Exposição no CNJ documenta trajetória de mulheres após epidemia de Zika
Mostra inédita reúne fotografias e relatos de famílias alagoanas dez anos após crise sanitária, refletindo sobre cuidado, memória e acesso a direitos.
Dez anos após o encerramento da emergência epidemiológica de Zika, uma exposição em cartaz no Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em Brasília propõe revisitar as consequências duradouras da crise, focando nas experiências e trajetórias de mulheres e famílias alagoanas que permanecem em processo de reorganização e cuidado contínuo — revelando dimensões frequentemente ausentes do registro oficial das emergências sanitárias.
Contexto
A epidemia de Zika marcou o Brasil entre 2015 e 2016 como epicentro de uma emergência global de saúde pública, particularmente associada ao aumento de casos de microcefalia em recém-nascidos. A Região Nordeste, especialmente Alagoas, concentrou o maior número de gestações afetadas. Passado o pico da crise e encerrados os boletins epidemiológicos, o cenário institucional e público deslocou sua atenção, mas para as famílias atingidas a emergência não cessou — transformou-se em rotina de cuidado especializado, lutas por políticas públicas de saúde e assistência social, e processamento psicológico e coletivo do trauma vivido.
Historicamente, narrativas sobre crises sanitárias centram-se em dados epidemiológicos, intervenções médicas e análises estatísticas. Raramente registram-se, de forma sistemática e com dignidade narrativa, as vozes das mulheres e famílias diretamente impactadas — particularmente mulheres de baixa renda e periféricas, cujas perspectivas encontram obstáculos para circulação em espaços institucionais como o Judiciário. A exposição surge, nesse contexto, como instrumento de reparação memorialística e de abertura institucional a narrativas plurais sobre saúde, direitos e cidadania.
O que foi decidido e exposto
A mostra intitulada "[ainda]" permanecerá em visitação pública até 12 de junho de 2026, de segunda a sexta-feira, das 12h às 18h, no hall do auditório do CNJ, em Brasília. O título escolhido condensa a proposta curatorial: a palavra entre colchetes remete àquilo que persiste após o fim da visibilidade pública — as mulheres, as crianças, as redes familiares, as demandas por políticas públicas que "ainda" existem e "ainda" requerem atenção, reconhecimento e recursos.
A estrutura expositiva combina fotografias, relatos orais documentados, linha do tempo reconstituída, e objetos pessoais — enxovais, pertences das famílias — que funcionam como vetores de memória sensível. Trata-se de uma abordagem não-linear e emotivamente densa, que recusa a frieza documental e convida visitantes a percorrer narrativas de afeto, resiliência e luta. A juíza auxiliar da presidência do CNJ, Camila Pullin, afirmou que a abertura do espaço institucional para a mostra representa "abrir espaço para vozes que historicamente foram pouco ouvidas nos ambientes institucionais", reforçando a dimensão política e de direitos humanos da iniciativa.
Base normativa e precedentes
- Constituição Federal, art. 196 — Saúde como direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.
- Lei Orgânica da Saúde (Lei 8.080/1990) — Estabelece as diretrizes e bases para organização dos serviços de saúde no Brasil, incluindo vigilância epidemiológica e ações de saúde coletiva.
- Direitos reprodutivos e dignidade sexual — Marco normativo consolidado nas conferências internacionais (CEDAW, Plataforma de Ação de Pequim) e jurisprudência de tribunais de direitos humanos, sustentando que mulheres têm direito à informação, recursos e dignidade em contextos de emergência sanitária.
- Memória coletiva e reparação simbólica — Jurisprudência internacional (Corte Interamericana de Direitos Humanos) e prática de tribunais de justiça transicional reconhecem exposições memorialísticas como instrumento de reparação imaterial e reconhecimento de violações de direitos.
Impacto prático
- Para mulheres e famílias atingidas: A exposição oferece espaço de validação narrativa e testemunho público, elemento relevante para processamento coletivo do trauma e para fundamentar demandas por políticas compensatórias (bolsas de cuidado, terapias, educação especial).
- Para o Poder Judiciário e CNJ: A iniciativa sinaliza abertura institucional a narrativas de direitos humanos e memória coletiva, reposicionando o tribunal como espaço de diálogo com sociedade civil e grupos vulneráveis — relevante para legitimação e reflexão sobre acesso à justiça.
- Para formulação de políticas públicas: Os relatos e objetos expostos funcionam como evidência qualitativa sobre lacunas de assistência social, saúde mental, educação inclusiva e benefícios previdenciários para crianças com deficiência, informando e legitimando reivindicações de ampliação de programas.
- Para pesquisa e documentação histórica: A curadoria de antropóloga reconhecida (Débora Diniz) e integração ao projeto internacional "After the End" qualificam a iniciativa como acervo memorialístico duradouro e acessível, preenchendo lacuna entre registro sanitário oficial e narrativa vivida.
O que observar
Alcance e sustentabilidade: A exposição temporária de seis meses no CNJ representa avanço, mas questiona-se sua continuidade e expansão a outras capitais e regiões afetadas. A transformação de iniciativa memorialística em programa institucional permanente do CNJ ou Sistema de Justiça requer definição de orçamento, curadoria continuada e articulação com centros de pesquisa.
Ponte com demandas judiciais: Embora a mostra seja instrumento de reparação simbólica, é relevante investigar se narrativas e documentação expostas subsidiarão futuras ações coletivas (ações civis públicas, mandados de injunção) sobre políticas de saúde e assistência a crianças com síndrome congênita de Zika.
Pluralidade de vozes: A participação de AFAEAL (Associação de Famílias de Anjos) e comitês de mulheres na curadoria reduz risco de apropriação institucional, mas deve-se acompanhar se editorialização curatorial preserva complexidade e divergências nas experiências das mulheres, evitando homogeneização heroica.
Documentação pública: Recomenda-se que catálogo, vídeos e registros da exposição sejam digitalizados e disponibilizados em plataforma pública acessível, ampliando impacto além da visitação presencial em Brasília.
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