STJ: procuração da empresa prova ciência inequívoca do sócio no redirecionamento
A 1ª Turma do STJ reconheceu que procuração outorgada por sócio à pessoa jurídica para contestar redirecionamento demonstra ciência inequívoca e pode caracterizar fraude à execução.

O STJ decidiu, em julgamento da 1ª Turma, que a assinatura de procuração pela qual um sócio autorizou a empresa a contestar o redirecionamento de execução é suficiente para aferir sua ciência inequívoca sobre a inclusão no polo passivo; tal conclusão permitiu reconhecer fraude à execução em relação à doação posterior de bem que poderia responder pela dívida. A decisão tem efeito direto de permitir a desconsideração de atos patrimoniais realizados após a ciência, viabilizando penhora e leilão do imóvel doado.
Contexto
A controvérsia gira em torno da prova da ciência do sócio quanto ao redirecionamento da execução fiscal: se basta um ato praticado em nome da pessoa jurídica (a outorga de procuração) para considerar que o sócio tinha conhecimento inequívoco da sua responsabilidade, ou se é necessária a citação pessoal ou ato formal que demonstre comparecimento próprio nos autos. A questão importa porque a caracterização da fraude à execução depende, classicamente, da demonstração de que o devedor tinha ciência da existência do processo executivo ao tempo da alienação ou doação do bem, de modo a frustrar a satisfação do crédito.
No plano prático, decisões sobre o tema afetam o alcance da responsabilização patrimonial de sócios e administradores em execuções fiscais (regidas pela Lei nº 6.830/1980) e a possibilidade de declaração de ineficácia de atos de disposição patrimonial como meio de proteger créditos públicos. A divergência jurisprudencial costuma oscilar entre um critério formalista — exigindo citação pessoal ou equivalente — e um critério materialista, que privilegia atos objetivos que evidenciem a ciência do devedor.
O que foi decidido
A 1ª Turma do Superior Tribunal de Justiça, por maioria apertada (3 a 2), entendeu que a procuração assinada pelo sócio, conferindo poderes aos advogados da pessoa jurídica para impugnar o redirecionamento em desfavor daquele sócio, demonstra ciência inequívoca acerca da inclusão do seu patrimônio na execução fiscal. Para a turma vencedora, a utilização do instrumento de mandato pela sociedade com assinatura do sócio como outorgante teve finalidade exclusiva de defender o interesse pessoal deste, configurando desvio de finalidade e revelando conhecimento do redirecionamento.
Como consequência concreta, a doação realizada posteriormente pelo sócio — antes da citação pessoal — foi considerada fraude à execução, porque praticada com a finalidade de frustrar a satisfação do crédito público. O imóvel doado foi, assim, passível de constrição e leilão para quitação da dívida.
A divergência partiu de magistrados que adotaram enfoque formal: para eles, a prova de ciência inequívoca requer ato citatório formal ou demonstração de comparecimento próprio nos autos (embargos, exceção de pré-executividade, petição pessoal), de modo que a mera assinatura de procuração na qualidade de representante da sociedade não supre a necessidade de citação pessoal.
Base normativa e precedentes
- Lei nº 6.830/1980 (Lei de Execução Fiscal) — disciplina o procedimento de cobrança judicial de créditos tributários e a responsabilização do executado; base normativa para o redirecionamento e para a constrição de bens.
- Código de Processo Civil (Lei nº 13.105/2015) — regras gerais sobre citação, efeitos da constituição em mora e atos processuais que demonstram participação nos autos; relevantes para a análise de ciência processual do devedor.
- Código Civil (Lei nº 10.406/2002) — princípios gerais sobre negócios jurídicos e atos entre vivos; aplicável no exame da anulabilidade ou ineficácia relativa a negócios praticados em fraude contra credores.
- Jurisprudência consolidada do STJ — entendimentos anteriores sobre fraude à execução e requisitos probatórios para reconhecimento de atos fraudulentos; material de referência para distinguir prova formal da prova material de ciência.
Impacto prático
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Advogados de defesa de sócios e administradores: terão de orientar clientes sobre o risco de que atos praticados em nome da pessoa jurídica (como outorga de procuração) sejam interpretados como confissão de ciência pessoal quando dirigidos a contestar medidas que visam a responsabilizar o sócio. É preciso cautela na formalização de mandatos e clareza documental quanto à finalidade e ao alcance dos poderes.
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Advogados e procuradores do Fisco: a decisão facilita a demonstração de fraude à execução quando houver prova de atos nos autos evidenciando que o sócio tinha consciência do redirecionamento, acelerando medidas para preservar o crédito tributário, inclusive com pedidos de constrição sobre bens do terceiro adquirente ou donatário.
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Empresas e sócios: operações patrimoniais realizadas após a ciência presumida da execução podem ser anuladas ou qualificadas como ineficazes perante credores fiscais; planejamento patrimonial deve considerar o momento em que a ciência pode ser imputada ao sócio.
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Processos em curso: decisões pendentes que discutam fraude à execução terão seus elementos probatórios reavaliados à luz do critério materialista adotado pela maioria: procurações, manifestações nos autos e atos praticados em defesa do sócio podem ser considerados provas de ciência.
O que observar
- Recurso e modulação: a divergência apertada indica potencial para recurso especial ou embate em formato de recurso repetitivo; eventual uniformização pelo colegiado superior pode modular efeitos da tese em casos anteriores.
- Prova complementar: para mitigar riscos, profissionais devem produzir provas claras sobre a finalidade do mandato (ata de reunião, procuração com poderes restritos, manifestação expressa do outorgante) e registrar cronologia de atos; do outro lado, o Fisco deverá demonstrar a finalidade pessoal do ato para sustentar o desvio de finalidade.
- Limites do critério materialista: permanece aberta a fronteira entre atuação legítima da sociedade e ato que importe em ciência pessoal do sócio; haverá necessidade de exame casuístico, com atenção a linguagem da procuração, destinatário das petições e comportamento nos autos.
- Risco de insegurança jurídica: a adoção de provas materiais amplia o campo de interpretação e pode gerar maior litigiosidade sobre o momento exacto da ciência; operadores devem monitorar decisões subsequentes do STJ para aferir estabilidade da tese.
Em suma, a decisão reafirma que, na seara das execuções fiscais, a prova da ciência do devedor pode admitir elementos objetivos além da citação formal; a consequência imediata é ampliar a possibilidade de reconhecer fraude à execução quando atos praticados nos autos demonstram que o sócio tinha plena consciência do redirecionamento e, ainda assim, alienou bens para frustrar credores.
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