Justiça Federal obriga filho a devolver pensão ao INSS após feminicídio
Decisão de primeira instância determina que acusado de matar a mãe restitua ao INSS as parcelas de pensão por morte; efeito direto sobre litígios previdenciários envolvendo crime do beneficiário.

Lead de resposta direta A 1ª Vara Federal de Carazinho (RS) condenou um homem a devolver ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) os valores pagos a título de pensão por morte da mãe, cuja morte foi apurada como feminicídio. A sentença reconheceu a ligação direta entre o ato ilícito atribuído ao beneficiário e a origem do pagamento, determinando ressarcimento até liquidação e responsabilização por custas e multas.
Contexto
A controvérsia combina duas frentes: o direito previdenciário material — regido pela legislação de benefícios — e a responsabilização civil do autor de crime pelo enriquecimento indevido decorrente de benefício social. O tema não é novo: o sistema jurídico brasileiro admite que quem pratica ilícito que dê causa a vantagem patrimonial indevida responda por ressarcimento. No campo previdenciário, a hipótese cognata é a devolução de valores pagos em razão de incapacidade ou morte quando comprovada fraudulência ou culpa do beneficiário. O ponto sensível é a conjugação entre o processo penal (ainda em curso) e o processo civil/regressivo do INSS, especialmente quanto ao grau de prova exigido para vincular administrativamente ou civilmente o autor à prática delituosa.
Importa também a questão da eficácia probatória de peças de inquérito policial e laudos periciais em ações civis, bem como a admissibilidade de instrução probatória produzida na fase investigatória para fins de liquidação do débito previdenciário. A decisão incorpora ainda uma dimensão de política pública: evitar que recursos do sistema de seguridade sejam mantidos em benefício de quem se beneficiou de crime.
O que foi decidido
A juíza de primeiro grau avaliou as provas produzidas na investigação criminal — vestígios materiais no local, indícios de tentativa de ocultação, indicação do local de ocultação do cadáver pelo próprio acusado e exame necroscópico apontando estrangulamento — e concluiu haver prova suficiente da materialidade do homicídio e da autoria. Considerando que o benefício de pensão por morte foi concedido em razão do óbito da vítima e que esse óbito decorreu de conduta atribuída ao beneficiário, fixou a obrigação de ressarcir o INSS por todas as parcelas pagas e vincendas até a liquidação, além de encargos processuais.
A sentença reputou configurado o contexto de violência doméstica, reforçando o nexo causal entre a conduta ilícita do réu e a vantagem obtida pelo recebimento da pensão. Em termos práticos, a decisão determinou que o pagamento indevido — ainda que inicialmente decorrente de ato administrativo regular — deve ser restituído quando demonstrada a causa ilícita do óbito que originou o benefício.
Base normativa e precedentes
- Art. 201, CF/88 — trata da seguridade social, fundamento constitucional dos benefícios previdenciários.
- Lei 8.213/1991 (benefícios previdenciários) — regras sobre concessão e cessação de aposentadorias e pensões por morte; autoriza restituição em hipóteses previstas e conjunto de normas aplicáveis à administração do benefício.
- Código Civil (Lei 10.406/2002), art. 927 — responsabilidade civil por ato ilícito que causa dano, fundamento para obrigação de indenizar/ressarcir.
- Código Civil, art. 944 e ss. — reparação pela extensão do dano e critérios de quantificação.
- Código de Processo Civil (Lei 13.105/2015) — normas procedimentais aplicáveis ao processo de conhecimento e à produção de prova, inclusive quanto ao valor probatório de autos de investigação.
- Jurisprudência e entendimento consolidado dos tribunais federais no sentido de que benefícios concedidos por motivo diretamente ligado a ato ilícito praticado pelo beneficiário podem ser objeto de ação regressiva do INSS quando demonstrado o nexo causal.
Impacto prático
- Para o INSS: reforça a possibilidade de promover ações regressivas contra pessoas que, por sua conduta ilícita, causaram pagamento de benefício. A decisão estimula a utilização de provas produzidas em inquérito policial para justificar a cobrança administrativa/judicial.
- Para advogados de defesa criminal e cível: impõe atenção à coordenação entre defesa no processo penal e estratégia em ações cíveis/regressivas; é relevante requerer a suspensão, questionar a suficiência probatória ou apontar necessidade de extensão probatória específica no juízo civil.
- Para beneficiários e herdeiros: demonstra risco de perda de quantias percebidas se a morte que ensejou o benefício estiver ligada a conduta culposa ou dolosa do próprio recebedor.
- Para litígios em curso: decisões de primeiro grau servem como precedente local e poderão ser objeto de recurso; tribunais superiores podem pacificar parâmetros probatórios e eventual modulação de efeitos.
O que observar
- Prova suficiente: a sentença apoiou-se em provas de inquérito e perícia; contudo, há espaço para debate sobre o momento do trânsito em julgado penal e a necessidade de prova robusta no âmbito civil. Há risco de questionamento quanto à utilização de peças investigatórias sem sentença penal condenatória definitiva.
- Recursos cabíveis: a parte condenada pode interpor apelação às instâncias superiores federais, suscitando matéria probatória e eventual ofensa a princípios constitucionais (presunção de inocência em relação a efeitos patrimoniais civis) e requisitos do CPC para produção probatória complementar.
- Possibilidade de modulação: se houver posicionamento consolidado de tribunal superior sobre a matéria, pode ocorrer modulação dos efeitos restitutórios para evitar impacto retroativo sobre terceiros de boa-fé.
- Procedimento de liquidação e execução: a sentença abre a fase de liquidação para apurar quantia devida; atenção às repercussões sobre bens do executado e à eventual negativação de valores já percebidos.
Em suma, a decisão confirma a tendência de responsabilização patrimonial por atos ilícitos que geram vantagem indevida no âmbito previdenciário, exigindo dos operadores do direito um trato cuidadoso entre os planos penal e civil para salvaguardar garantias processuais sem esvaziar a tutela do erário.
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