STJ confirma tributação de Selic sobre depósitos compulsórios
O STJ decidiu que a remuneração Selic dos depósitos compulsórios integra ganho tributável e incide IRPJ e CSLL, afetando instituições financeiras e contencioso fiscal.

Decisão em síntese: A 1ª turma do Superior Tribunal de Justiça confirmou que a remuneração paga pela taxa Selic sobre depósitos compulsórios mantidos por instituições financeiras no Banco Central configura ingresso econômico tributável, estando sujeita à incidência do IRPJ e da CSLL. A decisão foi tomada em recurso especial interposto por instituição financeira e tem efeito imediato para o caso concreto, preservando a interpretação do tribunal de que a Selic representa acréscimo patrimonial, não mera compensação indenizatória.
Contexto
A controvérsia nasce da natureza jurídica dos rendimentos decorrentes de depósitos compulsórios, instrumento no qual o Banco Central exige que instituições financeiras mantenham parte dos recursos como ferramenta de política monetária. Por serem exigidos por norma, os depósitos não resultam de uma opção negocial do banco, o que motivou a tese defensiva de que a remuneração pela Selic teria caráter indenizatório: uma compensação pela indisponibilidade forçada dos valores, e não um acréscimo patrimonial tributável.
A discussão conecta-se a precedente que o STJ já firmou sobre rendimentos oriundos de depósitos judiciais remunerados pela Selic, no qual o tribunal entendeu que, quando a taxa remunera valores à disposição de terceiro, há ganho econômico tributável. A divergência central é se o raciocínio aplicado a depósitos judiciais é extensível aos depósitos compulsórios, diante da distinta origem — judicial versus regulatória — e da ausência de ato ilícito ou mora pelo depositário.
O que foi decidido
A turma manteve o entendimento de que a Selic paga sobre depósitos compulsórios integra a base de cálculo do IRPJ e da CSLL. O relator afastou a tese de que a natureza dos depósitos — motivada por imposição normativa de política monetária — transforme a remuneração em mera indenização. Para o relator, não se trata de repetição de indébito ou de recomposição por atraso de pagamento estatal; ao contrário, a remuneração representa ingresso financeiro efetivo na esfera econômica da instituição, com potencial de aumentar sua capacidade patrimonial.
O fundamento central é a identificação de ganho econômico: a Selic agrega ao patrimônio da instituição financeira uma vantagem econômica concreta, independentemente de a causa da indisponibilidade ser legalmente legítima. Assim, aplicou-se a mesma lógica adotada nos precedentes sobre depósitos judiciais, segundo a qual a disponibilização remunerada de valores à instituição configura fato gerador para fins de imposto sobre a renda e contribuição social.
Base normativa e precedentes
- Constituição Federal/88 — princípios tributários e limites à tributação, que orientam a interpretação do fato gerador e da capacidade contributiva.
- Código Tributário Nacional (Lei 5.172/1966) — normas gerais sobre fato gerador, base de cálculo e rendimentos para fins de tributação.
- Lei do IRPJ e da CSLL — estrutura legal que define incidência e base de cálculo desses tributos (normas específicas aplicáveis ao rendimento das pessoas jurídicas).
- Jurisprudência do STJ sobre depósitos judiciais remunerados pela Selic — precedente que considerou tributáveis os rendimentos quando a taxa remunera valores à disposição de terceiro, parâmetro usado pelo colegiado no caso.
Impacto prático
- Para instituições financeiras: confirma-se a exposição tributária sobre rendimentos da Selic incidentes sobre depósitos compulsórios, reduzindo a margem líquida desses rendimentos e aumentando a probabilidade de autuações fiscais e reflexos em apurações de IRPJ e CSLL.
- Para contencioso fiscal em curso: decisões administrativas e judiciais favoráveis a bancos poderão ser reabertas ou revistas à luz do entendimento uniforme do STJ; casos ideologicamente idênticos tendem a seguir esse direcionamento, salvo se houver distinção fática relevante.
- Para planejamento e conformidade tributária: bancos devem revisar provisões, demonstrativos de resultados e políticas contábeis relativas aos rendimentos de depósitos compulsórios, além de avaliar possibilidade de impactos em lucros e bases contributivas.
- Para a Fazenda e a cobrança de créditos tributários: o entendimento reforça a base para cobrança de créditos fiscais sobre períodos não prescritos, com eventuais pedidos de repetição de indébito sendo analisados de forma mais restritiva quando a hipótese for mera disponibilidade remunerada.
O que observar
- Limites e possibilidades de recurso: embora decidido em turma, a matéria pode seguir para eventual recurso ao plenário do STJ ou ao Supremo Tribunal Federal se houver relevante questão constitucional, o que pode provocar modulação de efeitos.
- Distinção fática: casos concretos com elementos diferentemente estruturados (por exemplo, natureza do valor, mecanismo específico de remuneração, vínculo contratual ou regulatório distinto) podem gerar tratamento diverso; advogados devem mapear fatos específicos antes de adotar teses idênticas.
- Risco de bitributação ou questionamento contábil: instituições precisam compatibilizar entendimento tributário com normas contábeis e de prestação de informações, evitando inconsistência entre reconhecimentos fiscais e contábeis.
- Precedentes e coerência jurisprudencial: a decisão reforça a posição do STJ sobre renda financeira remunerada pela Selic, mas a evolução futura dependerá de novas demandas e eventuais manifestações do Supremo sobre controle concentrado de constitucionalidade.
Conclusão: a decisão consolidou a visão de que a remuneração pela Selic em depósitos compulsórios não se configura como mera compensação, mas como acréscimo econômico tributável. Advogados e departamentos tributários de instituições financeiras devem recalibrar teses e provisionamentos, e acompanhar desdobramentos recursais e eventuais medidas de modulação que possam alterar efeitos práticos da jurisprudência.
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