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Município condenado por queda em calçada irregular e iluminação precária

TJ de Santa Catarina reconhece responsabilidade objetiva do município por omissão na manutenção de via pública; decisões estabelecem reparação por danos materiais, morais, estéticos e pensão vitalícia.

Migalhas4 min de leitura
Município condenado por queda em calçada irregular e iluminação precária
Foto: Iñaki del Olmo / Unsplash

O juiz da 2ª Vara Cível da comarca de São Francisco do Sul (SC) condenou o município a indenizar uma mulher que sofreu fratura e sequelas no tornozelo após queda em calçada com blocos desnivelados e iluminação insuficiente. A sentença reconheceu a responsabilidade objetiva do ente público, fixou R$ 20.000,00 por danos morais, R$ 5.000,00 por danos estéticos e pensão mensal vitalícia equivalente a 52,5% do salário mínimo, devida a partir do dia seguinte ao acidente.

Contexto

A controvérsia aborda tema recorrente no direito administrativo e da responsabilidade civil: até que ponto a omissão do poder público na conservação de logradouros e na prestação de serviços essenciais — como iluminação pública — gera obrigação de reparar danos sofridos por particulares. Há vasta jurisprudência sobre a responsabilização objetiva do Estado por atos comissivos ou omissivos relativos à manutenção de vias públicas, sobretudo quando a falha cria risco concreto e previsível à segurança de pedestres.

Divergências práticas ocorrem quanto à extensão do dever de cuidado municipal, provas exigidas para demonstrar o nexo causal e a quantificação das indenizações por danos morais, estéticos e pensão. Em distintos tribunais, a aferição da eventual culpa exclusiva da vítima, causa de terceiro ou força maior figura como ponto crítico para afastar a responsabilidade objetiva. O caso em análise insere-se nesse quadro: ocorreu à noite, próximo a parquinho infantil, com documentação médica, perícia e prova fotográfica juntadas aos autos.

O que foi decidido

O juiz considerou configurada a omissão do município no dever de conservar o passeio público e garantir iluminação adequada, aplicando a teoria da responsabilidade objetiva do ente público. A decisão assentou que a perícia médica confirmou compatibilidade entre a dinâmica do acidente e as lesões relatadas; a gravação noturna e depoimentos corroboraram a precariedade da iluminação; fotografia do local mostrou irregularidades no pavimento e cavidades.

Entendeu-se presente o nexo de causalidade entre a omissão administrativa e o dano experimentado pela autora. Como o município não demonstrou causa excludente de responsabilidade — nem culpa exclusiva da vítima —, foi condenado a reparar: R$ 20.000,00 por dano moral, R$ 5.000,00 por dano estético e pensão vitalícia calculada com base em percentagem do salário mínimo (52,5%), em razão da limitação funcional permanente que inviabiliza atividades que demandem longos períodos em pé.

Base normativa e precedentes

  • Art. 37, CF/88 — estabelece a responsabilidade objetiva do Estado por atos administrativos que causem danos a terceiros, nos termos do parágrafo que prevê a responsabilidade do ente público.
  • Art. 186, Código Civil (Lei 10.406/2002) — define o dever de indenizar quando há ato ilícito que cause dano a outrem.
  • Art. 927, Código Civil — disciplina a obrigação de reparar o dano, aplicável subsidiariamente na definição dos parâmetros de indenização.
  • Jurisprudência consolidada dos tribunais — precedentes dos tribunais estaduais e superiores reconhecem a responsabilização objetiva do poder público por omissão na manutenção de vias e prestação inadequada de serviços públicos que exponham cidadãos a risco.
  • Critérios periciais e tabelas referenciais (uso habitual na fixação de pensão) — a decisão aplicou, de forma proporcional, parâmetros técnicos de limitação funcional para dimensionar a pensão, referência comum em decisões que tratam de sequela permanente.

Impacto prático

  • Para advogados de vítimas: a decisão reforça que reunião probatória mínima — atendimento médico com registro horário, perícia compatível, provas fotográficas e testemunhais sobre estado da via/iluminação — pode consolidar a tese de nexo causal e ensejar reparação ampla, inclusive pensão vitalícia.
  • Para municípios e gestores públicos: reafirma a obrigação de manter calçadas e iluminação públicas em condições seguras; a ausência de manutenção pode culminar em responsabilidade objetiva, independentemente de culpa técnica do agente público.
  • Para seguradoras e administradores de risco: decisões dessa natureza elevam a importância de programas de inspeção e manutenção preventiva de vias públicas, bem como de instruções normativas que documentem intervenções para eventual excludente de responsabilidade.
  • Para ações em curso: sentenças que reconhecem pensão vitalícia vinculada ao salário mínimo exigem atenção sobre atualização e forma de pagamento, e tendem a gerar execução de sentenças com pedidos de liquidação de debito e cálculos periódicos.

O que observar

  • Provas e inversão do ônus: a cognição da omissão descansa na prova do estado do local e na correlação temporal/causal. Municípios podem atenuar risco documentalizando manutenções periódicas ou planos de iluminação; a ausência dessa prova favorece o autor.
  • Quantificação da pensão: a fixação em percentual do salário mínimo, ainda que prática adotada em alguns julgados, pode ser objeto de recurso ou impugnação por se apoiar na comprovação do efetivo prejuízo econômico; crítica possível é a utilização de parâmetro remuneratório mínimo quando não há comprovação salarial da época.
  • Recursos cabíveis: interesse público e repercussão fiscal podem motivar recurso às instâncias superiores; em sede recursal, discutem-se prova, valoração dos danos e eventual modulação dos efeitos da condenação.
  • Modulação e políticas públicas: decisões desta natureza pressionam por políticas municipais proativas de conservação urbana e por normatização técnica que delimite responsabilidades e cronogramas de manutenção, diminuindo exposição a condenações futuras.

Esta decisão sintetiza a aplicação prática da responsabilidade objetiva administrativa na seara das quedas em logradouro público mal conservado e mal iluminado, reiterando exigência probatória moderada para o autor e o risco financeiro que a omissão estatal representa para as finanças municipais.

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