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PISA amplia avaliação e inclui medição de pensamento crítico com IA

Programa Internacional de Avaliação de Estudantes expande escopo para avaliar capacidade crítica dos adolescentes em ambientes digitais.

Folha — Cotidiano4 min de leitura
PISA amplia avaliação e inclui medição de pensamento crítico com IA
Foto: Vitaly Gariev / Unsplash

O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) — um dos mais importantes instrumentos de mensuração de competências educacionais em nível mundial — anunciou expansão significativa de seu escopo avaliativo. A partir de sua próxima rodada, a avaliação passará a incluir medição explícita da capacidade de adolescentes em agir de forma crítica e responsável em contextos mediados por plataformas digitais e sistemas de inteligência artificial.

Contexto

O PISA, coordenado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), realiza avaliações trienais em leitura, matemática e ciências desde 2000. Historicamente, o instrumento concentrou-se em habilidades cognitivas tradicionais, deixando à margem competências relacionadas ao pensamento crítico frente a ambientes digitais e algorítmicos.

A decisão de ampliar o escopo reflete transformação estrutural no mercado de trabalho e na cidadania digital global. Estudos apontam que a geração atual de adolescentes cresce em ecossistema permeado por sistemas de IA, redes sociais e plataformas de recomendação — ambientes nos quais a capacidade de questionar, verificar informações e identificar vieses algorítmicos tornou-se habilidade fundamental.

No Brasil, a questão ganha relevo adicional: a Lei nº 14.533/2023 (que institui diretrizes sobre IA) e a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD — Lei 13.709/2018) estabelecem frameworks que pressupõem cidadãos capazes de compreender implicações de sistemas automatizados. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) já menciona literacia digital como competência transversal, mas sua mensuração em avaliação internacional permanecia fragmentária.

O que foi decidido

O PISA incorporará novo eixo temático dedicado à avaliação de pensamento crítico no contexto de inteligência artificial e plataformas digitais. Essa expansão significa que adolescentes participantes das próximas rodadas serão avaliados não apenas em suas competências de leitura, cálculo e raciocínio científico, mas também em sua capacidade de:

  • Identificar fontes confiáveis em ambiente digital saturado de desinformação;
  • Reconhecer padrões de manipulação algorítmica e polarização;
  • Questionar recomendações geradas por sistemas de IA;
  • Compreender direitos e responsabilidades em plataformas digitais;
  • Avaliar credibilidade de conteúdos gerados ou intermediados por IA.

A medição será integrada aos testes existentes, com questões específicas que simularão cenários reais — desde verificação de fakesnews até análise de recomendações personalizadas potencialmente enviesadas.

Base normativa e precedentes

  • Lei 13.709/2018 (LGPD) — Estabelece direitos de transparência e explicabilidade sobre uso de dados pessoais, pressupondo educando capaz de compreender direitos;
  • Lei 14.533/2023 — Define princípios de governança e responsabilidade em IA, incluindo educação como pilar;
  • Base Nacional Comum Curricular (BNCC) — Contempla literacia digital e pensamento crítico como competências transversais, embora sem instrumento sistemático de mensuração internacional;
  • Recomendação UNESCO (2021) — Propõe inclusão de ética e governança de IA em currículos escolares.

Impacto prático

Para o Brasil, a expansão do PISA acarreta consequências em múltiplos planos:

Para formuladores de política educacional: Pressão por adequação curricular. Estados e municípios deverão revisar currículos de ensino médio para incluir explicitamente conteúdos sobre IA, literacia de dados e pensamento crítico algorítmico.

Para gestores e docentes: Necessidade de capacitação. Professores de disciplinas diversas (português, história, ciências) precisarão integrar temas de IA e plataformas digitais a seus componentes, o que demanda formação continuada e recursos.

Para estudantes: Mudança na natureza das avaliações. Adolescentes serão testados em habilidades que vão além do memorismo e do raciocínio formal, exigindo pensamento reflexivo sobre tecnologia.

Para instituições de ensino superior: Sinais de mercado. Universidades brasileiras podem passar a oferecer disciplinas eletivas ou integradas sobre IA e cidadania digital, antecipando demanda por profissionais com essas competências.

Para pesquisa educacional: Dados comparativos. Os resultados do PISA expandido fornecerão mapa das competências críticas digitais de adolescentes brasileiros versus pares internacionais, diagnosticando lacunas.

O que observar

A implementação apresenta pontos de atenção:

  • Equidade e acesso: A avaliação de pensamento crítico em IA pressupõe exposição prévia dos estudantes a esses ambientes. Adolescentes de comunidades rurais ou economicamente vulneráveis podem estar em desvantagem se não houver investimento prévio em infraestrutura digital nas escolas;

  • Capacitação docente: A qualidade da avaliação dependerá de professores capazes de ensinar pensamento crítico digital. Brasil carece de formação inicial robusta nesse domínio;

  • Acesso à tecnologia: Escolas precisarão de laboratórios e conectividade adequados para que estudantes façam testes que simulem ambientes digitais reais;

  • Validade das métricas: Medir pensamento crítico em contexto algorítmico é desafio metodológico. A OCDE deverá garantir que itens avaliem genuinamente pensamento reflexivo e não apenas conhecimento factual sobre IA;

  • Possível regulamentação subsequente: Resultados do PISA expandido podem fundamentar novas normativas educacionais, possivelmente elevando padrões obrigatórios em literacia digital.

A decisão do PISA reconhece transformação profunda na natureza do conhecimento e da cidadania contemporânea. Para o Brasil, representa oportunidade de diagnosticar desafios educacionais na era da IA e de justificar investimentos em educação digital crítica.

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