TRT-10 reconhece homofobia em escala e condena empresa
TRT da 10ª Região considerou discriminação por orientação sexual na organização de folgas e fixou indenização por danos morais de R$ 20 mil.

A turma do Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região reconheceu que a forma como a empregadora organizou intervalos e folgas, impedindo coincidência entre uma trabalhadora e sua companheira, configurou discriminação por orientação sexual e gerou condenação por danos morais no valor de R$ 20.000,00, além de manter a rescisão indireta do contrato de trabalho.
Contexto
A controvérsia aborda tema recorrente no direito do trabalho: quando condutas empresariais configuram discriminação por orientação sexual e quais provas são aptas a demonstrá-la. Há um diálogo crescente entre a proteção constitucional à igualdade (art. 5º da Constituição Federal) e as garantias implícitas no direito laboral contra tratamento diverso no ambiente de trabalho. Em diferentes tribunais, casos de hostilidade, segregação de funções ou diferenças no trato de empregados em razão de sua orientação afetiva têm exigido que os julgadores ponderem provas indiretas e o exame comparativo entre trabalhadores colocados em situações análogas.
A questão torna-se sensível porque a discriminação nem sempre se exprime em ofensas explícitas. Por isso, a jurisprudência tem admitido prova por indícios: diferença objetiva de condutas adotadas pela empresa perante pessoas em situação equivalente, ausência de justificativa legítima vinculada à organização do serviço e repetição do padrão discriminatório.
O que foi decidido
A turma entendeu que havia diferença objetiva no tratamento dispensado ao casal homoafetivo em comparação a casais heterossexuais que mantinham relacionamentos no mesmo estabelecimento. Depoimentos testemunhais confirmaram que os intervalos e os dias de folga não coincidiram para as trabalhadoras do casal homoafetivo, enquanto foram coincidentes para outros casais heterossexuais. A empresa não apresentou justificativa relacionada às necessidades do serviço que explicasse de forma plausível a diferenciação.
Com base nessa análise probatória, o colegiado reconheceu a ocorrência de discriminação por orientação sexual inserida na organização do trabalho e condenou a empregadora ao pagamento de indenização por danos morais no valor fixo de R$ 20.000,00. A rescisão indireta, já reconhecida em instância anterior, foi mantida.
Base normativa e precedentes
- Art. 5º, CF/88 — princípio da igualdade e vedação a discriminações, como fundamento constitucional para rechaçar tratamento desigual por orientação sexual.
- Consolidação das Leis do Trabalho (Decreto-Lei 5.452/1943) — regramento substantivo do contrato de trabalho e instrumentos processuais para tutela de direitos individuais; aplicação subsidiária dos princípios constitucionais ao direito laboral.
- Art. 483, CLT — hipótese de rescisão indireta do contrato de trabalho por falta grave do empregador, fundamento para manter a extinção contratual com fundamento nas condutas discriminatórias.
- Art. 373, CPC/2015 — normatiza a distribuição do ônus da prova, aplicável subsidiariamente ao processo do trabalho na avaliação de quem deve produzir prova sobre fatos controvertidos.
- Jurisprudência consolidada do tribunal e orientação jurisprudencial de cortes trabalhistas sobre prova indiciária em casos de discriminação: análise do contexto, comparação com tratamento a trabalhadores em situação equivalente e exigência de justificativa objetiva pela empresa.
Impacto prático
- Para advogados trabalhistas: reforça a possibilidade de obter condenação por discriminação a partir de prova testemunhal e comparativa, mesmo sem manifestação explícita de preconceito; estratégia probatória deve privilegiar demonstração de padrões organizacionais e comparadores.
- Para empregadores e departamentos de RH: determina cuidado na organização de escalas e políticas de folgas; políticas internas devem ser justificadas por critérios objetivos e documentados para evitar alegações de tratamento diferenciado.
- Para trabalhadores e sindicatos: potencial parâmetro para pleitos de reparação por discriminação por orientação sexual, inclusive quando a agressão se dê por atos de gestão do trabalho (escalas, distribuição de funções, horários).
- Para litígios em curso: decisões que reconhecem discriminação fundada em diferenciação de tratamento podem influenciar pedidos de indenização e a caracterização de justa causa patronal para rescisão indireta.
O que observar
- Prova e comparadores: a decisão ressalta a importância de elementos probatórios que demonstrem tratamento diverso em situação equivalente; depoimentos, documentos de escala e registros de jornada serão essenciais.
- Justificação objetiva da empresa: empregadores devem demonstrar que diferenciações decorrem de necessidades do serviço, plausíveis e documentadas; ausência dessa justificativa favorece a configuração do dano moral por discriminação.
- Quantificação do dano: o valor fixo de R$ 20.000,00 na hipótese sinaliza parâmetro, mas a modulação depende das peculiaridades fáticas, repercussão e capacidade econômica da empresa; profissionais devem discutir critérios de fixação em recursos.
- Recursos e repercussão: a uniformização do entendimento dependerá de eventuais recursos às instâncias superiores e da consolidação jurisprudencial do tribunal. Cabe atenção à possibilidade de recursos ordinários e, se o tema extrapolar direito trabalhista ao plano constitucional, potencial subida à instância superior.
Conclusivamente, o acórdão reafirma que medidas organizacionais internas que resultem em segregação ou tratamento diferenciado por motivo de orientação sexual podem configurar discriminação autonômica apta a ensejar indenização e a justificar rescisão indireta, consolidando a exigência de transparência e motivação objetiva nas decisões de gestão de pessoal.
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