PGR pede autorização ao STF para investigar André Mendonça
Paulo Gonet requisitou ao presidente do STF que o plenário autorize apuração contra o ministro André Mendonça; questão envolve prerrogativa de foro e controle externo da atividade policial.

O procurador‑geral da República encaminhou ao presidente do Supremo Tribunal Federal pedido para que o plenário autorize a investigação do ministro André Mendonça, em razão de ato pelo qual Mendonça teria determinado à Polícia Federal a identificação de destinatários de mensagens vinculadas ao inquérito sobre o Banco Master. Simultaneamente, a PGR instaurou Procedimento de Controle Externo (PCE) para apurar se a atuação do ministro inviabilizou o acompanhamento ministerial da atividade policial.
Contexto
A controvérsia se insere em um quadro envolvendo investigação criminal sobre o Banco Master e as mensagens atribuídas ao ex‑banqueiro Daniel Vorcaro. Segundo relatório da Polícia Federal, as apurações teriam revelado interlocuções que mencionam ministros do Supremo e o próprio chefe do Ministério Público Federal. O ponto conflituoso é a ordem do relator do inquérito — o ministro André Mendonça — para que a Polícia Federal identifique destinatários e pessoas mencionadas nas comunicações, incluindo agentes públicos com prerrogativa de foro.
Do ponto de vista institucional, a matéria conflita com dois vetores sensíveis: (i) a proteção do sigilo e da compartimentação de atividades de polícia judiciária em investigações delicadas; e (ii) o exercício do controle externo jurisdicional e ministerial sobre atos de polícia judiciária. A PGR entende que a medida do ministro teria limitado a possibilidade do Ministério Público de exercer o acompanhamento necessário das diligências, o chamado controle externo da atividade policial, considerado etapa essencial de qualquer investigação criminal.
O que foi decidido
O procurador‑geral requereu formalmente ao presidente do STF que submeta ao plenário pedido de autorização para que o próprio ministro André Mendonça seja investigado no âmbito do Procedimento de Controle Externo instaurado pela PGR. Não se trata de uma instauração automática de ação penal: a medida busca a autorização colegiada necessária para que a apuração avance contra agente público com a condição de ministro do Supremo.
No plano fático, a PGR aponta que a determinação de Mendonça levou a PF a identificar nomes de alta relevância institucional, entre eles outro ministro do STF e o próprio procurador‑geral, o que motivou a investigação interna sobre a conduta do relator. A iniciativa do chefe do Ministério Público Federal combina a preservação da independência do órgão com a necessidade de garantir que eventuais excessos na coordenação de ações policiais sejam devidamente escrutinados.
Base normativa e precedentes
- Art. 102, CF/88 — dispõe sobre a competência originária do STF, incluindo processos contra autoridades com foro por prerrogativa de função; relevante para definir o âmbito de atuação do tribunal.
- Art. 129, CF/88 — enuncia as atribuições do Ministério Público, inclusive o dever de promover a ação penal pública e exercer o controle externo da atividade policial.
- Código de Processo Penal (Decreto‑Lei 3.689/1941) — normas procedimentais aplicáveis à investigação criminal e às diligências de polícia judiciária.
- Jurisprudência consolidada do tribunal — orientações sobre tratamento de investigações envolvendo membros do Judiciário e sobre a necessidade de autorização ou declinação de competência quando estão em jogo autoridades com foro.
Impacto prático
- Para ministros e membros do Judiciário: o pedido do PGR reafirma que atos praticados por autoridades judiciais no âmbito de inquéritos estão sujeitos a escrutínio, o que pode provocar discussões sobre limites de atuação e respeito às prerrogativas institucionais.
- Para a Polícia Federal: coloca em foco práticas de preservação de sigilo e compartimentação de investigações sensíveis, bem como a responsabilidade de cumprir ordens judiciais sem prejudicar o controle ministerial.
- Para o Ministério Público Federal: reforça a prerrogativa de instaurar Procedimentos de Controle Externo para apurar irregularidades na atividade policial e a necessidade de se obter autorização colegiada quando a investigação mira autoridade com foro especial.
- Para investigações em curso: processos que dependam de materiais identificados por força da ordem do relator poderão ser objeto de questionamentos probatórios e, eventualmente, de decisões sobre a validade e alcance das diligências.
O que observar
- Procedimento e modulação: se o plenário autorizar a investigação, haverá necessidade de delimitar o alcance probatório das diligências já realizadas e decidir sobre eventual modulação de efeitos sobre outros inquéritos vinculados.
- Reclamações e impugnações: é previsível que a defesa administrativa do ministro ou outros interessados apresentem reclamações ou pedidos de medidas cautelares, suscitando debates sobre a independência dos poderes e sobre abuso de autoridade.
- Relevância do PCE: o Procedimento de Controle Externo tem natureza administrativa dentro do Ministério Público e pode culminar em encaminhamento de medidas disciplinares ou em sugestões de atuação da polícia, sem prescindir de decisões judiciais posteriores.
- Risco de contaminação probatória: advogados deverão avaliar a cadeia de custódia e a legalidade das identificações de interlocutores determinadas pelo relator, para evitar nulidades ou impugnações em fases subsequentes.
O episódio abre um capítulo relevante sobre limites institucionais entre magistratura, polícia e Ministério Público, reafirmando que, mesmo em investigações de alta sensibilidade, a atuação de autoridades está sujeita ao crivo colegiado e ao controle ministerial previsto na Constituição.
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