Monark condenado a R$100 mil por defender partido nazista no podcast
Juíza da 37ª Vara Cível de SP reconheceu ilicitude de manifestações antissemitas e fixou indenização ao fundo público para desestimular disseminação do ódio.

O influenciador Bruno Monteiro Aiub (Monark) foi condenado a pagar R$ 100.000,00 a título de dano moral coletivo pela 37ª Vara Cível do Foro Central de São Paulo, em ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público de São Paulo. A sentença reconheceu a ilicitude das declarações proferidas em podcast que defenderam a criação de um partido nazista no Brasil e a possibilidade de alguém se declarar e agir como “antijudeu”, e determinou que o valor seja destinado ao Fundo Estadual de Defesa dos Interesses Difusos (processo nº 1042097-52.2024.8.26.0100). Em termos práticos, a decisão estabelece responsabilização civil coletiva por discurso de ódio veiculado em mídia digital e limita o alcance da proteção constitucional à liberdade de expressão quando confrontada com a integridade moral da coletividade.
Contexto
A controvérsia insere-se no debate contemporâneo sobre os limites da liberdade de expressão nas plataformas digitais, especialmente quando manifestações públicas atingem minorias historicamente perseguidas. A discussão tem sido frequente em tribunais e na doutrina: de um lado, a proteção ampla à manifestação do pensamento e ao debate político; de outro, a necessidade de tutela contra a difusão de ideologias que pregam supremacia, discriminação e extermínio. O episódio em análise ocorreu em 7 de fevereiro de 2022, durante transmissão do Flow Podcast, com audiência transmitida ao vivo para público numeroso, o que potencializou o alcance das declarações. O Ministério Público buscou, inicialmente, solução extrajudicial por termo de ajustamento de conduta que previa atividades educativas sobre nazismo e Holocausto; sem acordo, ajuizou ação cobrando indenização por dano social.
O que foi decidido
A magistrada concluiu que as expressões favoráveis à criação de um partido nazista e à legitimidade de comportamentos “antijudeus” não se enquadram no núcleo protegido da liberdade de expressão. Considerou demonstrado, por meio da revelia e dos autos, que as falas ocorreram e tiveram amplo alcance, configurando manifestação de ideologia nazista com potencial lesivo à comunidade judaica e à coletividade. A juíza distinguiu entre o estudo e a crítica histórica do nazismo — legítimos em debate democrático — e a defesa pública de sua institucionalização, que, por sua natureza, objetiva a segregação e a perseguição de grupos humanos e, portanto, é ilícita. Com base nessa fundamentação, foi reconhecido o dever de indenizar em favor do patrimônio coletivo, fixando-se a quantia de R$ 100.000,00, valor que seguirá para o Fundo Estadual de Defesa dos Interesses Difusos, tendo em vista a gravidade do ato, seu alcance e a função punitiva e pedagógica da reparação.
Base normativa e precedentes
- Art. 5º, CF/88 — estabelece a liberdade de expressão e manifestação do pensamento, mas também contém limites constitucionais implícitos ao compatibilizar direitos fundamentais.
- Art. 1º, CF/88 — princípios da República (dignidade da pessoa humana) que informam limites da legitimidade de manifestações públicas que atentem contra grupos humanos.
- Lei nº 7.716/1989 — tipifica práticas de discriminação e preconceito; marco legal relevante para a repressão de condutas que promovam ideologias racistas e antissemíticas.
- Código Civil (Lei nº 10.406/2002) — comandos gerais sobre responsabilidade civil e reparação por ato ilícito, aplicáveis à tutela coletiva por dano moral social.
- Jurisprudência consolidada dos tribunais — posicionamentos que reconhecem a possibilidade de responsabilização civil por discursos de ódio e a distinção entre análise histórica/critica e defesa institucional de ideologias supremacistas.
Impacto prático
- Para advogados de defesa e litigantes: a decisão reforça a eficácia das ações civis públicas do Ministério Público para proteger direitos difusos e coletivos contra discurso de ódio, ampliando hipóteses de reparação patrimonial em favor de fundos públicos.
- Para influenciadores e produtores de conteúdo: indica maior risco de responsabilização civil por declarações que legitimem ideologias racistas ou antissemíticas, especialmente em ambientes com grande alcance e audiência.
- Para veículos e plataformas digitais: sinaliza a necessidade de políticas de moderação mais efetivas e de diligência frente a propagação de conteúdo que possa configurar apologia ao ódio, com potencial responsabilização civil indireta, dependendo do caso concreto.
- Para a comunidade jurídica acadêmica: reforça a distinção técnica entre liberdade de expressão como direito fundamental e seus limites quando confrontada com a proteção da dignidade humana e da ordem democrática.
O que observar
- Recursos e modulação: a sentença pode ser atacada por apelação; questões como proporcionalidade do valor fixado e eventual modulação dos efeitos serão pontos prováveis em instância revisora.
- Prova e revelia: a condenação baseou-se em revelia após a rejeição da alegação de nulidade da citação; disputas futuras deverão centrar-se na demonstração do contexto, mensuração do alcance e nexo de causalidade entre discurso e dano coletivo.
- Precedentes superiores: eventual uniformização do tema pelo Tribunal de Justiça de São Paulo ou tribunais superiores pode consolidar ou restringir o parâmetro adotado pela 37ª Vara Cível, notadamente sobre a caracterização do dano moral coletivo e os critérios de quantificação.
- Recomendações práticas: advogados que assessoram influenciadores e plataformas devem orientar sobre compliance de conteúdo, políticas contratuais e medidas preventivas (contrapontos editoriais, contextualização histórica, retratações), bem como sobre gestão de risco reputacional e jurídico.
Em síntese, a decisão reforça a fronteira entre expressão e apologia ao ódio no ambiente midiático contemporâneo, confirmando a possibilidade de responsabilização civil coletiva quando a manifestação pública busca legitimar ideologias fundadas na discriminação sistemática de grupos humanos.
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