CNJ determina cancelamento de precatórios e devolução de R$ 4,7 bilhões
Corregedoria nacional determinou que o TRF-1 cancele 16 requisitórios expedidos sem trânsito em julgado e devolva R$ 4,7 bi à Conta Única do Tesouro.

Decisão sumária: O corregedor nacional de Justiça concedeu medida cautelar determinando que o Tribunal Regional Federal da 1ª Região cancele 16 precatórios relacionados a execuções do setor sucroalcooleiro e devolva aproximadamente R$ 4,7 bilhões à Conta Única do Tesouro Nacional, por entender que os requisitórios foram expedidos antes do trânsito em julgado da fase de execução; a decisão será submetida a referendo do plenário do CNJ e impõe prazo de cinco dias para o cumprimento das ordens.
Contexto
A controvérsia envolve a emissão, em 2022, de requisitórios de pagamento (precatórios) pela 6ª Vara Federal Cível da Seção Judiciária do Distrito Federal em execuções oriundas de ação ordinária contra a União. Segundo a União, os precatórios foram expedidos com um chamado “incidente de bloqueio” antes do trânsito em julgado da fase de execução; os montantes foram depositados em contas judiciais em dezembro de 2023 e totalizam cerca de R$ 4,738 bilhões. Posteriormente, a própria vara determinou o cancelamento desses requisitórios, mas parte dessas determinações foi suspensa pela presidência do TRF-1, que manteve os valores bloqueados. Inconformada, a União levou o caso ao Conselho Nacional de Justiça, que já havia decidido anteriormente sobre a ilegalidade de expedir precatórios sem o trânsito em julgado da execução.
A discussão ganha relevância prática e institucional porque contrapõe dois vetores: (i) a proteção do erário e da programação financeira da União; e (ii) medidas processuais locais que têm expedido requisitórios antes do esgotamento das fases recursais. A situação também ilumina a prática do chamado “precatório bloqueado” — mecanismo operacional que pretende reservar recursos sem integrar formalmente a fila cronológica prevista na Constituição — e os riscos de circulação e levantamento de valores em contas judiciais que deveriam, em tese, permanecer indisponíveis.
O que foi decidido
A turma do corregedor firmou medida cautelar para suspender os efeitos das decisões presidenciais do TRF-1 que impediram o cancelamento dos precatórios, restaurando as determinações da 6ª Vara Federal Cível no sentido de cancelar os requisitórios e devolver os valores à Conta Única do Tesouro Nacional. O fundamento central é a ausência de trânsito em julgado da fase de execução quando os requisitórios foram expedidos, bem como a inexistência de previsão legal para o instituto denominado “precatório bloqueado”.
O corregedor considerou configurado risco de dano ao erário, porque os valores ficaram fora da Conta Única e da programação financeira desde dezembro de 2023, e havia registro no sistema do TRF-1 de levantamento parcial de valores mesmo diante de determinações que, conforme a União, proibiam movimentação. A decisão ressalta que a devolução ao Tesouro não extingue o crédito discutido: caso se confirme a exigibilidade no futuro, poderá ser emitido novo requisitório atualizado pelas correções legais.
Além do cancelamento e da restituição dos depósitos com rendimentos, a cautelar proibiu levantamentos, transferências, expedição de alvarás e pagamentos de honorários vinculados aos requisitórios até a efetiva devolução; o TRF-1 foi intimado a informar, em cinco dias, as circunstâncias do eventual levantamento de R$ 16,1 milhões identificado no sistema.
Base normativa e precedentes
- Art. 100, CF/88 — disciplina o pagamento de precatórios pela Fazenda Pública, estabelecendo a ordem cronológica e a forma de liquidação de débitos judiciais.
- Resolução CNJ 303/2019 — regula procedimentos relativos a precatórios e determina parâmetros administrativos para a expedição e inclusão na ordem cronológica.
- Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) — normas orçamentárias anuais que impactam a inclusão de requisitórios na programação financeira da União (regime de previsão e dotação de recursos).
- CPC (Lei 13.105/2015) — disciplina a execução e os efeitos do trânsito em julgado, bem como atos executórios e medidas cautelares no processo de execução.
- Jurisprudência consolidada do CNJ e do STF — orientações anteriores do Conselho e do Supremo sobre a necessidade de trânsito em julgado para fins de inclusão de precatórios, e sobre a unicidade da lista cronológica.
Impacto prático
- Para a União e a administração pública: reforça a tutela do erário e da disciplina orçamentária, evitando que grandes montantes fiquem fora da Conta Única e da programação financeira sem certeza sobre a exigibilidade definitiva do crédito.
- Para tribunais e varas federais: limita práticas locais que venham a expedir requisitórios antes do esgotamento das fases recursais ou sem previsão legal expressa; impõe maior controle administrativo sobre movimentação de depósitos judiciais vinculados a precatórios.
- Para credores/partes beneficiárias de precatórios: atrasos no recebimento podem ocorrer enquanto persistir a controvérsia sobre o trânsito em julgado; caso a pretensão venha a ser confirmada, haverá novo requisitório com atualização monetária, mas o exercício efetivo do direito fica subordinado à correta formação da fila cronológica.
- Para advogados e procuradorias: aumenta a relevância de diligências processuais para assegurar trânsito em julgado ou demonstrar parcela incontroversa apta a liquidação; estratégia processual e administrativa deve contemplar a possibilidade de cancelamento e devolução de valores ao Tesouro.
O que observar
- A decisão é cautelar e depende de referendo do plenário do CNJ; o resultado colegiado pode confirmar, modular ou alterar a providência.
- A fundamentação aponta para vedação ao instrumento do "precatório bloqueado" por ausência de amparo legal; a questão pode ensejar discussões sobre eventual regulamentação administrativa ou necessidade de uniformização jurisprudencial entre TRFs.
- Risco de repercussões financeiras em execuções com depósitos judiciais: tribunais deverão aprimorar controles para evitar movimentações indevidas e prestar contas sobre saques detectados.
- Via recursal e administrativa: cabe acompanhar demandas de controle interno do TRF-1, eventuais recursos contra decisões interlocutórias das varas e futuras medidas do CNJ que consolidem procedimento uniforme.
- Para operadores: atenção à documentação que comprove a inexistência de parcela incontroversa e ao momento processual da execução para evitar expedição prematura de requisitórios.
Em suma, a medida reforça o princípio constitucional da unicidade da lista de precatórios e a exigência do trânsito em julgado como condição de eficácia para inclusão de requisitórios, com consequências práticas imediatas sobre a gestão financeira e administrativa de quantias depositadas em juízo.
Você concorda com a decisão?
🔔 Acompanhe este assunto
Siga os temas desta matéria — a gente te avisa quando houver nova decisão ou conteúdo, direto no seu Meu JusFeed.
Comentários (0)
Seja o primeiro a comentar essa matéria.
Relacionadas em Administrativo
Ver tudo
Senado aprova acordo espacial Brasil–Venezuela: alcance e implicações
O Senado aprovou o Acordo‑Quadro de Cooperação em Ciência e Tecnologia Espacial com a Venezuela; análise dos efeitos jurídicos, executórios e de política pública.

Corpo achado em rio no RS eleva debate sobre responsabilidade em desastres
Achado de idoso em carro submerso durante enchentes no RS reabre questões sobre dever de prevenção, investigação e eventual indenização pelo poder público.

PLP 230/2025 protege verbas do Fust e amplia foco em escolas rurais
Projeto que impede bloqueio dos recursos do Fust e direciona investimentos para escolas rurais vai a votação no Plenário; mudança afeta políticas públicas de conectividade.