apropriados para cada objetivo institucional. Em termos práticos, o posicionamento dos autores favorece:
- a adoção de estruturas formais de governança (conselhos independentes, comitês de auditoria e políticas escritas);
- a utilização de veículos como fundos patrimoniais para garantir perpetuidade financeira, preservando autonomia e segurança jurídica;
- a integração de controles de compliance e gestão de riscos como condição para atração de recursos corporativos e internacionais;
- a atenção aos impactos regulatórios decorrentes de reformas tributárias em discussão e das regras de fomento (incentivos fiscais) que influenciam fontes de financiamento.
A coletânea posiciona a governança e o compliance não apenas como requisitos de prestação de contas, mas como elementos centrais para a sustentabilidade institucional e para a confiança de doadores, empresas e Poder Público.
Base normativa e precedentes
- Art. 5º, CF/88 — garante, entre outros, a liberdade de associação, fundamento básico para a atuação do terceiro setor.
- Código Civil (Lei 10.406/2002) — disciplina associações e fundações (arts. sobre constituição, finalidade, patrimônio e extinção), essencial para regime jurídico das entidades.
- Lei 13.019/2014 — estabelece o marco regulatório para parcerias entre administração pública e organizações da sociedade civil, definindo regras para seleção, execução, transparência e responsabilização.
- Lei 8.313/1991 (Lei Rouanet) — exemplo de norma que estrutura mecanismos de incentivo fiscal para cultura; analogias e lições são relevantes para regimes de incentivo ao impacto social.
- CTN (Lei 5.172/1966) — normas gerais de direito tributário influenciam tratamentos fiscais aplicáveis a doações, isenções e incentivos.
- LGPD (Lei 13.709/2018) — impõe obrigações de proteção de dados pessoais relevantes para ONG e fundos que tratam de informações sensíveis de beneficiários.
- Jurisprudência: a coletânea reforça práticas consolidadas pela jurisprudência administrativa e judicial no que tange à necessidade de transparência e motivação na celebração de parcerias público-privadas com organizações da sociedade civil, remetendo à jurisprudência consolidada dos tribunais sobre controle da aplicação de recursos.
Impacto prático
- Para advogados e consultores: a obra fornece roteiro técnico para estruturar instrumentos (estatutos, contratos de parceria, termos de doação, regulamentos de fundos patrimoniais) compatíveis com requisitos de governança e compliance exigidos por financiadores e pelo poder público.
- Para organizações sem fins lucrativos: reforça a necessidade de políticas internas robustas (code of conduct, due diligence de doadores, gestão de conflitos, controles contábeis) para ampliar acesso a recursos e reduzir contingências legais.
- Para empresas e doadores: oferece critérios para avaliação de risco jurídico e de impacto social, o que tende a profissionalizar due diligence e contratos de apoio filantrópico.
- Para gestores públicos: sinaliza expectativas sobre transparência e prestação de contas em parcerias reguladas pela Lei 13.019/2014, com potencial influência em editais e termos de execução.
O que observar
- Regulação em evolução: discussões sobre reforma tributária podem alterar incentivos fiscais que hoje sustentam parte da captação de recursos do terceiro setor; advogados devem acompanhar propostas e cenários de transição tributária.
- Modulação e segurança jurídica para fundos patrimoniais: ainda há lacunas práticas sobre tributação e regime patrimonial desses veículos; convém monitorar orientações administrativas e eventuais decisões judiciais que definam contornos fiscais.
- Convergência com compliance corporativo: a profissionalização exigirá que entidades sem fins lucrativos incorporem práticas de governança próximas às do setor empresarial, o que suscita custos e necessidades de capacitação jurídica.
- Proteção de dados e IA: utilização de inteligência artificial em projetos sociais impõe atenção aos preceitos da LGPD e à avaliação de riscos éticos e legais; contratos com fornecedores de tecnologia devem prever responsabilidades e medidas técnicas adequadas.
- Riscos reputacionais e de responsabilização: falhas de governança podem resultar em responsabilização administrativa, civil e, em casos extremos, penal; a prevenção passa por políticas escritas, auditorias independentes e transparência ativa.
Em síntese, a obra comemorativa funciona como um compêndio prático e estratégico para atores jurídicos que assessoram ou dirigem organizações do terceiro setor. Ao mapear instrumentos jurídicos, riscos e tendências, o livro reforça que a segurança jurídica e a governança eficaz são pré-condições para a ampliação do impacto social no Brasil — e que mudanças normativas e tecnológicas exigirão atualização contínua de práticas jurídicas e de gestão.
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