TSE manda remoção de vídeo com crianças e afina controle sobre desinformação
Decisão do ministro Marco Aurélio Bellizze determina remoção de vídeo com crianças que associavam crimes a Lula; decisão equilibra proteção da infância e liberdade de expressão.

O Tribunal Superior Eleitoral, por ordem do ministro Marco Aurélio Bellizze, determinou a remoção de um vídeo publicado por deputados e candidatos contendo crianças que encenavam acusações contra o presidente Lula, com efeito imediato de retirada das URLs das plataformas em 24 horas. A decisão atendeu pedido da coligação do candidato atingido e fundamentou-se na proteção integral da criança e no controle de desinformação em propaganda eleitoral.
Contexto
O caso insere-se na disputa contemporânea sobre os limites da propaganda política nas plataformas digitais, especialmente quando esta recorre a imagens e vozes de crianças para transmitir mensagens negativas sobre adversários. Conflitos desse tipo colocam em tensão princípios constitucionais como a liberdade de expressão (art. 5º, CF/88) e a proteção integral à criança e ao adolescente (art. 227, CF/88), bem como regras específicas do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA, Lei 8.069/1990). Além disso, há um esforço dos tribunais eleitorais e das plataformas para coibir a chamada desinformação de segunda geração — conteúdos que apresentam falas dramatizadas ou descontextualizadas para produzir conclusões enganosas no eleitorado.
A controvérsia é relevante porque define parâmetros sobre quando a manifestação política deixa de ser resguardada pela liberdade de expressão e passa a configurar ilícito eleitoral ou violação de direitos fundamentais de terceiros (no caso, das próprias crianças). Decisões judiciais em processos eleitorais recentes têm oscilado entre medidas de remoção de conteúdo e cautelas para evitar censura prévia; o TSE vem adotando uma linha que permite intervenções rápidas em situações de risco ao processo eleitoral ou a direitos fundamentais.
O que foi decidido
A turma decidiu autorizar, em caráter liminar e parcialmente, a retirada das URLs do vídeo das plataformas onde foi publicado por deputado federal e replicado por candidato, sob o argumento de que o material explorava a inocência infantil como principal expediente narrativo para imputar crimes e responsabilidade ao alvo da peça. O ministro entendeu que as falas ensaiadas das crianças não eram meramente registros incidentais, mas o núcleo persuasivo da mensagem negativa, e que essa utilização agravava o potencial de influência indevida sobre o eleitorado.
A liminar determinou a remoção dos links no prazo de 24 horas e autorizou notificação direta às provedoras de aplicação caso houvesse descumprimento, mas recusou medidas mais amplas — como o bloqueio integral de perfis ou proibição genérica de postagens futuras — para evitar risco de censura prévia. Ou seja, houve intervenção específica sobre o conteúdo apontado como nocivo, mantendo-se garantia de liberdade de manifestação para os perfis que não publicarem material com as mesmas características.
Base normativa e precedentes
- Art. 5º, CF/88 — assegura a liberdade de expressão, mas admite limites quando há invasão de direitos de terceiros.
- Art. 227, CF/88 — princípio da proteção integral da criança e do adolescente como parâmetro interpretativo em políticas públicas e decisões judiciais.
- ECA (Lei 8.069/1990) — normas sobre direito à proteção contra formas de exploração e exposição indevida; serve de fundamento para restringir atos que coloquem menores em situação de risco psicológico ou de imagem.
- Resoluções do TSE sobre propaganda eleitoral na internet — normas administrativas que disciplinam conteúdo eleitoral e possibilitam medidas céleres de remoção de material ilícito em ambiente digital (aplicação prática no processo eleitoral).
- Jurisprudência consolidada do tribunal — o TSE tem precedente de autorizar remoção de conteúdos que configuram desinformação ou violam regras do pleito, ponderando sempre a necessidade de evitar censura prévia.
Impacto prático
- Para advogados eleitorais: a decisão reforça a estratégia de tutela inibitória e remoção imediata em casos que combinam desinformação e uso de imagem infantil; pede atenção à prova técnica que demonstre potencial lesivo e relação direta entre conteúdo e dano.
- Para plataformas e provedores: aumenta a responsabilidade de atender removals liminares expedidas pelo TSE e justifica desenvolvimento de fluxos rápidos de compliance para conteúdos eleitorais envolvendo menores.
- Para candidatos e partidos: sinaliza risco de responsabilização (processual e reputacional) ao instrumentalizar crianças em mensagens negativas; campanhas devem revisar roteiros e conteúdos editoriais para evitar emprego de menores como recurso persuasivo.
- Para o processo eleitoral: a decisão tende a reduzir a circulação de peças emotivas que possam distorcer a percepção do eleitorado, contribuindo para um ambiente informacional menos contaminado por narrativas descontextualizadas.
O que observar
- Prova e fundamentação: decisões liminares dependem de demonstração plausível do risco e do fumus boni iuris; futuros pedidos precisam articular claramente por que a peça infantiliza o debate e como afeta o pleito.
- Modulação e recursos: cabe recurso contra a liminar e eventual reexame colegiado; há espaço para debate sobre a modulação dos efeitos para evitar censura excessiva enquanto se protege a infância.
- Critérios para plataformas: será necessário detalhar padrões objetivos para identificar quando a imagem de criança é uso instrumental e quando é meramente informativa, sob pena de decisões inconsistentes.
- Repercussão normativa: o caso pode acelerar orientações do TSE sobre propaganda infantil e desinformação, inclusive com normativas mais claras para provedores e agentes políticos.
- Riscos profissionais: advogados devem orientar clientes sobre conformidade com o ECA e legislação eleitoral, além de preparar defesa técnica baseada em contexto e intenção comunicacional.
Representação: 0602893-95.2026.6.00.0000.
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