STJ discute jurisdição para anulação de sentença arbitral estrangeira
Ministra da 3ª turma do STJ reconheceu competência brasileira para anulatórias quando eleita lei brasileira e foro de São Paulo; julgamento teve pedido de vista.

A ministra da 3ª turma do Superior Tribunal de Justiça reconheceu, em julgamento que trata da admissibilidade de ação anulatória contra sentença arbitral proferida no exterior, a possibilidade de os tribunais brasileiros processarem e julgaram pedidos dessa natureza quando as partes escolheram expressamente a lei brasileira para reger o procedimento arbitral e elegeram o foro de São Paulo. O debate foi interrompido por pedido de vista do ministro que pediu mais tempo para análise, portanto a decisão colegiada ainda não está consolidada, mas a manifestação da relatora abriu contornos relevantes sobre competência, eficácia da escolha da lex arbitri e o papel do Judiciário na tutela das premissas contratuais e da arbitragem internacional no Brasil.
Contexto
O tema insere-se na tensão crescente entre autonomia da arbitragem e o poder de controle do Poder Judiciário sobre sentenças arbitrais, especialmente quando a arbitragem tem sede no exterior. A Lei de Arbitragem (Lei 9.307/1996) e o novo Código de Processo Civil (Lei 13.105/2015) trouxeram instrumentos para cooperação entre tribunais e corpos arbitrais, mas não eliminaram controvérsias sobre foro, lei aplicável e a legitimação do Judiciário brasileiro para conhecer ações de anulação quando a award é estrangeira. A discussão é sensível porque envolve internacionalização das disputas comerciais, a eficácia dos pactos de eleição de foro e de escolha da lei aplicável (lex causae/lex arbitri) e o risco de judicialização excessiva que pode desestimular a utilização da arbitragem no Brasil.
Há, ainda, críticas acadêmicas e práticas que apontam para um aumento de ações anulatórias e medidas conexas direcionadas a sentenças arbitrais, o que levanta a pergunta sobre possíveis lacunas normativas ou interpretações processuais que incentivam a propositura de demandas judiciais como modo de rediscutir matérias já apreciadas em sede arbitral.
O que foi decidido
A relatora da 3ª turma sustentou que a escolha pelas partes da lei brasileira e do foro de São Paulo cria conexão jurídica suficiente para que o Judiciário pátrio conheça de ação anulatória, mesmo que a arbitragem tenha efetivamente ocorrido em outra jurisdição. Em linha com essa orientação, a secretaria ministerial entendeu que a existência de elementos de conexão ao Brasil autoriza a jurisdição brasileira, pois a indicação da legislação nacional e do foro constitui manifestação da vontade das partes conferindo ao país um vínculo jurídico direto com o procedimento arbitral.
Ao expor seu voto, a ministra enfatizou a complexidade da matéria e o caráter inédito da decisão do STJ sobre esse ponto específico. Ela observou que a normativa vigente sobre arbitragem — da qual participou na fase de elaboração — não indicava, à época, que geraria tantas demandas judiciais visando à anulação de awards, e ponderou que o elevado número de ações anulatórias pode sinalizar um problema estrutural na aplicação prática do modelo de arbitragem adotado no Brasil.
O julgamento foi interrompido por pedido de vista do colega, de modo que o entendimento firmado pela turma ainda depende da retomada do julgamento e do voto do ministro que pediu vista. Assim, a tese apresentada pela relatora tem força persuasiva, mas não tem ainda caráter vinculante para todos os órgãos judiciais.
Base normativa e precedentes
- Lei de Arbitragem (Lei 9.307/1996) — regula a arbitragem no Brasil, disposições sobre homologação e eficácia de sentenças arbitrais e colaboração judicial.
- Código de Processo Civil (Lei 13.105/2015) — disciplina cooperação entre o Judiciário e procedimentos arbitrais, além das ações conexas aos procedimentos extrajudiciais.
- Constituição Federal, art. 5º, XXXV — assegura o acesso ao Judiciário, fundamento que legitima a apreciação de demandas relativas a direitos materialmente discutidos em arbitragem quando há elementos de conexão com o país.
- Convenção de Nova York (1958) — regime internacional de reconhecimento e execução de sentenças arbitrais estrangeiras, que opera em paralelo às regras internas sobre anulação e execução.
- Jurisprudência: a matéria ainda carece de consolidação no STJ sobre o ponto específico discutido (anulação de award estrangeiro quando eleita a lei brasileira e foro nacional); a relatora afirmou tratar-se da primeira vez que o tribunal enfrentava o tema em julgamento colegiado.
Impacto prático
- Para advogados: amplia possibilidade de litigar no Brasil contra awards estrangeiros quando houver escolha expressa da lei nacional e do foro brasileiro, o que exige estratégias processuais que considerem conflitos de competência, a necessidade de produção de provas sobre o vínculo contratual e a avaliação de riscos de litispendência ou conexidade internacional.
- Para empresas e partes contratuais: reforça a importância do desenho contratual (cláusulas de eleição de foro e de lei aplicável) como instrumento que pode atrair a jurisdição nacional para controvérsias decorrentes de arbitragem no exterior.
- Para o ambiente arbitral: pode aumentar a segurança jurídica de partes que desejam manter conexão com o Brasil, mas, em contrapartida, pode incentivar tentativas de rediscutir questões já decididas no tribunal arbitral por meio de ações anulatórias no país.
- Para o Judiciário: sinaliza um papel de tutela residual que poderá gerar maior afluxo de demandas conexas e exige critérios claros para distinguir controle jurisdicional legítimo de interferência indevida na arbitragem.
O que observar
- Risco de proliferação de anulatórias: caso o entendimento prospere, haverá necessidade de articular filtros processuais que evitem reexame meritório disfarçado de controle de regularidade procedimental.
- Recursos e modulação: eventual consolidado entendimento favorável à jurisdição brasileira poderá ser objeto de repercussão geral no STF ou de uniformização no STJ, com debate sobre modulação de efeitos e sobre compatibilização com a Convenção de Nova York.
- Questões probatórias e de competência internacional: será crucial definir quais elementos de conexão bastam para deslocar competência e como tratar decisões arbitrais estrangeiras que contrariam normas de ordem pública brasileira.
- Atuação profissional: advogados devem revisar cláusulas contratuais e preparar argumentos sobre afinidade da causa com o Brasil; magistrados devem articular critérios precisos para evitar insegurança jurídica.
Em resumo, a manifestação da relatora da 3ª turma coloca em foco a fronteira entre autonomia da arbitragem internacional e jurisdição estatal. A definição final do STJ terá consequências diretas para a prática contratual, para a atratividade da arbitragem e para o papel do Judiciário na garantia de eficácia de awards estrangeiros que guardam vínculos com o Brasil.
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