Prescrição punitiva: reintegração por extinção do poder disciplinar
Juiz da 8ª Vara do Trabalho de Brasília anulou punições após reconhecer prescrição punitiva administrativa, determinando reintegração e pagamento de salários.

Decisão em poucas linhas: A 8ª Vara do Trabalho de Brasília declarou extinto o poder punitivo administrativo por prescrição em processo disciplinar da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), anulou atos sancionatórios posteriores e determinou a reintegração do ex-empregado com pagamento dos salários devidos. A decisão funda-se no reconhecimento de que a pretensão punitiva se consumou pelo decurso do prazo legal e normativo, tornando insubsistente nova aplicação da penalidade.
Contexto
O caso envolve a colisão entre o regime disciplinar administrativo e os efeitos de decisões jurisdicionais que corrigem vícios processuais em sindicâncias. O procedimento disciplinar da EBC foi instaurado em 26 de julho de 2018; a primeira demissão por justa causa ocorreu em 15 de maio de 2019. O trabalhador impugnou o procedimento em ação trabalhista, alegando vício processual, e obteve sentença que determinou o retorno da situação ao estado anterior (status quo ante), com reintegração em novembro de 2024. A EBC, todavia, manteve a penalidade e demitiu novamente em junho de 2025. A controvérsia central é se a ordem judicial que reabriu a possibilidade de defesa interrompeu, suspendeu ou restaurou o prazo prescricional da pretensão punitiva administrativa.
A discussão é relevante porque confronta duas dimensões: a eficácia material da decisão judicial que corrige ilegalidade processual e o regime próprio da prescrição punitiva administrativa — em especial quando a administração pública, ou entidade pública, possui norma interna que disciplina prazos máximos de conclusão de sindicâncias. A solução adotada pela Vara traduz entendimento sobre limites ao poder disciplinar após o decurso do tempo.
O que foi decidido
A turma judicial entendeu que o retorno ao status quo ante determinado pelo Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região serviu apenas para reabrir a fase recursal do procedimento administrativo e não restabeleceu o prazo prescricional já em curso. Com base nisso, o juiz concluiu que a pretensão punitiva administrativa se extinguiu por prescrição cinco anos após o término do prazo máximo interno de conclusão da sindicância (conforme NOR 903/EBC), que havia se encerrado em 9 de março de 2019. Assim, a demissão praticada em 4 de junho de 2025 incidiu sobre pretensão punitiva exaurida pelo decurso do tempo e foi declarada nula.
Na motivação, foi ressaltado que a decisão judicial que anulou a demissão anterior retirou a eficácia plena do ato original enquanto o procedimento não fosse regularmente concluído, o que não equivale à reinstituição do lapso prescricional. Em consequência, todos os atos administrativos sancionatórios posteriores ao termo prescricional foram anulados, determinando-se a reintegração do empregado e o pagamento dos salários não percebidos no interstício entre a dispensa e a reintegração. Também foi proibida a prática de novo ato punitivo com base no mesmo processo.
Base normativa e precedentes
- Art. 142, Lei 8.112/1990 — disciplina a prescrição da pretensão punitiva administrativa em cinco anos para o regime estatutário, fundamento apontado pelo juízo para o prazo punitivo.
- Art. 37, caput, CF/88 — princípio da legalidade administrativa, invocado para afirmar que a prática de sanção após o prazo constitui violação direta à legalidade e à segurança jurídica.
- NOR 903/EBC — norma interna da ré que fixa prazo máximo de 150 dias para decisão a partir da instauração da comissão de sindicância e prevê efeitos sobre reinício de prazo prescricional.
- Jurisprudência: a decisão se ancora na ideia, consolidada em vários precedentes administrativos e judiciais, de que a prescrição punitiva extingue o poder sancionatório da administração, impedindo a reabertura indefinida de processo disciplinar; a fundamentação dialoga com entendimentos de tribunais trabalhistas e administrativos sobre a natureza extintiva da prescrição administrativa.
Impacto prático
- Para advogados trabalhistas: confirma possibilidade de pleitear anulação de atos disciplinares praticados após o termo prescricional e requerer reintegração quando a punição administrativa estiver prescrita; reforça argumentação sobre cálculo do termo inicial e influência de normas internas.
- Para empresas públicas e empregadores: exige atenção rigorosa aos prazos internos de sindicância e ao cumprimento de normas como a NOR 903/EBC; a inobservância pode acarretar perda definitiva do poder sancionador e obrigação de reparar economicamente o empregado.
- Para servidores e empregados de entidades públicas: consolida proteção contra atos sancionatórios tardios e legitima pedidos de reintegração e pagamento de salários quando comprovada a prescrição.
- Para o contencioso em curso: processos disciplinares e medidas administrativas deverão revisar termômetros prescricionais, especialmente onde houve decisões judiciais que devolveram o status quo ante — estratégias defensivas poderão exigir prova documental precisa do término de prazos internos.
O que observar
- Termo inicial e critérios de suspensão/interrupção: é crucial mapear quando, concretamente, começa a correr o prazo prescricional e quais atos administrativos ou jurisdicionais o interrompem ou suspendem; a decisão destaca que a mera determinação de retorno ao status quo ante não restaura o prazo automaticamente.
- Aplicabilidade do art. 142 da Lei 8.112/1990: atenção à natureza do vínculo (estatutário vs. celetista/empregatício) e à compatibilidade da norma estatutária com o regime aplicável ao empregado na hipótese concreta; eventual recurso poderá explorar essa matriz normativa.
- Recursos e modulação: a administração ainda pode intentar recursos; a controvérsia admite questionamentos sobre efeitos prospectivos ou modulados da declaração de prescrição, bem como sobre eventual reabertura do processo mediante nova instauração com base em fatos supervenientes.
- Risco de litígios repetidos: decisão reforça risco de responsabilização patrimonial e necessidade de gestões administrativas mais céleres; departamentos jurídicos devem revisar fluxos de sindicância para evitar nulidades por decurso do tempo.
Em suma, a sentença enfatiza que a prescrição punitiva tem efeito extintivo sobre o poder disciplinar e que decisões que convalidam vícios procedimentais não operam automaticamente como mecanismo de reinício do prazo prescricional. Para empregadores públicos, a lição é procedural: prazo e forma fazem diferença material na eficácia das sanções administrativas.
Você concorda com a decisão?
🔔 Acompanhe este assunto
Siga os temas desta matéria — a gente te avisa quando houver nova decisão ou conteúdo, direto no seu Meu JusFeed.
Comentários (0)
Seja o primeiro a comentar essa matéria.
Relacionadas em Trabalhista
Ver tudo
MEI como contrato disfarçado: indicadores e riscos à luz do TST
O TST debate situações em que contratação via MEI encobre vínculo: análise dos sinais de subordinação e das consequências práticas para empregadores e trabalhadores.

TST: empresas devem acolher trabalhadores com apostas online
TST orienta que empregadores adotem acolhimento, diálogo e encaminhamento para tratamento; impacto sobre disciplina e afastamento é analisado.

TST debate assédio eleitoral no trabalho e proteção à liberdade de voto
Seminário no TST discute assédio eleitoral nas relações laborais; pauta articula garantias constitucionais e responsabilização do empregador.