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MP-SP cria secretaria para agilizar extradições e apreensão de bens

A nova secretaria do Ministério Público de São Paulo pretende acelerar pedidos de extradição e medidas contra patrimônio criminoso, afetando cooperação internacional e execução de medidas cautelares.

Folha — Cotidiano4 min de leitura
MP-SP cria secretaria para agilizar extradições e apreensão de bens

Decisão e efeito imediato: O Ministério Público do Estado de São Paulo instituiu uma secretaria voltada à agilização de procedimentos de cooperação internacional e de constrição patrimonial relacionada a crimes. Na prática, a iniciativa busca reduzir o tempo entre a localização de investigados no exterior — como o caso de um advogado localizado pela Interpol na Itália em outubro de 2025 — e a adoção de medidas judiciais para extradição e apreensão de ativos vinculados a delitos.

Contexto

A pressão por respostas mais rápidas em investigações com elementos transnacionais tem crescido no Brasil. Delitos complexos — corrupção, crimes financeiros, lavagem de ativos e organizações criminosas — frequentemente envolvem deslocamento de pessoas, estruturas societárias offshore e bens dispersos em diversas jurisdições. Nessa seara, a efetividade depende tanto de capacidades investigativas internas quanto de instrumentos de cooperação jurídica internacional, como pedidos de assistance judicial (MLATs), mandados de captura internacional e o uso da Interpol.

Historicamente, gargalos processuais, exigências formais das autoridades estrangeiras e a necessidade de decisões judiciais nacionais (para medidas cautelares patrimoniais ou homologação de pedidos de extradição) retardaram resultados. A criação de uma unidade especializada no âmbito do Ministério Público Estadual responde a essa lacuna institucional e espelha práticas de promotoria em outros países, que centralizam expertise em direito internacional penal e rastreamento patrimonial.

O que foi decidido

A instituição da secretaria tem por objetivo centrar competências técnicas e administrativas em três frentes: (i) formular e acompanhar pedidos de cooperação internacional e extradição; (ii) coordenar medidas cautelares e pedidos de bloqueio, sequestro e perdimento de bens relacionados ao crime; e (iii) articular-se com forças policiais e órgãos internacionais, notadamente a Interpol. O modelo prevê atuação proativa do Ministério Público na fase inicial do pedido internacional, com produção de prova e fundamentação jurídica mais robusta para subsidiar juízes e autoridades estrangeiras.

Nos elementos públicos divulgados, a secretaria servirá também para sistematizar informações sobre ativos no exterior e facilitar a tramitação de pedidos de cooperação jurídica. A consequência imediata é a promessa de tramitação mais célere de pedidos como o de extradição e de medidas de constrição patrimonial, reduzindo o espaço temporal em que investigados e seus bens ficam fora do alcance das autoridades nacionais.

Base normativa e precedentes

  • Art. 127, CF/88 — atribui ao Ministério Público a função institucional de defender a ordem jurídica, o regime democrático e os interesses sociais e individuais indisponíveis, base para atuação em cooperação internacional.
  • Lei nº 9.613/1998 (Lei de Lavagem de Dinheiro) — disciplina mecanismos de investigação patrimonial e medidas de prevenção, incluindo colaboração internacional para rastreamento e bloqueio de valores.
  • Lei nº 12.850/2013 (Organizações Criminosas) — prevê medidas investigativas voltadas ao combate a organizações criminosas, relevantes para pedidos de cooperação e identificação de estruturas patrimoniais.
  • Lei nº 13.105/2015 (CPC) — autoriza medidas cautelares de urgência, que podem ser utilizadas para assegurar bens em ações penais e de ressarcimento; procedimentos para requerer cooperação internacional via autoridade judicial.
  • Instrumentos internacionais e convênios de cooperação — tratados, cartas rogatórias e acordos bilaterais/multilaterais que regem a entrega de prova, execução de medidas e extradição entre Estados.

Impacto prático

  • Para procuradores e promotores: centralização deve aumentar capacidade técnica e padronizar pedidos internacionais, possibilitando melhor qualidade probatória e argumentos jurídicos uniformes.
  • Para juízes: demandas mais bem instruídas tendem a facilitar decisões sobre medidas cautelares e homologação de pedidos de cooperação, reduzindo questionamentos formais sobre admissibilidade.
  • Para defesa e investigados: maior rapidez pode reduzir prazos para apresentar impugnações ou fundamentar pedidos de asilo, mas também impõe necessidade de respostas processuais mais céleres; defesa deverá antecipar estratégias de prova e controvérsia jurídica, inclusive sobre garantias constitucionais e duplo grau de jurisdição.
  • Para empresas e instituições financeiras: incremento na execução de ordens de bloqueio e compartilhamento de informações implicará maior exigência de compliance e diligência internacional.
  • Para processos em curso: pode haver reabertura de procedimentos ou reavaliação de pedidos já indeferidos por insuficiência técnica, com nova fundamentação da secretaria.

O que observar

  • Padrões de adesão à legalidade e garantias: concentração de power investigatório requer salvaguardas para evitar atropelos de garantias individuais previstas na Constituição, o que exigirá maior transparência na atuação ministerial e demonstração de fundamentação concreta para medidas de urgência.
  • Provas e duplo direito penal: a efetividade de pedidos de extradição dependerá de requisitos como a existência de base legal no país requerido (dual criminality) e da observância de direitos humanos que possam obstar a entrega; esses aspectos seguirão sendo palco de recursos internacionais e reclamatórias constitucionais.
  • Complexidade probatória e dilação probatória: rastrear ativos e demonstrar vínculo patrimonial com o crime demanda cooperação bancária e documental de múltiplas jurisdições; a secretaria precisará de equipe técnica (peritos contábeis, cooperação internacional) e acordos prévios para acelerar essa troca.
  • Recursos e modulação: eventuais decisões que resultem em apreensões massivas podem ensejar debate sobre modulação de efeitos e necessidade de legislação complementar que regule procedimentos administrativos e civis de perdimento de bens.

Em síntese, a criação da secretaria no âmbito do Ministério Público paulista representa um esforço institucional relevante para encurtar prazos em processos transnacionais e aprimorar a atuação contra o patrimônio criminoso. O ganho operativo será tangível se vier acompanhado de respeito estrito às garantias processuais e de investimentos em equipe técnica e acuerdos internacionais estáveis.

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