PL 1532/2023: incentivo a apoio individualizado a trabalhadores com deficiência
Projeto que cria mecanismo de apoio personalizado para pessoas com deficiência no trabalho avançou na CDH e segue à CAE; impacto regulatório e operacional exige atenção a LBI, CLT e orçamento.

O projeto de lei que institui incentivo ao apoio individualizado para pessoas com deficiência ou com doenças raras que exercem atividade remunerada (PL 1.532/2023) recebeu parecer favorável na Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado e foi remetido à Comissão de Assuntos Econômicos (CAE). A tramitação indica possibilidade de modulação da proposta segundo critérios orçamentários e de política pública, com efeitos práticos sobre deveres de empregadores, modelos de financiamento e o desenho de medidas de acessibilidade laboral.
Contexto
A proposta insere-se num quadro normativo já plural: a Constituição Federal de 1988 consagra direitos sociais e a vedação de discriminação (por exemplo, proteção ao trabalhador e igualdade material), enquanto a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015) e a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência orientam a adoção de adaptações razoáveis e medidas de acessibilidade. No plano trabalhista, a Consolidação das Leis do Trabalho (Decreto-Lei 5.452/1943) disciplina contrato e relação de emprego, mas deixa à legislação complementar e à negociação coletiva a regulação de muitas medidas específicas de inclusão laboral.
Há divergências práticas e doutrinárias quanto ao alcance das obrigações do empregador: até que ponto adaptações exigem dispêndio direto do empregador, quando podem ser custeadas por políticas públicas ou incentivos e como compatibilizar proteção com competitividade empresarial. Outro ponto sensível é a interface entre a proteção contra discriminação e os regimes de responsabilidade administrativa e civil em face de descumprimento.
O que foi decidido
A CDH manifestou parecer favorável ao projeto, que agora segue para avaliação da CAE, onde aspectos econômicos e orçamentários ganharão foco. O mérito legislativo é a criação de um modelo normativo que prevê apoio individualizado — isto é, intervenções adaptadas às necessidades específicas de pessoas com deficiência ou de doenças raras no exercício de suas atividades laborais — e a previsão de incentivos para viabilizar essas medidas. O efeito prático imediato é político-legislativo: a aprovação no colegiado de direitos humanos aumenta as chances de continuidade da tramitação e sinaliza acolhimento às premissas inclusivas da proposta; contudo, a efetividade dependerá do que a CAE e, em seguida, o plenário definirem sobre fontes de financiamento e mecanismos de controle.
Base normativa e precedentes
- Art. 6, CF/88 — reconhece os direitos sociais, fundamento para políticas públicas de inclusão e proteção ao trabalho.
- Art. 7, CF/88 — estabelece os direitos dos trabalhadores, fornecendo base constitucional para normativas que protejam a inserção e permanência no emprego.
- Art. 5, CF/88 — princípio da igualdade e vedação de discriminação, aplicável ao tratamento de pessoas com deficiência.
- Lei 13.146/2015 (Lei Brasileira de Inclusão) — estipula deveres de adaptação e garantia de acessibilidade, além de prever medidas de inclusão no mercado de trabalho e a obrigação de promover condições de igualdade.
- Decreto-Lei 5.452/1943 (CLT) — disciplina as relações de trabalho; a lei proposta pode afetar obrigações práticas de empregadores e instrumentos de negociação coletiva.
- Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (ratificada pelo Brasil) — obriga o Estado e as instituições a promoverem a igualdade de oportunidades e a acessibilidade.
Além das normas citadas, a jurisprudência consolidada em tribunais trabalhistas e de direitos humanos tem reconhecido a necessidade de adaptações no ambiente de trabalho e a proibição de tratamentos discriminatórios, ainda que os contornos sobre custeio e incentivos variem conforme o caso concreto.
Impacto prático
- Para empregadores: será preciso ajustar políticas internas de inclusão, mapear necessidades individuais e possivelmente adequar postos de trabalho — implicações diretas sobre custos, contratos e processos de recrutamento e gestão de pessoas. Dependendo do texto final, incentivos previstos podem atenuar o ônus econômico.
- Para empregados com deficiência ou doença rara: a norma fortalece reivindicações por adaptações personalizadas e cria expectativa de maior suporte prático para manutenção do vínculo empregatício e produtividade.
- Para o setor público e orçamento: a passagem à CAE indica que fontes de financiamento, natureza dos incentivos (subsídios, deduções fiscais, fundos setoriais) e impactos fiscais serão objeto de análise. A exigência de previsão orçamentária e compatibilidade com normas fiscais poderá influir no conteúdo final.
- Para advogados e sindicatos: surgem novas linhas de atuação — demandas individuais por adaptações, litígios sobre insuficiência das medidas, e negociação coletiva para regulamentar aplicação e custeio das ações previstas.
O que observar
- Conteúdo final na CAE: atenção às emendas que delimitem fontes de custeio (ver se haverá dotação orçamentária específica ou instrumentos tributários) e aos critérios objetivos para definir "apoio individualizado".
- Compatibilidade com a Lei Brasileira de Inclusão: o texto deverá respeitar os princípios da LBI, especialmente no que toca à não estigmatização e à promoção de autonomia.
- Regulação executiva e fiscalização: é importante que o projeto defina ou permita regulamentação clara sobre responsabilidades, supervisão e sanções, para evitar lacunas práticas que dificultem a implementação.
- Riscos processuais: possíveis questionamentos constitucionais sobre encargos financeiros ao setor privado sem previsão orçamentária; litigiosidade individual e coletivas em face de descumprimento; necessidade de harmonização com convenções internacionais ratificadas.
- Estratégia de advocacia preventiva: recomenda-se que departamentos jurídicos e consultores trabalhistas acompanhem a tramitação para preparar políticas internas, adaptar descrições de cargo, revisar cláusulas contratuais e negociar instrumentos coletivos que gerenciem a operacionalização do apoio.
A aprovação em CDH é um passo simbólico e prático relevante, mas o ponto decisivo será o aperfeiçoamento do texto na CAE, sua compatibilização com a LBI e a definição de mecanismos de financiamento e fiscalização que viabilizem a tradução da norma em medidas concretas no ambiente de trabalho.
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