Pular para o conteúdo
JusFeed · Memória ForenseJusFeed
ConstitucionalTSE

TSE reconhece inelegibilidade por lesão corporal qualificada contra mulher

O TSE confirmou indeferimento de registro por condenação por lesão corporal qualificada contra a mulher e orienta o Congresso a incluir violência contra a mulher na LC 64/1990.

Consultor Jurídico (ConJur)5 min de leitura
TSE reconhece inelegibilidade por lesão corporal qualificada contra mulher

O Tribunal Superior Eleitoral manteve o indeferimento do registro de candidatura de um postulante a deputado federal em razão de condenação colegiada por lesão corporal qualificada contra a mulher, entendendo que a conduta integra o núcleo de proteção penal da vida e, portanto, atrai causa de inelegibilidade prevista na Lei Complementar nº 64/1990.
\

Contexto\

A controvérsia decorre da atualização do Código Penal promovida pela Lei nº 14.994/2024 (denominada Lei do Feminicídio ou de aperfeiçoamento da tutela penal da mulher), que passou a tipificar, no art. 129, § 13, a lesão corporal praticada por razões de gênero, vinculando-a aos mesmos elementos normativos que caracterizam o feminicídio. A questão eleitoral suscitada nasceu quando o registro do candidato foi impugnado com base na LC 64/1990, instrumento que elenca hipóteses de inelegibilidade por condenação criminal. Historicamente, o TSE já adotou, em diversos precedentes, uma interpretação que privilegia o critério material — isto é, o bem jurídico protegido pelo tipo penal — na aferição de inelegibilidades, em vez de se limitar à mera classificação formal do tipo penal no ordenamento. Essa abordagem busca conferir coerência entre a finalidade protetiva da norma penal e as consequências de natureza eleitoral. A controvérsia importa porque envolve o alcance da LC 64/1990 frente a inovações legislativas penais e porque afeta o equilíbrio entre segurança jurídica do registro de candidatura e o dever de proteção dos direitos fundamentais das mulheres.
\

O que foi decidido\

A turma do TSE, em análise do recurso ordinário interposto contra decisão do TRE local que indeferiu o registro, manteve o entendimento de que a condenação por lesão corporal qualificada por motivo da condição de sexo feminino constitui causa de inelegibilidade. O relator fundamentou a decisão no critério material do bem jurídico tutelado: ao integrar o mesmo sistema de tutela penal reforçada contra a violência de gênero, a lesão corporal tipificada no art. 129, § 13, do Código Penal passa a integrar a esfera dos chamados "crimes contra a vida" para fins da LC 64/1990, item que trata das hipóteses de inelegibilidade. A Corte destacou que não se cria nova hipótese abstrata de inelegibilidade, nem se opera analogia legislativa; o que se faz é delimitar o alcance material da categoria já prevista na lei complementar, à luz da reformulação do tipo penal. Por essa razão, a condenação colegiada confirmada em segunda instância pelo Tribunal de Justiça de Alagoas foi considerada suficiente para manter o indeferimento do pedido de registro. Além da decisão meritória, o colegiado aprovou envio de ofício ao Congresso Nacional sugerindo a alteração expressa da LC 64/1990 para incorporar, de modo claro, condenações por crimes praticados mediante violência contra a mulher entre as causas de inelegibilidade.
\

Base normativa e precedentes\

  • Art. 5º, CF/88 — garantias fundamentais, natureza dos direitos políticos e possibilidade de restrições decorrentes de condenação.\
  • Lei Complementar nº 64/1990 — trata das hipóteses de inelegibilidade decorrentes de condenação criminal; insere o item que engloba crimes contra a vida.\
  • Lei nº 14.994/2024 — alterou o Código Penal e incluiu dispositivo que qualifica lesão corporal quando praticada por razões de condição do sexo feminino (art. 129, § 13).\
  • Código Penal (Lei nº 2.848/1940), art. 129, § 13 — previsão do tipo penal de lesão corporal qualificada por razões de gênero (conforme redação derivada da Lei 14.994/2024).\
  • Jurisprudência consolidada do TSE — adoção do critério material do bem jurídico tutelado para aferição das causas de inelegibilidade, superando classificações formais do tipo penal.
    \

Impacto prático\

  • Para candidatos e partidos: decisões condenatórias por crimes tipificados como violência contra a mulher podem gerar indeferimento de registro mesmo quando o tipo penal não esteja rotulado como homicídio ou crime de sexualidade, em razão da interpretação material adotada pelo TSE. Partidos precisam reforçar diligências na análise de fichas de filiação e antecedentes.\
  • Para advogados eleitorais: a linha de argumentação defensiva que se baseia exclusivamente na taxatividade formal da LC 64/1990 terá menor força quando a condenação revelar tutela penal voltada à proteção da mulher; será necessário disputar o alcance material do bem jurídico tutelado ou buscar impugnações processuais nos autos criminais.\
  • Para o Ministério Público e juízes eleitorais: valida-se a possibilidade de impugnação de registros com fundamento em condenações por delitos que a lei penal recente inscreveu no sistema de proteção à mulher, com efeito imediato de indeferimento quando a condenação for colegiada e não houver recurso com efeito suspensivo.\
  • Para o Legislativo: o TSE manifestou formalmente apelo ao Congresso para que a LC 64/1990 seja aperfeiçoada, de forma expressa, para evitar controvérsias interpretativas e conferir maior segurança jurídica sobre hipóteses de inelegibilidade decorrentes de violência contra a mulher.
    \

O que observar\

  • Recursos e efeitos processuais: decisões que mantêm indeferimentos por condenações criminais podem ensejar recursos aos tribunais superiores ou medidas constitucionais, dependendo do caso, e a existência de trânsito em julgado ou a natureza colegiada da condenação pode influenciar o exame da inelegibilidade.\
  • Modulação legislativa: a iniciativa sugerida pelo TSE ao Congresso pode resultar em alteração da LC 64/1990, o que corrigiria eventuais lacunas de redação e reduziria controvérsias futuras; acompanhar proposições legislativas será crucial.\
  • Critério material vs. formal: a adoção reiterada do critério material pelo TSE tende a ampliar o espectro de crimes que, na prática eleitoral, geram inelegibilidade; operadores do direito devem adaptar teses defensivas e de controle documentais a essa orientação.\
  • Risco de insegurança jurídica e contestações: permanece espaço para controvérsias sobre o enquadramento material de tipos penais reformatados por leis recentes, o que pode gerar debates sobre retroatividade, interpretação conforme a Constituição e limites da analogia na legislação eleitoral.\
  • Relevância probatória: em processos eleitorais, a natureza da condenação (unanimidade, instância colegiada) e a demonstração do nexo motivacional por razão de gênero nos autos penais serão pontos centrais para a configuração da inelegibilidade.

Você concorda com a decisão?

Gostou da notícia?

🔔 Acompanhe este assunto

Siga os temas desta matéria — a gente te avisa quando houver nova decisão ou conteúdo, direto no seu Meu JusFeed.

Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar essa matéria.

Relacionadas em Constitucional

Ver tudo