Pular para o conteúdo
JusFeed
EmpresarialANÁLISE

Machado Meyer: 15 anos de mentoria feminina e impacto na liderança

Machado Meyer completou 15 anos de programa de mentoria feminina, com efeitos mensuráveis em promoções e maior participação feminina na liderança do escritório.

Migalhas4 min de leitura
Machado Meyer: 15 anos de mentoria feminina e impacto na liderança
Foto: Khara Woods / Unsplash

O Machado Meyer celebrou quinze anos de uma iniciativa interna de mentoria voltada a advogadas, reunindo participantes, mentores e lideranças do escritório para debater os resultados e as estratégias que favoreceram o avanço profissional de mulheres na banca. A reunião destacou indicadores de eficácia do programa — incluindo a relação entre participação e promoções — e situou a iniciativa no contexto mais amplo das políticas corporativas de diversidade, equidade e inclusão (DEI).

Contexto

O tema da promoção da igualdade de gênero nas carreiras jurídicas ganhou relevo nas últimas décadas, tanto por pressões regulatórias quanto por demandas de mercado e reputação. Escritórios de advocacia e sociedades empresariais têm buscado programas de desenvolvimento profissional (mentoria, patrocinadores institucionais, treinamentos) como respostas práticas às barreiras de progressão para mulheres, que incluem vieses implícitos, responsabilidades familiares desproporcionais e redes de relacionamento historicamente masculinas.

No Brasil, a discussão sobre igualdade de oportunidades tem fundamento constitucional e repercussões trabalhistas e societárias. A iniciativa privada assume papel central porque cabe a empregadores e sociedades de advogados adotar práticas internas que removam obstáculos estruturais. Ao mesmo tempo, selos, prêmios e reconhecimentos externos passaram a funcionar como mecanismos de accountability e sinalização de governança, influenciando reputação, captação de talento e relacionamento com clientes.

O que foi decidido

Não se trata de uma decisão judicial, mas de uma política corporativa consolidada. O escritório sistematizou um programa de mentoria feminina que, ao longo de 15 anos, evoluiu de ação pontual para política institucional reconhecida por entidades e premiações. O principal fato indicado pelos organizadores é o efeito concreto da mentoria sobre carreiras internas: uma maioria significativa dos mentorandos obteve avanços de carreira (promoções ou reconhecimentos formais) após participar do programa. Além disso, o quadro de lideranças femininas do escritório ultrapassou a marca de 40%.

Do ponto de vista organizacional, a casa combinou três elementos: (i) estrutura formal de mentoria com participação de sócios e sócias; (ii) visibilidade pública através de eventos e premiações; e (iii) mensuração de resultados, ainda que em indicadores internos. O evento que marcou os 15 anos teve painéis sobre liderança feminina e sobre como a mentoria favorece trajetórias profissionais, reafirmando a continuidade do programa como ferramenta estratégica de gestão de pessoas.

Base normativa e precedentes

  • Art. 5, CF/88 — princípio da igualdade e vedação a discriminações, fundamento constitucional para políticas de promoção de igualdade de oportunidades.
  • CLT (Decreto-Lei 5.452/1943) — regramento geral das relações de trabalho; programas de desenvolvimento profissional devem observar direitos trabalhistas e condições de trabalho.
  • Lei das S.A. (Lei 6.404/1976) — normas de governança societária e responsabilidades de administração; diversidade na liderança é tema relevante para boas práticas de governança corporativa.
  • Código Civil (Lei 10.406/2002) — aplicável às sociedades simples e regras contratuais entre sócios em escritórios de advocacia.
  • Reconhecimentos e selos (ex.: prêmios de mercado e selos da OAB/SP) — atuam como instrumentos de soft law que influenciam padrões de conformidade e reputação.

Impacto prático

  • Para advogados e advogadas: o caso ilustra que programas de mentoria, quando estruturalizados e apoiados pela alta gestão, podem acelerar trajetórias profissionais. A adoção de indicadores internos (promoções, méritos) cria prova empírica útil para avaliar retorno sobre investimento em desenvolvimento humano.

  • Para escritórios e departamentos jurídicos: demonstra a viabilidade de integrar iniciativas de DEI à estratégia de gestão de talentos sem alterar o quadro societário, mas influenciando composição de cargos de liderança e atração de clientes sensíveis a critérios ambientais, sociais e de governança (ESG).

  • Para clientes e mercado: reconhecimentos públicos e prêmios servem como sinal de qualidade de governança e atraem demandas de clientes institucionais que valorizam fornecedores com políticas de diversidade.

  • Para recrutamento e retenção: a evidencia de que 7 em cada 10 participantes obtiveram avanços funciona como argumento de retenção e atração de profissionais, reduzindo turnover e custos de substituição.

O que observar

  • Mensuração e transparência: escritórios que queiram replicar o modelo precisam evoluir das métricas internas para relatórios mais robustos (KPIs, taxas de promoção por coorte, análises de permanência e remuneração) para sustentar a eficácia frente a stakeholders.

  • Risco de compliance trabalhista e de governança: é importante que programas de mentoria observem igualdade de tratamento e não configurem favorecimento indevido que possa gerar questionamentos trabalhistas ou societários; a estrutura contratual do escritório (sociedade de advogados, associação simples, etc.) influencia o regime aplicável.

  • Escalabilidade e institucionalização: a transição de iniciativa pilotada por sócias para política institucional exige formalização (cronograma, critérios de seleção de mentoradas e mentores, duração das mentorias), com documentação para fins de auditoria interna e certificações.

  • Intersecção com regulação profissional: reconhecimentos da OAB e selos locais estimulam boas práticas, mas não substituem políticas internas consistentes. Escritórios devem acompanhar orientações da ordem e normas profissionais aplicáveis.

  • Próximos passos possíveis: ampliar o programa para incluir patrocinadores (sponsors), criar trilhas de desenvolvimento técnico e de liderança, e considerar divulgação periódica de resultados agregados para mercado.

Em síntese, a celebração dos quinze anos do programa do Machado Meyer ilustra como intervenção organizacional contínua e apoiada pela gestão pode produzir efeitos mensuráveis na ascensão profissional feminina no setor jurídico. A experiência reforça que políticas de mentoria, combinadas com governança ativa e relatórios de resultado, são instrumentos pragmáticos para traduzir princípios constitucionais de igualdade em práticas de gestão e governança corporativa.

Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar essa matéria.

Relacionadas em Empresarial

Ver tudo