Pular para o conteúdo
JusFeed · Memória ForenseJusFeed
CívelANÁLISE

Morre Nando Manini: direitos autorais e proteção do legado musical

O falecimento de Nando Manini reabre questões sobre gestão de acervo, direitos autorais e proteção do patrimônio imaterial da MPB; importe verificar sucessão e acesso público.

Folha — Cotidiano4 min de leitura
Morre Nando Manini: direitos autorais e proteção do legado musical

Foi noticiado o falecimento de Nando Manini, músico que participou de momentos relevantes da MPB e que usava instrumentos incomuns como a queixada de burro em apresentações históricas, o que exige uma reflexão sobre a tutela jurídica do legado artístico e cultural que ele deixa. A morte de um agente cultural não apenas provoca comoção; impõe decisões jurídicas sobre direitos autorais, direitos personalíssimos e a preservação do patrimônio imaterial.

Contexto

A morte de intérpretes e compositores costuma reativar debates sobre a destinação de acervos, a proteção dos direitos morais e patrimoniais e o reconhecimento do valor cultural de suas obras. No Brasil, a matéria conflui com normas constitucionais que tratam do patrimônio cultural, com o regime de direitos autorais e com o direito civil dos sucessores. Historicamente, o tratamento jurídico de acervos musicais envolve tensão entre a remuneração e exploração econômica das obras e o interesse público na fruição e preservação de bens culturais. Além disso, incertezas práticas — como inventário de obras não registradas, gravações ao vivo, arranjos e instrumentos exóticos — costumam gerar disputas entre herdeiros, editoras, gravadoras e instituições culturais.

O que foi decidido

Não há, na notícia original, nenhuma decisão judicial ou administrativa específica sobre o espólio de Nando Manini; o que se impõe aqui é uma análise das consequências jurídicas previsíveis em casos semelhantes. Em regra, a tutela do legado artístico envolve: (i) apuração do conjunto de obras e gravações que compõem o acervo do autor/intérprete; (ii) identificação dos titulares dos direitos patrimoniais após o óbito; (iii) preservação dos direitos morais, inalienáveis e imprescritíveis quanto à paternidade e integridade da obra; e (iv) definição de políticas de acesso e preservação, preferencialmente em diálogo com instituições culturais. Assim, o tema central não é uma decisão singular, mas o mapa de direitos e deveres que se ativa com a morte do artista.

Base normativa e precedentes

  • Art. 215 e 216, CF/88 — reconhecem a valorização e proteção do patrimônio cultural, incluindo bens imateriais e manifestações artísticas que compõem o acervo cultural nacional.
  • Lei 9.610/1998 (Direitos Autorais) — disciplina direitos morais e patrimoniais sobre obras intelectuais, estabelece duração de direitos patrimoniais e mecanismos de exploração e licenciamento.
  • Código Civil (Lei 10.406/2002) — trata da sucessão e da transmissão de bens, aplicando-se, na falta de disposição contratual diversa, aos direitos autorais e ao patrimônio do espólio.
  • Código Civil, art. 20 — protege a imagem das pessoas, tema incidente quando se trata de divulgação póstuma de gravações e fotografias.
  • Jurisprudência: a jurisprudência consolidada dos tribunais superiores tem entendido que direitos morais de autor são inalienáveis e perduram, exigindo cuidados quanto à integridade das obras após o falecimento; os direitos patrimoniais, por sua vez, são transmitidos aos herdeiros, respeitada a duração legal.

Impacto prático

  • Para herdeiros e inventariante:

    • É imprescindível realizar o levantamento documental e audiovisual do acervo, com identificação de composições, arreglos, gravações e contratos existentes (edição, fonograma, execução pública, sincronização).
    • Os direitos patrimoniais sobre composições e gravações serão partilháveis no inventário, observada a legislação de direitos autorais, e exigirão eventual regularização junto a associações de gestão coletiva.
  • Para editoras, gravadoras e plataformas:

    • Qualquer exploração econômica de obras ou fonogramas deverá observar títulos de titularidade e eventuais licenças em curso; a ausência de autorização dos sucessores pode ensejar demandas por violação de direitos autorais e de imagem.
  • Para museus, arquivos e universidades:

    • Há espaço jurídico e político para celebrar termos de guarda, depósitos fiduciários ou doações que preservem o acervo e garantam acesso público, em consonância com os arts. 215 e 216 da CF/88.
  • Para o público e curadores culturais:

    • Digitalização e disponibilização de material histórico exigem licenciamento ou autorização dos titulares patrimoniais, salvo exceções previstas em lei (ex.: reprodução para fins de preservação em certos termos previstos na Lei 9.610/1998).

O que observar

  • Inventário e prova documental: a inexistência de contratos escritos ou registros formais é comum no meio musical; por isso, advogados e herdeiros devem priorizar a recomposição documental (contratos, notas fiscais, registros em associações de gestão coletiva como ECAD/entidades de autores) para evitar litígios sobre titularidade.

  • Direitos morais versus exploração: os direitos morais permanecem após a morte do autor e podem implicar controle sobre alterações de obras e a forma de divulgação; herdeiros e instituições precisam conciliar preservação da integridade das obras com iniciativas de restauração, reedição e uso comercial.

  • Acordos de custódia e políticas de acesso: celebração de instrumentos legais (termos de doação com cláusulas de guarda, contratos de depósito, convênios com entidades culturais) pode assegurar preservação técnica e acesso público, evitando dispersão do acervo.

  • Fiscalização e gestão coletiva: verifique a regularidade de recolhimentos e contratos com coletoras de direitos; eventuais receitas pendentes de execução pública e retransmissão devem ser objeto de levantamento para recomposição patrimonial do espólio.

  • Fiscal e patrimonial: aspectos tributários e as implicações econômicas da exploração póstuma devem ser avaliados no inventário, inclusive receitas futuras provenientes de direitos autorais.

Em suma, o falecimento de figuras como Nando Manini exige que advogados, herdeiros e instituições culturais atuem de forma coordenada para garantir tanto a proteção jurídica dos direitos autorais e de personalidade quanto a preservação do patrimônio imaterial que integra a história da MPB.

Você concorda com a decisão?

Gostou da notícia?

🔔 Acompanhe este assunto

Siga os temas desta matéria — a gente te avisa quando houver nova decisão ou conteúdo, direto no seu Meu JusFeed.

Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar essa matéria.

Relacionadas em Cível

Ver tudo