Absolvição por insuficiência de provas em crime de sonegação fiscal
Juiz de Santa Catarina absolveu ex-sócio de loja vinculada ao Figueirense por falta de prova de exercício da administração; decisão reforça ônus probatório do Ministério Público.

O juiz da Vara Criminal do Foro do Continente (SC) absolveu um ex-sócio formalmente indicado como representante de empresa responsável pela loja oficial de um clube de futebol, em ação penal por suposta sonegação do ICMS. A decisão reconheceu a existência do débito tributário, mas concluiu que o Ministério Público não atingiu o ônus de prova quanto à participação efetiva do acusado na administração financeira que determinaria a conduta típica. Como efeito prático imediato, o réu foi beneficiado pela absolvição por insuficiência probatória, com aplicação do princípio in dubio pro reo.
Contexto
A hipótese em análise é típica do enfrentamento entre o direito penal tributário e o direito fiscal administrativo: há prova documental da existência de débito tributário inscrito em dívida ativa, e a acusação busca responsabilizar penalmente pessoa física por omissão no recolhimento do ICMS. A tensão se dá entre a demonstração da materialidade do fato — aqui, o não recolhimento do tributo — e a prova da autoria e do elemento subjetivo do tipo penal. O crime de sonegação previsto na Lei 8.137/1990 exige, além do resultado, a demonstração de conduta e dolo do agente, o que costuma gerar controvérsias quando o acusado figura apenas em documentos societários sem evidências de exercício concreto da gestão financeira.
Historicamente, tribunais brasileiros diferenciam a responsabilidade administrativa ou tributária da responsabilidade penal: a existência de débito fiscal e a inscrição em dívida ativa não se confundem automaticamente com prova de autoria criminosa. O julgamento ressalta o conflito entre prova documental fiscal e prova testemunhal/indiciária necessária ao processo penal.
O que foi decidido
O magistrado reconheceu que os documentos fiscais e a inscrição em dívida ativa comprovam a deficiência no recolhimento do ICMS, mas não bastam para a condenação criminal do acusado. A decisão assentou que não houve demonstração cabal de que o ex-sócio administrava regularmente as rotinas financeiras ou tributárias da empresa no período de apuração. As testemunhas ouvidas, segundo o julgador, majoritariamente confirmaram atuação do réu em atividades estratégicas e no departamento de futebol, sem relatos de gestão financeira ou participação nas decisões relativas ao pagamento do ICMS.
Diante dessa lacuna probatória, a turma decisória aplicou o princípio in dubio pro reo e absolveu o acusado. A conclusão revela que, no campo penal, a formalidade de constar como representante nos registros societários não supri a necessidade de prova da efetiva prática de atos administrativos e do elemento subjetivo exigido pelo tipo penal.
Base normativa e precedentes
- Art. 2º, inciso II, Lei 8.137/1990 — previsão do crime de deixar de recolher tributo, configurando espécie de sonegação fiscal.
- Art. 5º, inciso LVII, CF/88 — princípio da presunção de inocência: "ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória".
- Art. 386, CPP (Lei 3.689/1941) — hipóteses de absolvição quando não provada a existência do fato ou a autoria; fundamento procedimental para decisão absolutória por insuficiência de prova.
- CF/88, art. 155 — competência tributária dos Estados para instituir o ICMS (contextualiza a natureza do crédito tributário discutido).
- CTN (Lei 5.172/1966) — regras gerais sobre obrigação tributária e efeitos do lançamento e da inscrição em dívida ativa, importantes para distinguir natureza administrativa do débito e consequência penal.
- Jurisprudência consolidada do tribunal e da corte superior: exige-se prova robusta da autoria e do dolo em crimes tributários, não bastando, em regra, mera posição formal em atos societários.
Impacto prático
- Para defensores: a decisão reforça estratégia de demonstrar distância entre representação formal e gestão efetiva; útil em defesas de administradores nominalmente registrados.
- Para Ministério Público: sinal de alerta sobre a necessidade de robustecer a prova de autoria e demonstrar o nexo entre a conduta do acusado e a omissão no recolhimento tributário, não se limitando à documentação fiscal e inscrição em dívida ativa.
- Para empresas e administradores: confirma o risco de responsabilização penal quando há evidência de atuação decisória em matéria financeira; recomenda-se clareza documental sobre funções e a segregação de responsabilidades internas.
- Para a contabilidade e compliance: incentivo a manter registros precisos de responsabilidades administrativas e de transição de cargos para impedir imputações penais baseadas apenas em formalidades societárias.
O que observar
- Ônus da prova: a decisão enfatiza que, embora o débito fiscal constitua materialidade, a prova da autoria penal permanece imprescindível e deve ser produzida pelo acusador. A eventual reabertura da investigação ou a adoção de outras provas (perícias, documentos bancários, comunicações internas) poderá alterar o quadro.
- Recursos e possibilidades: o Ministério Público pode recorrer, questionando a valoração probatória; a defesa deve preparar argumentos para manter a absolvição, destacando eventuais lacunas probatórias e aplicando art. 386 do CPP e o princípio in dubio pro reo.
- Risco de translação administrativa-penal: decisões futuras podem modular a fronteira entre responsabilidade fiscal administrativa e culpa penal, inclusive por recursos ou precedentes superiores. Advogados devem acompanhar a evolução da jurisprudência nos tribunais estaduais e superiores.
- Recomenda-se atenção a processos relacionados que envolvam cargos de transição: documentação que comprove limitações de atribuições e comunicações formais de desligamento são provas preventivas valiosas.
Em síntese, o caso reafirma que, em matéria penal-tributária, a presença formal de um nome em registros sociais não substitui a prova da atuação concreta e do dolo exigidos para condenação por sonegação de tributos. A decisão é uma lição prática sobre o rigor probatório necessário para a incriminação no campo fiscal e sobre a necessidade de separação clara entre responsabilidade administrativa e responsabilidade penal.
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