Pular para o conteúdo
JusFeed · Memória ForenseJusFeed
TrabalhistaTRT-3

Vara do Trabalho fixa R$ 250 mil a filho não nascido por morte em trator

Juiz reconheceu culpa patronal por falta de treinamento e condições inseguras; fixou danos morais e pensão para companheira e filha que ainda estava gestante.

Consultor Jurídico (ConJur)5 min de leitura
Vara do Trabalho fixa R$ 250 mil a filho não nascido por morte em trator
Foto: Jonathan Cooper / Unsplash

A Vara do Trabalho de Nanuque (MG) condenou empregadora por acidente fatal envolvendo trator e fixou indenizações por danos morais no total de R$ 400 mil — R$ 150 mil à companheira e R$ 250 mil à filha que ainda estava no ventre quando o pai morreu — além de pensão mensal dividida entre ambas. A decisão, proferida pelo juiz Nelson Henrique Rezende Pereira, fundamentou-se na ausência de treinamento adequado, na permissão para que empregado exercesse função diversa daquela contratada e na existência de condições inseguras da máquina.

Contexto

A controvérsia insere-se no conjunto clássico de litígios sobre responsabilidade civil do empregador por acidente de trabalho. Temas recorrentes nessa linha são: desvio de função, treinamento e capacitação de trabalhadores, dever de manutenção e inspeção de máquinas agrícolas, e produção de prova testemunhal sobre rotinas de segurança. A jurisprudência trabalhista vem consolidando entendimentos no sentido de que a empresa responde objetivamente na esfera trabalhista por falhas de segurança quando se prova a omissão na prevenção de riscos, ainda que eventual alegação de culpa exclusiva do empregado seja suscitada. Normas como a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e a legislação de segurança e saúde no trabalho orientam a responsabilização, enquanto a fixação de pensão e danos morais obedece aos critérios de reparação civil aplicados no âmbito laboral.

O caso ganha relevo adicional porque a beneficiária direta da maior parcela da indenização é um nascituro à época do sinistro — hoje criança — o que acarreta discussão sobre o dano por privação de convivência paterna desde o nascimento e a quantificação do prejuízo moral a essa criança.

O que foi decidido

A sentença reconheceu que o trabalhador, contratado como motorista de caminhão-pipa, foi compelido a operar trator da atividade rural, função diversa daquela originalmente pactuada, sem o preparo formal necessário. Em prova testemunhal, restou demonstrado que a prática informal de treinamento era corriqueira na fazenda e que havia histórico de problemas nos freios dos tratores. Relatos de técnico de segurança recomendando paralisação para manutenção reforçaram a existência de riscos não mitigados.

Tais elementos levaram o magistrado a concluir pela culpa patronal. A empregadora não negou o acidente, mas imputou responsabilidade exclusiva ao trabalhador, sustentando que ele havia pedido autorização a correria para operar o trator. O juiz, ao analisar o conjunto probatório, afastou a tese de culpa exclusiva do empregado, registrando ausência de prova de imprudência ou descumprimento de normas pelo trabalhador.

Em termos concretos, a sentença: (i) condenou a empresa ao pagamento de danos morais de R$ 150 mil à companheira e de R$ 250 mil à filha; (ii) arbitraram pensão mensal calculada com base em 70% do salário do empregado, dividida igualmente entre as duas beneficiárias, com cada uma recebendo R$ 619,50 mensais, projetada com 13º; (iii) definiu duração distinta para a pensão — até 21 anos para a filha e até a idade em que o trabalhador completaria 75,6 anos para a companheira; (iv) apontou a necessidade de reconhecimento judicial da paternidade ante a ausência do nome do pai no assento de nascimento.

Base normativa e precedentes

  • Art. 7º, CF/88 — previsão de direitos dos trabalhadores, contexto constitucional de proteção ao trabalho.
  • CLT (Consolidação das Leis do Trabalho, Decreto-Lei 5.452/1943) — disciplina relação de emprego e extensão da responsabilidade do empregador por danos aos empregados, inclusive quanto a deveres de segurança.
  • Código Civil (Lei 10.406/2002) — regras sobre responsabilidade civil e obrigação de reparar dano (arts. 186 e 927), aplicáveis subsidiariamente ao âmbito trabalhista para indenização por dano moral e material.
  • Normas de segurança e saúde no trabalho (NRs do Ministério do Trabalho) — requisitos mínimos de capacitação, manutenção e condições seguras de operação de máquinas agrícolas, que orientam o padrão de cuidado exigível.
  • Jurisprudência: a sentença dialoga com a jurisprudência consolidada dos tribunais trabalhistas que responsabiliza o empregador pela falta de treinamento, desvio de função e omissão na manutenção de equipamentos; eventual fixação indenizatória tende a considerar gravidade, repercussão familiar e ausência de culpa concorrente.

Impacto prático

  • Para advogados trabalhistas: reafirma a possibilidade de pleitear danos morais substanciais e pensão quando comprovada culpa patronal por falta de treinamento e manutenção de equipamentos; reforça a importância da prova testemunhal e técnica (inspeção, laudos, recomendações de segurança).
  • Para empresas rurais e empregadores: alerta sobre risco jurídico e financeiro de permitir desvio de função e de operar máquinas sem manutenção e treinamento formal; incrementa a necessidade de políticas escritas de segurança e registros de capacitação.
  • Para processos em curso: decisões como essa tendem a estimular pedidos de pensão proporcional e indenização por privação de convivência paterna, inclusive quando o dano atinge nascituros; pode influenciar a dosimetria do quantum em demandas similares.
  • Para o juízo recursal (TRT-3): haverá reexame de matéria fática e de valoração probatória, sobretudo sobre extensão do dever de indenizar e cálculo da pensão; recursos poderão discutir a proporcionalidade dos valores e a metodologia de apuração da renda para a pensão.

O que observar

  • Prova técnica: o futuro julgamento no TRT-3 deve aprofundar análise sobre a suficiência das provas de risco (laudos, manutenção, ordens de serviço) e eventual responsabilização solidária.
  • Critérios de quantificação: a fixação de R$ 250 mil para a filha e R$ 150 mil para a companheira pode ser objeto de redução por recurso, com debate sobre critérios objetivos para liquidar dano moral e projeção de vida útil da pensão.
  • Efeitos do reconhecimento de paternidade: a menção à ausência do nome no registro civil implica necessidade de procedimento de investigação/declaração de paternidade, com consequências patrimoniais e sucessórias.
  • Riscos processuais: empregadores devem documentar treinamentos, autorizações e manutenção; advogados das vítimas devem buscar prova pericial e técnica para reforçar nexo causal.

A decisão enfatiza a centralidade do dever empresarial de prevenção e do dever de zelar pela integridade física dos trabalhadores — falhas nesse dever continuam a ensejar responsabilização significativa, inclusive quando a vítima deixa descendente que ainda estava gestante ao tempo do sinistro.

Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar essa matéria.

Relacionadas em Trabalhista

Ver tudo