TJPB anula eliminação por psicotécnico em concurso por falhas processuais
Turma recursal manteve nulidade da eliminação por falhas procedimentais no psicotécnico e determinou novo exame com garantia de contraditório.

Decisão essencial: A 2ª Turma Recursal Permanente de João Pessoa manteve a anulação da eliminação de candidato em exame psicológico de concurso público, por vícios no procedimento administrativo que prejudicaram o contraditório e a motivação do ato. Como efeito prático imediato, determinou-se a realização de novo psicotécnico, sem declarar o candidato automaticamente apto.
Contexto
A questão envolve um concurso público para ingresso no Curso de Formação de Soldados da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros da Paraíba cujo procedimento incluiu avaliação psicológica eliminatória. O candidato foi aprovado nas provas intelectuais, figurando em posição classificatória relevante, mas foi considerado contraindicado na etapa psicológica. Em sede administrativa, o regulamento permitia recurso; contudo, o sistema eletrônico limitava a fundamentação a 1.500 caracteres e não possibilitava o acesso integral aos instrumentos de exame (cadernos de testes e tabelas de pontuação). Essas circunstâncias motivaram ação judicial que apontou cerceamento de defesa e ausência de motivação idônea do laudo.
A controvérsia toca pontos recorrentes em concursos públicos: até que ponto o Judiciário pode revisar exames técnicos (psicotécnicos) e quais requisitos formais o ente público deve observar quando a avaliação tem efeitos eliminatórios. Há divergência prática entre a preservação da discricionariedade técnica da banca e a necessidade de observância de princípios constitucionais e administrativos que garantam contestabilidade e transparência dos atos eliminatórios.
O que foi decidido
A turma confirmou a sentença de primeiro grau que anulou a eliminação e determinou novo exame psicológico, por reconhecer vícios procedimentais capazes de macular o dever de motivação e o direito ao contraditório. O colegiado entendeu que:
- A limitação do formulário eletrônico a 1.500 caracteres impedia a apresentação de argumentação técnica adequada, inclusive a indicação de bibliografia, inviabilizando o exercício pleno do direito de defesa e do recurso administrativo;
- A impossibilidade de acesso integral aos instrumentos de avaliação (itens e critérios de pontuação) frustrou a produção de impugnação técnica pelo psicólogo assistente do candidato;
- Havia contradições internas no laudo psicológico, cuja conclusão sobre suposta incapacidade de relacionamento conflitou com trechos que descreviam bom controle emocional e reações adequadas a estímulos sociais, comprometendo a clareza e objetividade exigidas para decisão eliminatória.
Consequentemente, a anulação decorreu não da substituição do juízo técnico sobre aptidão psicológica, mas da constatação de vício de processo que inviabiliza a manutenção do ato. Com base em precedentes superiores, a turma fixou que a solução adequada é a realização de nova avaliação psicológica, porque o Poder Judiciário não deve substituir a banca técnica para declarar aptidão quando a avaliação originária estiver viciada.
Base normativa e precedentes
- Art. 5º, CF/88, inc. LV — garantia do contraditório e da ampla defesa em processo administrativo e judicial.
- Art. 37, CF/88 — princípios da administração pública, em especial a exigência de motivação, impessoalidade e legalidade nos atos administrativos.
- Lei 13.105/2015 (CPC) — normas processuais gerais aplicáveis quando se discute prova técnica em juízo e limites da atuação judicial (uso subsidiário para questões procedimentais).
- Jurisprudência do STJ e Tema 1.009 do STF — reiteram que, quando a anulação de exame psicotécnico decorre de vícios procedimentais ou falta de objetividade, o remédio adequado é a realização de nova avaliação; o Judiciário não pode proclamar a aptidão em lugar da banca.
- Princípio da motivação administrativa (súmula doutrinária e prática jurisprudencial consolidada) — o laudo técnico eliminatório deve ser claro, coerente e permitir a compreensão dos fundamentos que levaram à inaptidão.
Impacto prático
- Para candidatos: reforça a exigência de que recursos administrativos sejam aptos a comportar impugnações técnicas; limitações formais do sistema de recursos podem gerar nulidades.
- Para bancas e administrações públicas: alerta para necessidade de prever procedimentos que assegurem acesso às provas e aos instrumentos de aferição psicológica, ampliar espaço de fundamentação nos recursos e assegurar arquivos que permitam contraprova técnica.
- Para advogados e peritos: orienta a agir prontamente para obter acesso aos elementos de prova (itens, tabelas, gabaritos) e a documentar contradições do laudo, vinculando argumentos a referências técnicas.
- Para o andamento de concursos: decisões que anulem etapas por vícios procedimentais podem atrasar cronogramas e exigir realização de novas avaliações sem reclassificação automática.
O que observar
- Risco de multiplicação de demandas: regulamentações administrativas que limitem a fundamentação ou o acesso a instrumentos de exame podem gerar contestações judiciais frequentes.
- Prova pericial e limites do controle judicial: embora o Judiciário não deva substituir juízo técnico, ele pode controlar formalidades, motivação e regularidade procedimental; a técnica pericial deve ser passível de exame e contraprova.
- Recursos cabíveis e modulação: em casos análogos, cabe agravo ou recurso contra decisões que determinem novas diligências; a administração pode regular procedimentos para evitar nulidades, respeitando princípios constitucionais.
- Recomendações práticas: elaborar editais e sistemas eletrônicos compatíveis com a necessidade de fundamentação robusta, prever acesso controlado aos instrumentos de avaliação para fins de impugnação e exigir que laudos psicológicos sejam uniformes, coerentes e claramente motivados.
Em síntese, a decisão reforça a prevalência dos direitos constitucionais de defesa e motivação sobre regimes administrativos que, por economia ou padronização tecnológica, limitem a possibilidade de contestação técnica de exames eliminatórios em concursos públicos.
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