TST: linguagem simples em acordos amplia acesso e eficácia da conciliação
O uso de linguagem clara em audiência de conciliação do Cejusc/TST permitiu a compreensão de um acordo por trabalhador sem advogado, reforçando autonomia e transparência.

Decisão/prática e efeito prático imediato: O uso de resumo em linguagem acessível durante audiência de conciliação promovida pelo Cejusc/TST permitiu que um trabalhador, sem representação, compreendesse o alcance do acordo e exercesse sua autonomia para decidir. A iniciativa se insere na implementação da Recomendação CNJ 144/2023 e tem efeito imediato sobre práticas de comunicação judicial no âmbito da Justiça do Trabalho.
Contexto
A clareza na redação de atos jurisdicionais e documentos processuais figura como tema recorrente no debate sobre acesso à justiça. A Recomendação CNJ 144/2023 consolidou orientação para que tribunais adotem linguagem simples, objetiva e acessível em comunicações com usuários do sistema de Justiça. No campo trabalhista, cada vez mais se reconhece que a efetividade da conciliação depende não apenas da presença física das partes, mas da compreensão real dos termos negociados. O Cejusc/TST, responsável por desenvolver métodos consensuais no tribunal, tem promovido medidas práticas — entre elas, a elaboração de resumos e explicações claras em audiências — para reduzir assimetrias informacionais, aumentar a autonomia do trabalhador e diminuir o risco de impugnações futuras por vícios de consentimento.
A controvérsia importa porque decisões técnicas e termos jurídicos complexos podem transformar uma audiência conciliatória em espaço de formalidade vazia, com risco de fraqueza do consentimento. Em especial, reclamantes sem defesa técnica ficam vulneráveis a não entenderem cláusulas sobre quitação, parcelas, encargos e eventuais renúncias. A adoção sistemática de linguagem acessível busca mitigar esse problema e aumentar a legitimidade dos acordos homologados.
O que foi decidido
A prática relatada pelo TST não se trata de uma mudança normativa formal, mas de uma orientação institucional: a aplicação da linguagem clara e de resumos em linguagem acessível em sessão de conciliação viabilizou que o trabalhador compreendesse os fundamentos e efeitos do acordo. O resultado foi a celebração do acordo com manifestação de vontade informada da parte. O pronunciamento do tribunal reforça a necessidade de que centros de conciliação e magistrados adotem medidas explicativas — por exemplo, resumos de fácil leitura, destaque dos efeitos de quitação e explicitação de prazos — sempre que uma das partes estiver sem advogado.
Nos fundamentos implícitos da prática, sobressai a ideia de que a adoção de linguagem simples é compatível com a formalidade processual e favorece a segurança jurídica, porque reduz as possibilidades de nulidade por vício no consentimento e diminui litígios futuros sobre o alcance dos termos pactuados.
Base normativa e precedentes
- Art. 5º, CF/88 — garante o direito de acesso à Justiça, princípio que justifica medidas que promovam compreensão efetiva dos atos processuais.
- Decreto-Lei 5.452/1943 (CLT) — estabelece o procedimento trabalhista e autoriza a conciliação como meio adequado de solução de conflitos no âmbito da Justiça do Trabalho.
- Lei 13.105/2015 (CPC) — arts. 165 e 334 (no que couber) consagram a promoção de conciliação e mediação, trazendo práticas processuais que valorizam a composição consensual, o que tem reflexos pedagógicos aplicáveis às audiências trabalhistas.
- Recomendação CNJ 144/2023 — orienta a adoção de linguagem clara e acessível pela Justiça, fundamento direto da iniciativa do Cejusc/TST.
- Jurisprudência consolidada do tribunal — tende a reconhecer a valoração probatória de acordos celebrados com plena compreensão das partes e demonstração de consentimento livre e informado.
Impacto prático
- Para advogados: reforça a importância de esclarecer aos clientes, antes e durante audiências, os efeitos de cláusulas de quitação e demais condições; estimula a prática de fornecer resumos em linguagem acessível como rotina profissional.
- Para magistrados e conciliadores: orienta a adoção de técnicas de comunicação clara — uso de resumos, linguajar não técnico e verificação expressa de entendimento — especialmente quando uma parte estiver sem assistência técnica.
- Para trabalhadores e partes sem advogado: aumenta a possibilidade de participação efetiva no processo decisório e reduz o risco de celebrarem acordos sem compreensão dos efeitos legais.
- Para empresas e empregadores: traz segurança jurídica quando a comprovação de entendimento for documentada, reduzindo impugnações posteriores por alegada falta de informação.
- Para a execução e homologação de acordos: resumos e explicações claras podem se tornar elementos de prova de consentimento informado, útil em eventuais execuções ou discussões sobre vício de consentimento.
O que observar
- Padronização e formalização: há espaço para regulamentação interna do tribunal sobre formatos mínimos de resumos e checklists de informação obrigatória em audiências de conciliação, evitando disparidades entre varas e CEJUSCs.
- Prova e documentação: recomenda-se registrar nos autos a entrega do resumo em linguagem acessível e a confirmação, por termo, de que a parte compreendeu os termos, o que fortalecerá a eficácia probatória do acordo.
- Limites e balanceamento: a simplificação não pode omitir informações jurídicas relevantes; é preciso equilíbrio entre acessibilidade e precisão técnica para não gerar interpretações errôneas do conteúdo pactuado.
- Recursos e impugnações: mesmo com linguagem simples, permanece a possibilidade de contestação posterior se houver indícios de coação, erro ou insuficiência de informação; portanto, a boa técnica de comunicação é corolário, não substituto, da observância das garantias processuais.
- Próximos passos institucionais: monitoramento de resultados (redução de impugnações, tempo de tramitação) e eventual adoção de diretrizes nacionais para unificar práticas entre tribunais.
Conclusão sucinta: a experiência do Cejusc/TST demonstra, na prática, que redação clara e instrumentos de explicação aumentam a efetividade da conciliação trabalhista, promovendo acesso real à Justiça e segurança jurídica sem ferir a formalidade processual. A implementação consistente e documentada dessas medidas é o próximo desafio para consolidar a iniciativa como padrão técnico na Justiça do Trabalho.
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