CARF afasta cobrança de IRPJ e CSLL contra Petrobras por uso do Roace
A 1ª Turma da Câmara Superior do CARF anulou autuação de R$ 3,4 bilhões relativa a preços de transferência, rejeitando o uso do índice Roace pela fiscalização.

Decisão e efeito prático imediato: A 1ª Turma da Câmara Superior do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) anulou cobrança de IRPJ e CSLL contra a Petrobras relativa a ajustes de preços de transferência em contratos de afretamento, afastando a utilização do índice Roace pela fiscalização. O resultado implica a manutenção das deduções admitidas em primeira instância administrativa e a rejeição de autuação que, segundo a companhia, alcançava aproximadamente R$ 3,4 bilhões.
Contexto
A controvérsia gira em torno da metodologia adequada para cálculos de preços de transferência em operações entre partes relacionadas no exterior. No Brasil, a disciplina sobre preços de transferência tem sido fonte frequente de litígios administrativos e judiciais por envolver escolhas metodológicas com forte impacto no lucro tributável. A questão prática é se o critério adotado pela fiscalização — aqui, o índice Roace (Return on Average Capital Employed) para definir taxa de retorno — é compatível com as metodologias previstas e com a realidade econômica das operações de afretamento, ou se deve prevalecer o método aplicado pelo contribuinte, no caso o método de Preços Independentes Comparados (PIC).
A divergência não é apenas técnica: métodos distintos podem alterar substancialmente a base de cálculo do IRPJ e da CSLL, com impactos bilionários em grandes contribuintes do setor de óleo e gás. Além disso, disputas sobre metodologia tocam princípios do direito tributário como a legalidade, a segurança jurídica e a razoabilidade na valoração de preços entre vinculadas.
O que foi decidido
A turma deu provimento ao recurso do contribuinte e rejeitou os ajustes efetuados pela fiscalização que se basearam no índice Roace. O relator concluiu que o Roace não é adequado para aferir a taxa de retorno aplicável às operações de afretamento, por captar rentabilidade decorrente de todas as atividades das empresas comparadas, e não apenas dos contratos de afretamento objeto do exame. Segundo o voto vencedor, essa característica do Roace contaminaria o cálculo de preços de transferência, impondo um critério que distorce a comparabilidade e extrapola o objeto do ajuste tributário.
O posicionamento foi acompanhado por todos os conselheiros da 1ª Turma da Câmara Superior, inclusive por quem reformulou voto apresentado em sessão anterior. Em decisões correlatas, no mesmo sentido, o colegiado também afastou lançamentos contra a Repsol Sinopec Brasil SA, por entender igualmente indevido o uso do Roace pela fiscalização.
Base normativa e precedentes
- Constituição Federal de 1988 (CF/88) — princípios da legalidade e da segurança jurídica aplicáveis à tributação.
- Código Tributário Nacional, Lei 5.172/1966 (CTN) — normas gerais de direito tributário, incluindo conceito de lançamento e regras de interpretação que orientam a aferição da base de cálculo.
- Lei 9.430/1996 — dispositivo normativo que consolidou e disciplinou procedimentos relativos a preços de transferência no Brasil (relevante para o marco legal das operações entre vinculadas no exterior).
- Normas e orientações da Receita Federal (IN/RFB aplicáveis) — regulamentam a aplicação prática das metodologias de preços de transferência e os critérios de comparabilidade.
- Jurisprudência administrativa do CARF — o colegiado tem firmado compreensão sobre a exigência de escolha metodológica que reflita com fidelidade a operação examinada; a decisão atual integra essa tendência de controle técnico sobre os métodos adotados pela fiscalização.
Impacto prático
- Para grandes empresas do setor de óleo e gás: confirma-se um limite na utilização de índices agregadores de rentabilidade — como o Roace — quando estes capturam resultados globalizados das comparáveis e não isolam a atividade específica objeto da comparação (afretamento). Em processos administrativos e autuações em curso, contribuintes podem invocar essa decisão para atacar lançamentos que se baseiam em metodologias análogas.
- Para a Administração Tributária: reduz a margem de manobra para adotar indicadores que não preservem a comparabilidade estrita entre operações; exige-se maior fundamentação técnica quando a fiscalização utiliza índices que incorporam elementos extracuturais das empresas comparadas.
- Para advogados tributários e consultores: reforça-se a necessidade de construir defesa técnica robusta sobre seleção de comparáveis e ajuste por diferenças funcionais; há oportunidade para sustentar a aplicação do PIC quando adequadamente demonstrada a comparabilidade.
- Para os processos pendentes: decisões unânimes em turma superior do CARF podem influenciar julgamentos em instâncias congêneres e ensejar revisões de autuações semelhantes; impactos sobre exigibilidade e expectativa de crédito tributário devem ser avaliados caso a caso.
O que observar
- Modulação e efeitos: a decisão é administrativa; eficácia e alcance frente a execuções fiscais e demandas judiciais dependerão do estágio processual de cada contencioso e de eventual uniformização de entendimento em instâncias superiores.
- Risco de novas abordagens fiscais: a Receita pode buscar outras bases de cálculo ou aprimorar a fundamentação técnico-econômica ao empregar indicadores de rentabilidade, reforçando diligências sobre as diferenças funcionais entre empresas comparáveis.
- Prova pericial e documentação: para sustentar o uso do PIC, contribuintes devem manter memória de cálculo detalhada, critérios de seleção das comparáveis e justificativa para excluírem índices agregadores; omissões podem fragilizar defesas.
- Recursos cabíveis: decisões do CARF seguem o fluxo administrativo; dependendo do resultado final e do interesse da Fazenda Nacional, casos significativos podem migrar ao Judiciário, ensejando possibilidade de repercussão maior em instâncias superiores.
Conclusão: o julgamento reforça o controle técnico sobre a escolha metodológica em preços de transferência, acentuando que indicadores de rentabilidade ampla — como o Roace — não se prestam, por si só, a substituir métodos de comparabilidade que focalizem exclusivamente as operações de afretamento. Para contribuintes e seus advogados, a lição é clara: documentação e argumentação técnico-econômica são essenciais para preservar deduções e mitigar autuações bilionárias.
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