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Desempenho fraco de Caiado e Zema e o alerta para Tarcísio

Fracasso eleitoral recente de ex-governadores revela transformação do eleitorado: gestão estadual já não garante viabilidade presidencial, lição relevante para Tarcísio.

JOTA4 min de leitura
Desempenho fraco de Caiado e Zema e o alerta para Tarcísio
Foto: Telmo Filho / Unsplash

Desde a reabertura democrática, governadores que se lançam ao Planalto costumavam entrar na corrida já com status de “presidenciáveis”. Esse padrão, porém, tem mostrado sinais de ruptura nas últimas eleições: nomes com boa avaliação administrativa nos Estados não têm traduzido esse capital em intenção de voto nacional. O fraco desempenho recente de dois ex-governadores relevantes — mantidos nas pesquisas muito abaixo de dois dígitos — traz lições práticas e jurídicas para quem ocupa hoje o Palácio dos Bandeirantes e pensa em projetar-se para 2026.

Contexto

Historicamente, ex-governadores lograram transpor a arena estadual para a nacionalidade política ao capitalizar resultados administrativos e redes locais. Casos conhecidos das últimas décadas mostram que esse caminho já foi viável: gestores estaduais chegaram a disputar a cabeça da corrida presidencial, alguns alcançando o segundo turno. No entanto, um conjunto de fatores estruturais e conjunturais transformou o ambiente eleitoral: expansão das redes sociais como principal arena de comunicação política; fortalecimento das narrativas personalistas; e correlações entre crises institucionais (investigações de grande visibilidade e processos de impeachment) que reconfiguraram as percepções do eleitorado.

Esse realinhamento altera a equação tradicional em que competência gerencial e desempenho econômico de um Estado eram insumos suficientes para uma demanda presidencial. Em vez disso, a dinâmica atual premia agendas ideológicas mobilizadas em redes, identidade política e capacidade de narrar uma disputa nacional — elementos que podem reduzir a ressonância de currículos executivos mesmo quando assinalados por avaliações locais positivas.

O que foi decidido

Não houve uma decisão judicial ou normativa aqui; trata-se de uma constatação analítica: as campanhas de dois ex-governadores deram sinais inequívocos de que gestão estadual e resultados administrativos, por si sós, não bastam para viabilizar candidaturas presidenciais competitivas no atual ciclo político. A conclusão central é que a centralidade da polarização e da comunicação digital deslocou o critério de avaliação do eleitor: de prestações de governo mensuráveis para posicionamentos ideológicos e capacidade de disputar narrativas públicas.

Os elementos que fundamentam essa conclusão são: (i) a persistente polarização entre polos nacionais que reduz o espaço para alternativas moderadas; (ii) a crescente personalização das campanhas em torno de líderes nacionais; e (iii) o efeito amplificador das redes, que beneficia atores com alto engajamento identitário. Em consequência, governadores que não logrem construir uma narrativa nacional potente e uma estrutura digital robusta tendem a ficar aquém do eleitorado necessário para romper a polarização.

Base normativa e precedentes

  • Art. 14, CF/88 — disciplina o direito de sufrágio e os requisitos de elegibilidade, lembrando que a disputa presidencial corre em ambiente regimental e constitucional que protege a participação política, mas não garante viabilidade eleitoral automática a qualquer nome.
  • Art. 1º e art. 14, CF/88 (princípio representativo) — a configuração da soberania popular e da representação política implica que a capacidade de agregação eleitoral decorre tanto de mérito administrativo quanto de capacidade de comunicação política.
  • Jurisprudência consolidada dos tribunais eleitorais — em temas correlatos, os tribunais reconhecem a ampla liberdade de organização e propaganda política nas eleições, o que intensifica o papel das estratégias comunicacionais (a jurisprudência eleitoral tem tratado com rigor abusos de poder econômico e propaganda irregular, ainda que isso não elimine o impacto das redes sociais legais).

Impacto prático

  • Para governadores e aspirantes presidenciais: a lição é operacional e estratégica — é imprescindível investir cedo em construção nacional de imagem, redes de articulação federativa e infraestrutura digital que disputem narrativas, não apenas exibir gestão.
  • Para partidos e marqueteiros: reforça a necessidade de alinhar estratégia programática com tática comunicacional; mensagens de governo requerem tradução para temas nacionais e identitários para romper bolhas regionais.
  • Para advogados eleitorais e conselheiros jurídicos: atenção à regulação da propaganda digital e aos limites processuais; a luta por espaço discursivo nas redes tende a gerar contenciosos sobre fake news, financiamento e abuso de poder, exigindo assessoria preventiva.
  • Para eleitores e analistas políticos: os resultados mostram que o eleitor contemporâneo prioriza posicionamentos e narrativa; a avaliação tecnocrática da gestão perdeu centralidade relativa.

O que observar

  • Construção de narrativas: se o governador-alvo quiser disputar o Planalto com níveis competitivos de viabilidade, será necessário transcender o discurso gerencial e desenvolver temas de alcance nacional, além de consolidar alianças que ultrapassem o âmbito estadual.
  • Modulação do espaço político: a persistência da polarização pode tornar inócuo o apelo técnico; avaliar se há espaço real para candidaturas de centro ou de terceira via e como capturar eleitorado desalinhado.
  • Riscos jurídicos e regulatórios: intensificação de litígios sobre propaganda nas redes sociais, financiamento de campanha e possíveis ações de investigação judicial eleitoral; a assessoria jurídica precisa antecipar contenciosos e garantir conformidade com a legislação eleitoral.
  • Calendário e cronograma: estratégias devem ser calibradas ao calendário eleitoral e às janelas legais de propaganda; a construção de um palanque nacional exige tempo e recursos, e pode conflitar com responsabilidades administrativas estaduais.

Em suma, o recado entregue pelas urnas e pelas pesquisas recentes é político e estratégico: a mera referência a resultados estaduais não assegura viabilidade nacional. Para quem hoje governa o maior Estado do país, a convergência entre mensagem, organização e tecnologia política será determinante — e demanda mudanças substantivas na forma de conceber campanhas presidenciais no Brasil contemporâneo.

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