TJRJ condena réus pelo assassinato da cantora Aline Borel
Tribunal do Rio de Janeiro julgou e condenou dois acusados pelo homicídio da influenciadora Aline Borel; decisão discute circunstâncias judiciais e repercussão social.

A Vara Criminal de Araruama, vinculada ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, proferiu sentença condenatória contra dois dos acusados pelo homicídio da cantora e blogueira Aline Borel. O conselho de sentença aplicou penas de 28 anos e 1 mês a um dos réus e 16 anos e 6 meses ao outro. A decisão destacou a materialidade e autoria do crime, bem como a repercussão pública do homicídio como elemento apto a agravar a pena.
Contexto
O caso ocorreu em 20 de abril de 2022, quando a vítima foi atraída até a Praia do Dentinho, em Praia Seca, e foi executada a tiros. A denúncia apontou a participação de pelo menos quatro pessoas, entre elas dois condenados e outros apontados como articuladores do crime. Segundo a narrativa acusatória, a motivação teria relação com desconfiança dos traficantes locais de que a vítima forneceria informações a grupo rival (milícia), o que integra o pano de fundo delitivo: disputas territoriais de facções e retaliação.
A controvérsia processual guarda pontos de interesse prático e dogmático. Em primeiro lugar, trata-se de crime doloso contra a vida, cuja valoração probatória em júri popular demanda exame da prova testemunhal e pericial. Em segundo lugar, o julgamento explorou as circunstâncias judiciais previstas no Código Penal para individualização da pena, com ênfase na repercussão social do homicídio — fato que, na prática, indica tratamento mais severo quando as consequências transcendem o âmbito estritamente familiar ou local.
O que foi decidido
O conselho de sentença reconheceu a culpabilidade dos dois acusados pela participação no homicídio, aplicando pena privativa de liberdade de longa duração a ambos, em graus distintos conforme a participação atribuída a cada um. A sentença do magistrado presidente do júri enfatizou não apenas a materialidade e a autoria, mas também as consequências sociais do crime, entendendo que a grande repercussão e a “sensação coletiva de perda precoce” configuraram circunstância judicial negativa.
A fundamentação penal consultou elementos objetivos (local, modo de execução, provas colhidas) e subjetivos (motivação ligada à disputa entre grupos criminosos e a conduta premeditada). Sobre a repercussão do crime, o julgador registrou que a comoção extrapolou limites locais e familiares, justificando agravamento na dosimetria da pena. Em síntese, a decisão combina a apreciação típica do delito de homicídio doloso com a individualização da pena à luz das circunstâncias judiciais previstas em lei.
Base normativa e precedentes
- Art. 121, Código Penal (Decreto-Lei nº 2.848/1940) — tipifica o homicídio doloso e suas penas-base;
- Art. 121, §2º, Código Penal — lista qualificadoras que elevam a pena quando presentes circunstâncias como motivo torpe, emprego de meio cruel etc.; a aplicação depende da prova idônea;
- Arts. 59 e 68, Código Penal — preveem a dosimetria da pena e a valoração das circunstâncias judiciais para individualização da sanção;
- Art. 5º, CF/88 — garantia do devido processo legal e princípios constitucionais do julgamento pelo juiz natural; o julgamento por tribunal do júri é expressão dessa garantia para crimes dolosos contra a vida;
- Código de Processo Penal (Decreto-Lei nº 3.689/1941) — normas procedimentais do júri, produção de provas e presidência do julgador;
- Jurisprudência correlata: a jurisprudência consolidada dos tribunais superiores sobre valoração da repercussão social e dosimetria tende a exigir prova concreta do nexo entre repercussão e culpa para justificar agravamento.
Impacto prático
- Para advogados de defesa: a utilização da repercussão social como circunstância negativa impõe foco defensivo na demonstração da ausência de nexo causal entre a visibilidade da vítima e a culpabilidade do réu, bem como na fragilidade probatória relativa às qualificadoras alegadas;
- Para Ministério Público: reforça a possibilidade de pedir agravos na dosimetria quando a prova indicar que o crime provocou repercussão nacional ou impacto coletivo, desde que demonstrado por elementos objetivos;
- Para familiares e sociedade: confirma a eficácia do júri popular na apreciação de crimes dolosos contra a vida e a importância da prova testemunhal e pericial para imputar participação diferenciada aos agentes;
- Para o sistema prisional e execução penal: penas longas determinadas em primeira instância podem ensejar recursos e discussão sobre regime inicial de cumprimento; a execução ficará sujeita às regras do Código de Processo Penal e da Lei de Execução Penal, conforme trânsito em julgado.
O que observar
- Prova da circunstância: tribunais superiores têm exigido prova concreta para justificar agravantes não previstas no tipo penal; apenas a repercussão midiática, sem vínculo demonstrável com a culpabilidade, pode ser questionada em recurso;
- Recursos cabíveis: condenações em júri são passíveis de apelação para reexame da dosimetria e das qualificadoras, e de eventuais recursos aos tribunais superiores quando violados princípios constitucionais ou legais;
- Possível modulação de efeitos: a decisão de primeiro grau não tem poder de modular efeitos além das penas impostas, mas a fixação de parâmetros pela instância revisora pode influenciar jurisprudência local sobre valoração da repercussão social;
- Risco de excessiva valoração extrapenal: operacionais defensivos devem atentar para eventual supervalorização de elementos de ordem social que escapem à esfera probatória do crime em si, argumento usado para impugnar a dosimetria.
Em termos práticos, o julgamento em Araruama reafirma a centralidade do júri para crimes contra a vida e evidencia que repercussão pública pode ser fator relevante na dosimetria quando devidamente comprovada. Para a prática advocatícia, o caso reforça a necessidade de controverter tanto a autoria quanto a prova da circunstância agravante para mitigar a pena em recurso.
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