Mendonça pede arquivamento e apurações contra Alexandre no STF
Ministro Mendonça solicita arquivamento de representação, questiona uso de relatórios da PF e pede investigação sobre possível abuso e denunciação caluniosa de colega no STF.

O que foi decidido: o ministro alvo da representação no Supremo Tribunal Federal requereu o arquivamento do procedimento instaurado a partir de despacho do colega e, ao mesmo tempo, pediu que se apure a eventual prática de denunciação caluniosa e abuso de autoridade por quem instaurou a investigação preliminar. Além do pedido de arquivamento, o ministro solicitou investigação sobre a origem e a validade de relatórios de inteligência da Polícia Federal que fundamentaram a iniciativa contra sua atuação, pleiteando inclusive a invalidação desses documentos e a vedação à produção de novos relatórios com o mesmo viés.
Contexto
A controvérsia decorre de um despacho recente no âmbito do próprio Supremo que determinou apuração de supostas irregularidades atribuídas a um ministro da corte no exercício de sua supervisão sobre investigações envolvendo o INSS e uma instituição financeira. Os elementos que deram origem à representação foram, segundo a própria inicial, relatórios produzidos por unidades de inteligência da Polícia Federal. A discussão desenrola-se em torno de duas linhas centrais: a admissibilidade e valor probatório de relatórios de inteligência produzidos pela PF em sede de apuração administrativa interna do STF; e a possibilidade de utilização do instrumento processual interno do tribunal para ampliar o objeto de um inquérito criminal em curso em direção a membros da própria Corte.
A matéria é sensível porque toca na autonomia funcional de ministros do Supremo, no limite entre atividades de inteligência e prova judicialmente válida, e na tutela contra usos indevidos de procedimentos destinados a responsabilização por crimes funcionais. Há, ainda, uma tensão entre prerrogativas institucionais e mecanismos de controle interno entre ministros da mais alta corte do país.
O que foi decidido
Na manifestação enviada ao presidente da Corte, o ministro arguido sustentou que os fatos que motivaram a representação repousam exclusivamente em relatórios cuja natureza, segundo ele, é inequivocamente de inteligência e destituída de valor probatório. Afirmou que os documentos tratam-se de relatos unilaterais, com impressões e avaliações de agentes de polícia, sem identificação clara de autoria e sem elementos materiais que constituam indícios aptos a justificar medidas disciplinares ou processuais contra um membro do Judiciário.
Com base nessa premissa, o ministro requereu: (i) arquivamento da representação; (ii) a investigação sobre a eventual prática de denunciação caluniosa e abuso de autoridade por parte do colega que determinou a apuração; (iii) apuração da origem, autoria e circunstâncias de elaboração dos relatórios de inteligência; e (iv) a invalidação desses relatórios para fins de apuração interna, bem como a vedação de novos documentos com o mesmo enfoque.
Nos fundamentos trazidos, há ênfase na distinção entre inteligência e investigação: atividades de inteligência, segundo a peça, possuem finalidade e técnica próprias e não devem ser transformadas em prova ou utilizadas como fundamento para atos de persecução que exijam formalização e delimitação típicas da investigação criminal.
Base normativa e precedentes
- Art. 102, CF/88 — competência do Supremo para processar e julgar, inclusive questões envolvendo seus próprios membros, e controle de atos que extrapolem prerrogativas.
- Art. 95, CF/88 — garantias e independência dos magistrados, relevante para aferir limites a medidas que possam atingir a livre atuação de membros do Judiciário.
- Art. 144, CF/88 — competência das polícias e a distinção entre atividades de polícia ostensiva, judiciária e de inteligência, que orienta o debate sobre aproveitamento de relatórios.
- CPC (Lei 13.105/2015) — princípios processuais sobre valoração da prova e ônus probatório aplicáveis quando do exame de elementos apresentados em procedimentos internos; a jurisprudência consolidada do tribunal tem tratado com rigidez a necessidade de elementos mínimos para instaurar apurações contra magistrados.
- Precedentes: a jurisprudência consolidada do tribunal sobre preservação das garantias funcionais de ministros e sobre o tratamento processual de provas obtidas por meios de inteligência.
Impacto prático
- Para ministros e membros do Judiciário: reafirma a necessidade de cautela antes de inaugurar apurações internas com base exclusiva em relatórios de inteligência; reforça proteção das garantias funcionais previstas na Constituição.
- Para a Polícia Federal: sinaliza limite ao uso de produtos de inteligência como base única para representar contra autoridades, com risco de ver esses documentos invalidados em apurações internas e externos.
- Para advogados de defesa: oferece argumentos técnicos para requerer o arquivamento de procedimentos baseados em relatórios sem autoria ou corroboração material, e para pleitear perícias ou auditorias sobre a produção desses documentos.
- Para o tribunal: potencial aumento de demandas suscitando a necessidade de critérios formais para aproveitamento de instrumentos de inteligência em procedimentos disciplinares ou instaurados no âmbito do Judiciário.
O que observar
- Provas e indícios: deverá ser examinada a presença de elementos objetivos além dos relatórios para manter qualquer apuração; a mera impressão ou crítica contida em documento de inteligência tende a ser insuficiente.
- Competência e objeto: há risco processual quando se amplia o objeto de um inquérito para alcançar hipóteses não previstas inicialmente; atenção à vedação de “alargamento” sem fundamento jurídico sólido.
- Possíveis recursos e modulação: caso o presidente da Corte acolha ou negue os pedidos, caberão movimentos regimentais e recursos internos; eventual decisão poderá ser modulada para evitar efeitos retroativos amplos sobre investigações análogas.
- Risco de litigância interna: o pedido de apuração sobre abuso de autoridade e denunciação caluniosa pode aprofundar crise institucional se convertido em investigação formal, exigindo manejo institucional e transparência processual.
Em suma, a manifestação do ministro rebate a suficiência probatória dos relatórios de inteligência e transforma a controvérsia em uma disputa sobre os limites de uso desses documentos para responsabilizar membros do Judiciário, com implicações práticas para procedimentos disciplinares, atuação da Polícia Federal e preservação das garantias constitucionais dos magistrados.
Você concorda com a decisão?
🔔 Acompanhe este assunto
Siga os temas desta matéria — a gente te avisa quando houver nova decisão ou conteúdo, direto no seu Meu JusFeed.
Comentários (0)
Seja o primeiro a comentar essa matéria.
Relacionadas em Constitucional
Ver tudo
Como investigar ministros do STF sem romper freios e contrapesos
Análise dos instrumentos institucionais disponíveis para apurar suspeitas contra ministros do STF e dos riscos de acomodação entre poderes.

STJ usará relevância para selecionar casos essenciais ao país
Ministro do STJ defende aplicação do critério de relevância da questão federal para concentrar julgamentos em temas de impacto nacional.

Congresso da Advocacia do Senado debate processo legislativo e judicialização
O 3º Congresso Brasileiro de Direito Parlamentar reúne magistrados, legisladores e especialistas para discutir processo legislativo, controle de constitucionalidade e impactos da IA.