TJRJ empossa 263 juízes leigos e reforça acesso à Justiça nos juizados
TJRJ realizou sessão de posse de 263 juízes leigos; medida visa desafogar pautas dos juizados especiais e ampliar acesso à justiça sob supervisão do juiz togado.

O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro empossou 263 juízes leigos em cerimônia na qual foram assinados os termos de compromisso para o exercício da função. A iniciativa busca ampliar a capacidade de atendimento dos Juizados Especiais, objetivando maior celeridade processual, preservando, entretanto, a supervisão e a decisão final do juiz togado.
Contexto
A utilização de juízes leigos nos Juizados Especiais é uma prática consolidada no ordenamento brasileiro para compatibilizar dois objetivos constitucionais: o amplo acesso à jurisdição e a garantia do exercício da magistratura por profissionais concursados. A Lei dos Juizados Especiais (Lei 9.099/1995) criou um rito simplificado para causas de menor complexidade, estimulando formas alternativas de solução de conflitos e procedimentos que demandam menor formalismo. Em consequência, surgiu a figura do juiz leigo — bacharel em Direito que atua sob coordenação do juízo togado, elaborando projetos de sentença e conduzindo atos de instrução em fase pré-decisória.
A relevância prática da controvérsia decorre de três vetores: (i) o risco de sobrecarga do sistema judicial em razão do volume de demandas nos juizados; (ii) os limites constitucionais e legais à delegação de atividades jurisdicionais a não magistrados, sobretudo em observância ao princípio da investidura por concurso público previsto na Constituição Federal; e (iii) a necessidade de equilíbrio entre eficiência e garantias processuais, evitando decisões unilaterais sem a adequada supervisão judicial.
O que foi decidido
Na cerimônia, o TJRJ formalizou a posse dos 263 juízes leigos aprovados no concurso interno, com assinatura do termo de compromisso que regulariza sua atuação. O Tribunal transmitiu orientação institucional clara: os juízes leigos atuam como auxiliares do juízo dos Juizados Especiais, produzindo projetos de sentença e realizando audiências, sempre com posterior homologação ou decisão do juiz togado. A sinalização administrativa é de que a ocupação dessas vagas visa reduzir filas processuais e agilizar a prestação jurisdicional, sem esvaziar a função decisória do magistrado concursado.
Os primeiros colocados do processo seletivo foram destacados na posse, e membros da Comissão Judiciária de Articulação dos Juizados Especiais (Cojes) reforçaram a função dos juízes leigos como instrumento de gestão de massa processual. Em termos práticos, o Tribunal reafirmou que a atuação desses auxiliares será supervisionada e que seus atos serão submetidos ao crivo do juiz togado, mitigando riscos de nulidades por usurpação de função jurisdicional.
Base normativa e precedentes
- Art. 5º, CF/88 — garantia do acesso à Justiça e devido processo legal; fundamentos para políticas que promovam maior atendimento jurisdicional.
- Art. 93, CF/88 — princípios da magistratura, incluindo a necessidade de provimento por concurso público e publicidade dos atos judiciais; balizamento dos limites de delegação.
- Lei 9.099/1995 (Juizados Especiais) — dispõe sobre competência, procedimento oral e conciliação nos juizados; suporta institucionalmente a utilização de auxiliares como juízes leigos.
- CPC (Lei 13.105/2015) — princípios processuais aplicáveis subsidiariamente quando compatíveis, como o impulso oficial e o controle jurisdicional dos atos processuais.
- Jurisprudência consolidada dos Tribunais — reconhecimento da legitimidade de juízes leigos quando há supervisão efetiva do juiz togado e observância das garantias fundamentais das partes.
Impacto prático
- Para advogados: aumento da movimentação inicial e agilidade nas audiências e decisões preliminares nos Juizados Especiais, exigindo atenção maior a atos preparatórios e possibilidades de impugnação dos projetos de sentença ao juiz togado.
- Para partes e consumidores: potencial redução do tempo de tramitação e maior disponibilidade de atendimento sem exigência de representação por advogado em determinados limites, ampliando o acesso efetivo à jurisdição.
- Para juízes togados: delegação de tarefas de produção material de decisões e condução de audiências, permitindo foco em decisão de mérito e controle das decisões finais; exige rotina de supervisão e revisão para evitar arguições de nulidade.
- Para a administração do Tribunal: instrumento de gestão de demanda que pode reduzir acervo pendente e tempo médio de tramitação, com necessidade de monitoramento de qualidade das decisões e formação continuada dos juízes leigos.
O que observar
- Limites constitucionais: é essencial que a atuação dos juízes leigos se dê na forma prevista em lei e sob supervisão efetiva do magistrado, a fim de resguardar o princípio do provimento por concurso público e o caráter indelegável de certas decisões judiciais.
- Controles processuais: advogados e partes devem estar atentos aos meios de impugnação dos projetos de sentença e à necessidade de manifestação tempestiva ao juiz togado quando houver divergência ou omissão.
- Risco de uniformização de baixa qualidade: adoção massiva sem critérios técnicos e sem formação pode gerar decisões padronizadas de frágil fundamentação, suscetíveis a anulação em grau de recurso.
- Futuro funcional: embora juízes leigos manifestem desejo de ascender à magistratura togada, não há conversão automática da função em provimento por concurso; o acesso ao cargo efetivo segue as regras constitucionais e estatutárias aplicáveis.
- Monitoramento institucional: recomenda-se que o Tribunal mantenha indicadores de produtividade e de qualidade (recursos, retrabalho, taxas de reversão) e investa em capacitação contínua para reduzir riscos operacionais e jurídicos.
A posse dos 263 juízes leigos pelo TJRJ reforça uma solução administrativa comprovada para o pressionamento dos Juizados Especiais, mas impõe responsabilidades técnicas e jurídicas que demandam supervisão, formação e critérios claros para que a expansão de capacidade não comprometa as garantias processuais e a legitimidade das decisões judiciais.
Você concorda com a decisão?
🔔 Acompanhe este assunto
Siga os temas desta matéria — a gente te avisa quando houver nova decisão ou conteúdo, direto no seu Meu JusFeed.
Comentários (0)
Seja o primeiro a comentar essa matéria.
Relacionadas em Administrativo
Ver tudo
TJ-RJ decidirá futuro do Campo Olímpico de Golfe na Barra
Turma do TJ-RJ vai definir se permissionária pode permanecer no Campo Olímpico de Golfe após término da cessão; decisão afeta gestão de legados públicos e direitos a indenização.

CNJ e tribunais fortalecem políticas para acesso à Justiça da população LGBTQIA+
O CNJ promoveu o II Encontro Direito LGBTQIA+ e Justiça para consolidar diretrizes da Resolução CNJ n. 582/2024 e ampliar instrumentos práticos como o Formulário Rogéria.

IBGE 2026: impacto jurídico da nova estimativa populacional
IBGE divulgou em 28/08/2026 estimativas populacionais municipais para 2026. As novas cifras têm efeitos diretos na partilha de recursos e planejamento público.