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STJ debate validade de exigência de título AMB por cooperativa médica

A 3ª Turma do STJ empatou em recurso sobre se cooperativa pode exigir titulação da AMB; decisão envolve autonomia associativa e limites da Lei 5.764/1971.

Consultor Jurídico (ConJur)5 min de leitura
STJ debate validade de exigência de título AMB por cooperativa médica
Foto: Kenrick Baksh / Unsplash

A 3ª Turma do Superior Tribunal de Justiça registrou empate em recurso especial que discute se cooperativas médicas podem condicionar a admissão de médicos à apresentação de título de especialista expedido por filiados à Associação Médica Brasileira (AMB). O empate (2 a 2) suspendeu o julgamento, ficando pendente eventual voto de desempate da ministra ausente.

Contexto

A controvérsia envolve duas forças normativas e institucionais em tensão: por um lado, a autonomia estatutária de associações e cooperativas para estabelecer critérios de admissão de associados; por outro, o regime jurídico das cooperativas previsto na Lei 5.764/1971 e as normas profissionais que regulam a certificação de especialidade médica (registro junto ao Conselho Federal de Medicina e reconhecimento de programas de residência e cursos pelo Ministério da Educação). O tema ganhou relevo após o STJ consolidar, por meio de recursos repetitivos (Tema 1.212), parâmetros sobre processos seletivos e critérios de ingresso em entidades associativas, mas sem excluir a análise caso a caso sobre abusividade e ilegalidade de requisitos complementares.

No caso concreto, um médico com título de especialista reconhecido pelo Ministério da Educação e com qualificação confirmada pelo Conselho Federal de Medicina teve a admissão a uma cooperativa negada porque o estatuto da cooperativa exige titulação emitida por profissionais filiados à AMB. A divergência interna na 3ª Turma expõe duas linhas interpretativas: uma que privilegia a autonomia estatutária da cooperativa e outra que protege o princípio de acesso e a legalidade dos títulos reconhecidos por órgãos oficiais.

O que foi decidido

O julgamento foi interrompido com empate após quatro votos: a relatora votou pela validade da restrição estatutária e pelo afastamento do ingresso do médico, posição acompanhada por outro ministro, ambos entendendo que a cooperativa pode impor requisitos de titulação de acordo com seus estatutos e práticas internas. A relatora ressaltou que sua posição limita-se a reconhecer a possibilidade de impor restrições, sem hierarquizar formalmente a precedência dos títulos da AMB em relação aos títulos registrados no MEC ou reconhecidos pelo Conselho Federal de Medicina.

A divergência foi aberta por dois ministros que votaram pela manutenção do acórdão do Tribunal de Justiça de São Paulo, que admitiu o médico. Para esses votos minoritários, a residência e o registro de especialista reconhecidos pelo Conselho Federal de Medicina são suficientes e a exigência adicional de certificação pela AMB configura requisito abusivo e incompatível com a Lei 5.764/1971. Um dos ministros apontou que, uma vez comprovada a especialidade perante o órgão profissional competente, exigir selo adicional de entidade privada é dessarazoado e contraria a finalidade cooperativista de prestação de serviços.

Como não houve desempate, a controvérsia permanece sem solução definitiva no STJ até eventual habilitação da ministra ausente ou reapreciação em futura sessão.

Base normativa e precedentes

  • Art. 5º, CF/88 — garantia de liberdade de associação e vedação a restrições indevidas, relevante para ponderar direitos dos indivíduos frente às entidades privadas.
  • Lei 5.764/1971 (Lei das Cooperativas) — disciplina a organização e funcionamento das sociedades cooperativas, sendo parâmetro para aferir compatibilidade estatutária das exigências de ingresso.
  • Resoluções do Conselho Federal de Medicina (CFM) — regulam o registro e reconhecimento de títulos de especialista, critério técnico para validade da qualificação profissional.
  • Tema 1.212, STJ (recursos repetitivos) — trata de processo seletivo e critérios de ingresso em entidades; usado como referência para admitir limite à atuação judicial frente a regras estatutárias, sem eliminar controle quanto a abusividade.
  • Jurisprudência consolidada do tribunal — orienta que, apesar da autonomia associativa, requisitos estatutários não podem violar normas de proteção à concorrência, ao trabalho ou à legalidade administrativa.

Impacto prático

  • Para cooperativas médicas: a composição do estatuto e os critérios de admissão continuam sendo ferramenta legítima, mas com risco de controle judicial caso a exigência extrapole o que a legislação de cooperativas e as normas profissionais permitem.
  • Para médicos e profissionais de saúde: títulos reconhecidos pelo MEC e registrados no CFM mantêm força probatória relevante; a exigência de certificação adicional por entidade privada pode ser contestada administrativamente e judicialmente por abuso.
  • Para operadores do direito (advogados e magistrados): o caso reforça a necessidade de confrontar estatutos com Lei 5.764/1971 e normas do CFM; estratégias processuais devem enfatizar prova documental do reconhecimento profissional e demonstrar eventual abusividade de exigências estatutárias.
  • Para precedentes futuros: a ausência de desempate adia a uniformização da tese no STJ, deixando espaço para decisões divergentes nos tribunais estaduais até nova definição.

O que observar

  • Habilitação da ministra ausente: se ela for considerada apta a votar, poderá desempatar a questão e consolidar a interpretação do STJ. Caso contrário, o empate deixa o entendimento controvertido.
  • Possível modulação ou distinção de casos: mesmo que reconhecida a validade da exigência estatutária, o tribunal pode modular efeitos ou estabelecer limites (por exemplo, exigir compatibilidade com normas do CFM/MEC e vedar requisitos que importem em discriminação desproporcional).
  • Recursos cabíveis: dependendo do desfecho, decisões contrárias poderão ensejar embargos de declaração ou recurso especial por violação de lei federal (Lei 5.764/1971, normas do CFM), sem afastar repercussões constitucionais sobre liberdade de associação.
  • Risco prático: empresas e cooperativas devem revisar cláusulas estatutárias que condicionem ingresso a certificações de entidades privadas para evitar litígio e passivos trabalhistas ou associativos.

Conclusão concisa: a discussão coloca em choque a autonomia normativa interna das cooperativas com a proteção conferida aos títulos reconhecidos por órgãos públicos e conselhos profissionais. Sem decisão final do STJ, permanece a zona cinzenta entre validação estatutária e controle contra exigências abusivas, o que exige cautela na redação estatutária e atuação defensiva por parte de médicos que detenham titulação oficial.

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