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Pesquisa monitora cultos e identifica menções políticas durante eleições

Levantamento inédito acompanhou milhares de celebrações antes do primeiro turno e aponta presença de menções políticas em púlpitos; implicações envolvem direito de crença, legislação eleitoral e proteção de dados.

Folha — Cotidiano4 min de leitura
Pesquisa monitora cultos e identifica menções políticas durante eleições
Foto: Luan de Oliveira Silva / Unsplash

Lead de resposta direta

Um grupo de pesquisa da UFRJ, em parceria com a organização More in Common, monitorou milhares de cultos e missas nas duas semanas anteriores ao primeiro turno e analisou mais de 13 mil horas de áudio para identificar menções políticas e potenciais infrações eleitorais; a iniciativa evidencia tensões entre a liberdade religiosa, o regime eleitoral e a proteção de dados pessoais.

Contexto

A presença de discurso político em ambientes religiosos tem sido fonte de controvérsia no Brasil desde que a legislação eleitoral passou a vedar a utilização de templos e celebrações religiosas para fins de propaganda partidária e eleitoral. Por um lado, há a garantia constitucional da liberdade de crença e do livre exercício dos cultos; por outro, existe o princípio da impessoalidade e das regras de igualdade e isonomia entre candidatos que informam as normas eleitorais. Pesquisas empíricas que mapeiam a ocorrência de menções políticas em cultos são raras no país; o levantamento citado é descrito como inédito por ter quantificado e arquivado milhares de horas de áudio, o que cria material empírico singular para avaliar como esse fenômeno se manifesta na prática. Ao mesmo tempo, a coleta e análise de gravações suscitam questões de proteção de dados e privacidade, especialmente quando envolve identificação de agentes ou fiéis.

O que foi decidido

Trata-se de um levantamento acadêmico e não de uma decisão judicial. O grupo coordenado na UFRJ e a organização More in Common monitoraram cultos e missas antes do primeiro turno eleitoral, identificando menções políticas no púlpito e reunindo mais de 13 mil horas de registro áudio. Não houve, na matéria consultada, informação sobre encaminhamentos formais ao Ministério Público Eleitoral, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ou a outras autoridades, tampouco sobre medidas de responsabilização. O efeito prático imediato é a disponibilização de um banco de dados e de evidência empírica que pode subsidiar denúncias, decisões administrativas e pesquisa acadêmica sobre a interface entre religião e política no período eleitoral.

Base normativa e precedentes

  • Art. 5, CF/88 — proteção à liberdade de consciência e de crença e garantia do livre exercício dos cultos religiosos.
  • Art. 14 e princípios do processo eleitoral, CF/88 — regime democrático e igualdade de oportunidades no processo de escolha de representantes.
  • Lei nº 9.504/1997 (Lei das Eleições) — disciplina as condutas vedadas em campanhas eleitorais e regulamenta propaganda, com restrições específicas quanto ao uso de templos e celebrações para fins eleitorais.
  • Código Eleitoral (Lei nº 4.737/1965) — prevê crimes eleitorais e procedimentos penais eleitorais aplicáveis a condutas de captação ilícita de votos e propaganda irregular.
  • Lei nº 13.709/2018 (LGPD) — regras sobre tratamento de dados pessoais, incluindo áudio; impõe bases legais, princípios e direitos do titular diante de coleta e análise de gravações.
  • Jurisprudência do TSE — o tribunal já se debruçou sobre casos que envolvem a veiculação de propaganda eleitoral em ambientes religiosos, firmando entendimentos sobre abuso do poder econômico e utilização indevida de espaços de culto para fins de campanha (jurisprudência consolidada do tribunal).

Impacto prático

  • Para advogados e partidos: o banco de dados produzido pode servir como fonte probatória em representações ao Ministério Público Eleitoral ou ao TSE, desde que a cadeia de custódia e a legalidade da captação dos áudios sejam demonstradas.
  • Para candidatos e comitês de campanha: o levantamento reforça o risco de responsabilização administrativa, cível ou eleitoral quando líderes religiosos transformam cultos em palanques de propaganda, aumentando a necessidade de compliance eleitoral e monitoramento de apoio institucional indevido.
  • Para organizações religiosas: a pesquisa realça a necessidade de orientações internas sobre separação entre atividades litúrgicas e manifestações eleitorais, sob pena de implicações para a instituição ou seus dirigentes.
  • Para titulares de dados (fiéis e líderes): a captação e análise de áudios envolve tratamento de dados pessoais sensíveis à luz da LGPD, exigindo bases legais, minimização e medidas de segurança; titulares têm direitos de acesso, informação e oposição que podem ser acionados.

O que observar

  • Aspecto probatório: qualquer uso judicial ou administrativo dos áudios dependerá da demonstração da legitimidade da coleta, da preservação da integridade das gravações e do respeito às garantias constitucionais, sob risco de nulidade ou desconsideração probatória.
  • Limites da liberdade religiosa: deve ser examinada a linha tênue entre liberdade de culto e atuação de agentes religiosos como agentes de propaganda eleitoral — a vedação legal não atinge expressão de fé, mas impede a instrumentalização de cerimônias por campanhas.
  • Proteção de dados e anonimização: pesquisadores e terceiros que utilizem os arquivos precisam observar a LGPD quanto à necessidade de bases legais para tratamento, à minimização e à anonimização quando possível, para reduzir riscos de responsabilização.
  • Riscos processuais e institucionais: denúncias derivadas do levantamento podem provocar debates sobre modulação de efeitos e medidas cautelares; cabe atenção aos prazos de prescrição e às competências do Ministério Público Eleitoral e do TSE.
  • Próximos passos esperados: monitoramento de eventuais representações ou ações eleitorais que utilizem o material, possível aprofundamento acadêmico sobre impacto em eleitores e formulação de protocolos para monitoramento compatíveis com a legislação de proteção de dados.

Em síntese, o levantamento oferece evidência inédita sobre a presença de política nos púlpitos em período eleitoral e abre um campo fértil para litígios eleitorais e questões regulatórias, exigindo cruzamento cuidadoso entre liberdade religiosa, regras eleitorais e proteção de dados pessoais.

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