Itaú reintegra bancário com TEA e aplicação da súmula 443 do TST
Juiz da 6ª VT de São Paulo reconhece dispensa discriminatória de trabalhador com TEA, determina reintegração e indenização; decisão enfatiza presunção da Súmula 443.

O juízo da 6ª Vara do Trabalho de São Paulo (Zona Sul) reconheceu caráter discriminatório da demissão de um bancário com transtorno do espectro autista (TEA), determinando sua reintegração e condenando o banco ao pagamento de indenização por danos morais. A decisão se apoiou na presunção prevista na Súmula 443 do TST e entendeu que o empregador não afastou essa presunção ao justificar o corte por "baixa aderência digital".
Contexto
A controvérsia insere-se no debate sobre proteção de trabalhadores portadores de condições que podem ensejar estigma — no caso, TEA — e a carga probatória exigida do empregador quando a dispensa recai sobre grupos vulneráveis. A Súmula 443 do Tribunal Superior do Trabalho estabelece presunção relativa de discriminação em dispensas de trabalhadores com doenças graves e equiparadas; cabe ao empregador demonstrar motivação objetiva e não discriminatória para o desligamento. Adicionalmente, há repercussões sobre negociações coletivas em demissões em massa: a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal consolidou entendimento (Tema 638) sobre os efeitos da ausência de negociação com o sindicato nas hipóteses de despedida coletiva. A litigância moderna também tem enfrentado justificativas tecnológicas (como métricas de aderência digital) que exigem transparência e critérios objetivos para serem aceitos como motivo de ruptura contratual.
O que foi decidido
O magistrado reconheceu a discriminação na dispensa do bancário com TEA e confirmou a reintegração já determinada em tutela de urgência, determinando ainda pagamento de salários e vantagens do período compreendido entre a demissão e o retorno, excetuando suspensões por afastamento previdenciário. A sentença aplicou a Súmula 443 do TST para inferir, em princípio, caráter discriminatório da dispensa decorrente de doença/inaptidão que costuma atrair preconceito. O banco justificou o corte por "baixa aderência digital" com um relatório relativo a meses anteriores; o juízo considerou esse documento insuficiente por não indicar parâmetros mínimos, critérios divulgados ou normativos internos que definissem a métrica. Testemunhas apontaram ausência de transparência sobre as métricas e inconsistência na aplicação do critério. Diante da insuficiência probatória do empregador, a presunção de discriminação prevaleceu. O juiz também reconheceu ofensa a direitos da personalidade — honra, imagem e intimidade — em razão da forma e da divulgação do desligamento, fixando indenização por danos morais em cinco salários, com fundamento no art. 223-G da Consolidação das Leis do Trabalho (Decreto-Lei 5.452/1943).
Base normativa e precedentes
- Súmula 443, TST — presunção relativa de discriminação na dispensa de empregado acometido por moléstia que gere estigma; ônus de provar a inexistência de discriminação é do empregador.
- Art. 223-G, CLT — previsão sobre saúde e segurança do trabalho aplicável à proteção da integridade moral do trabalhador, usada como parâmetro para a quantificação do dano moral.
- Art. 93, Lei 8.213/1991 — cumprimento de cotas para pessoas com deficiência ou reabilitadas; utilizado no processo para verificação da política de inclusão do empregador.
- Tema 638, STF — entendimento sobre a necessidade/efeitos da negociação coletiva em casos de dispensa em massa, invocado pelo juízo ao examinar alegação relativa à ausência de negociação sindical.
- Art. 1º, incisos III e Art. 5º, CF/88 — princípios da dignidade da pessoa humana e igualdade perante a lei, suporte constitucional da vedação a discriminações.
Impacto prático
- Para advogados trabalhistas: a decisão reafirma que justificativas tecnocráticas (como indicadores digitais) demandam documentação robusta, políticas internas e divulgação de critérios; a ausência desses elementos favorece a presunção de discriminação. Em provas, há valor decisivo em laudos, normativos e registros que expliquem métricas.
- Para empresas e departamentos de RH/Compliance: é imprescindível estabelecer normas internas claras, comunicar parâmetros de avaliação e treinar gestores sobre afastamento de empregados com condições de saúde que possam gerar estigma, sob pena de responsabilização e reintegração. Manter registro de critérios e avaliações periódicas é prática mitigadora de risco.
- Para trabalhadores com deficiência ou transtornos do espectro autista: a sentença reforça tutela efetiva contra demissões que possam decorrer de preconceito; a reintegração e a reparação moral são meios concretos de reparo.
- Para negociações coletivas: as empresas devem observar o arcabouço do Tema 638 e promover negociação quando realizam programas de desligamentos em massa, sob risco de nulidade ou responsabilização adicional.
O que observar
- Prova do empregador: decisões similares tendem a exigir políticas formais, divulgação de métricas e comprovação individualizada de baixo desempenho que não esteja vinculada à condição de saúde do empregado.
- Modulação e recursos: sentença de primeiro grau pode ser objeto de recurso ordinário ao Tribunal Regional do Trabalho; eventual aferição de modulação de efeitos costuma ocorrer em instâncias superiores, caso a matéria atinja repercussão mais ampla.
- Quantificação do dano moral: o juiz aplicou critério equitativo com base no art. 223-G da CLT; valores podem variar conforme circunstâncias fáticas e capacidade econômica do empregador.
- Litígio coletivo e políticas de inclusão: a decisão estimula revisão de programas de diversidade e cumprimento de cotas (art. 93 da Lei 8.213/1991) como fatores defensivos em demandas futuras.
Processo: 1001726-55.2025.5.02.0027.
Você concorda com a decisão?
🔔 Acompanhe este assunto
Siga os temas desta matéria — a gente te avisa quando houver nova decisão ou conteúdo, direto no seu Meu JusFeed.
Comentários (0)
Seja o primeiro a comentar essa matéria.
Relacionadas em Trabalhista
Ver tudo
TRT-3 confirma indenização por expectativa legítima de contratação
Turma do TRT da 3ª região reconheceu dano moral por frustração de contratação após exame admissional e convocação; decisão reforça dever de boa-fé pré-contratual.

TST reconhece horas extras por ausência de pausas para calor antes de 2019
Turma do TST confirmou que, até 9/12/2019, a supressão de pausas de recuperação térmica gera horas extras, afastando bis in idem com insalubridade.

STF reafirma limite de 30 horas para fisioterapeutas em cargos públicos
Plenário do STF decidiu que municípios não podem impor jornada superior a 30 horas para fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais, em respeito à lei federal.