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Desastre no Nepal e lições para gestão de riscos nos Andes e Brasil

A avalanche no Himalaia expõe fragilidades na gestão de riscos geológicos; lições estratégicas para defesa civil, planejamento territorial e políticas ambientais no Brasil.

Folha — Cotidiano5 min de leitura
Desastre no Nepal e lições para gestão de riscos nos Andes e Brasil
Foto: Margaret Giatras / Unsplash

A avalanche que devastou vales no Himalaia e deixou centenas de mortos e milhares de desaparecidos deve ser lida como um alerta direto para a capacidade de gestão de riscos nas cadeias montanhosas da América do Sul, em especial os Andes, e para a articulação institucional no Brasil. A tragédia ilustra como combinações de instabilidade glacial, precipitação extrema e infraestrutura vulnerável podem gerar eventos de alto impacto que extrapolam a resposta de emergência tradicional.

Contexto

Nos últimos anos, há crescente reconhecimento técnico de que ambientes de alta montanha são pontos críticos para a interação entre processos geológicos e climáticos: degelo acelerado, instabilidade de permafrost ou gelo montano, e episódios pluviométricos intensos elevam a probabilidade de deslizamentos e janelas de risco para eventos do tipo avalanches complexas (mistura de gelo, rocha, água e detritos). No plano normativo brasileiro, a proteção ambiental e a prevenção de riscos naturais se articulam com princípios constitucionais e leis infraconstitucionais, mas a adoção de medidas territoriais preventivas e a integração entre órgãos federais, estaduais e municipais permanecem fragmentadas em muitos contextos.

A controvérsia importa porque a repetição de episódios extremos em cadeias montanhosas que concentram populações, infraestrutura crítica e regimes hídricos pode provocar desastres sistêmicos: córregos entupidos por sedimentos, barragens de detritos, colapso de estradas e linhas de transmissão, e crise humanitária em áreas de difícil acesso. Para o Brasil e países andinos, a combinação de expansão de ocupação em encostas, defasagem em monitoramento geotécnico e capacidade limitada de resposta eleva a vulnerabilidade.

O que foi decidido

Embora não se trate de uma decisão judicial, a análise converte o episódio em um juízo técnico-político: a avalanche no Himalaia funciona como um estudo de caso que demanda reorientação de políticas públicas. A principal tese é que prevenção e planejamento territorial devem passar a ocupar lugar central na agenda de gestão de risco, com ênfase em três vetores: monitoramento geotécnico contínuo; revisão de normas de ocupação e infraestrutura em áreas de encosta; e fortalecimento institucional do sistema de defesa civil e da governança ambiental.

Os fundamentos centrais são: (i) eventos glaciares e de massa não são exclusivamente naturais no sentido imutável — sua frequência e intensidade são influenciadas por variáveis ambientais que políticas públicas podem mitigar; (ii) reduzir mortalidade e perdas econômicas exige investimentos ex-ante em mapeamento de risco, sistemas de alerta precoce e obras de contenção adequadas às dinâmicas locais; (iii) a coordenação intergovernamental e o compartilhamento de dados entre agências técnicas são condição necessária para respostas célere e eficaz.

Base normativa e precedentes

  • Art. 225, CF/88 — estabelece o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e impõe ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê‑lo e preservá‑lo para as presentes e futuras gerações; fundamenta a prevenção ambiental e as políticas públicas de redução de riscos.
  • Lei 6.938/1981 (Política Nacional do Meio Ambiente) — disciplina instrumentos de proteção ambiental, que sustentam ações de prevenção e monitoramento de áreas sensíveis.
  • Lei 12.608/2012 (Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil) — organiza competências e procedimentos para redução de riscos e resposta a desastres, incluindo planejamento integrado e coordenação entre esferas de governo.
  • Normas técnicas e mapas de risco municipais/estaduais — instrumentos locais que devem orientar uso do solo; a inexistência ou desatualização desses estudos aumenta a exposição de comunidades.
  • Jurisprudência consolidada dos tribunais — tende a reconhecer a responsabilidade administrativa e civil por omissão na prevenção quando houver previsão normativa e dano evitável, reforçando deveres de fiscalização e planejamento.

Impacto prático

  • Para gestores públicos: exige revisão de políticas de uso do solo em encostas e bacias hidrográficas, atualização de mapas de risco e investimentos em monitoramento hidrometeorológico e geotécnico; reforça necessidade de integrar bases de dados entre órgãos ambientais, de infraestrutura e defesa civil.
  • Para advogados públicos e privados: amplia a agenda probatória em casos de responsabilização — perícias geotécnicas, relatórios de risco, registros de manutenção e decisões administrativas sobre licenciamento passam a ser prova central em demandas por danos.
  • Para comunidades e organizações sociais: reforça argumento técnico para medidas preventivas e para reivindicar investimentos públicos; abre espaço para políticas de realocação assistida em áreas de risco.
  • Para setor de planejamento urbano e obras: sinaliza maior exigência de estudos de susceptibilidade e adoção de projetos adaptativos (obras de contenção, vias alternativas, sistemas de drenagem) com base em cenários de risco.

O que observar

  • Atualização e integração dos mapas de risco: lacunas metodológicas e falta de padronização dificultam comparabilidade e ação coordenada; prioridades técnicas são padronizar metodologias e publicar dados abertos.
  • Financiamento e priorização política: prevenção requer gastos contínuos e nem sempre visíveis; riscos de subfinanciamento e de decisões por saldos orçamentários comprometem eficácia a longo prazo.
  • Modulação normativa e responsabilização: eventuais ações judiciais por omissão poderão levar tribunais a modular efeitos de condenações; atenção à jurisprudência que vincula medidas de mitigação ao dever constitucional de proteção ambiental.
  • Cooperação transnacional nos Andes: riscos geológicos e hídricos atravessam fronteiras; iniciativas bilaterais e regionais são determinantes, mas dependem de acordos e compartilhamento técnico que ainda são esparsos.

Em resumo, a tragédia no Himalaia não é apenas um episódio remoto: é um catalisador para repensar prevenção, planejamento territorial e governança de risco nas regiões andinas e no Brasil. Para reduzir a recorrência de catástrofes de larga escala é imprescindível mover recursos e saber técnico do campo reativo para políticas estruturantes e integradas, em consonância com o dever constitucional de proteger o meio ambiente e a vida.

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