TJRJ promove oficina sobre turbantes e reafirma papel do Judiciário na promoção da igualdade racial
Oficina do Núcleo de Atenção e Promoção à Justiça Social do TJRJ aborda identidade negra e autoestima; implicações administrativas e constitucionais na atuação do Judiciário.

O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, por meio do Núcleo de Atenção e Promoção à Justiça Social (Napjus), realizou uma oficina voltada para práticas simbólicas e identitárias — amarração de turbantes e escrita reflexiva sobre identidade negra — como ação integrante da programação do Julho das Pretas. Imediatamente, a iniciativa materializa a participação ativa de um órgão judicial em políticas culturais e de promoção da igualdade, com efeitos práticos sobre formação interna, visibilidade institucional e potencial repercussão em políticas de justiça social.
Contexto
A ação do TJRJ insere-se em um cenário mais amplo de institucionalização de políticas públicas de promoção da igualdade racial no Brasil. Desde a Constituição Federal de 1988, que consagrou a igualdade formal (art. 5º) e fixou objetivos de construir uma sociedade livre, justa e solidária (art. 3º), o Estado tem papel ativo no combate a discriminações históricas. O Estatuto da Igualdade Racial (Lei 12.288/2010) e o rol de normas penais que criminalizam condutas discriminatórias (Lei 7.716/1989) consolidaram um marco normativo que não se esgota no âmbito repressivo, incluindo medidas afirmativas e ações educativas.
No campo administrativo, a atividade pedagógica promovida pelo Napjus reflete uma tendência de órgãos públicos — inclusive do Poder Judiciário — em adotar práticas de formação e promoção da diversidade. A presença de iniciativas simbólicas, como oficinas de turbantes, funciona como dispositivo de reconhecimento cultural e de empoderamento coletivo, dialogando com políticas afirmativas e com agendas de justiça social que buscam enfrentar desigualdades estruturais além do contencioso individual.
O que foi decidido
O Tribunal não proferiu decisão judicial; o TJRJ, por seu núcleo especializado, organizou e abriu ao público uma oficina intitulada “Entre o Espelho e a Palavra: Vivências com o Turbante e Identidade Negra”, com condução técnica de uma educadora vinculada ao Museu da Justiça. A atividade combinou instrução prática (técnicas de amarração de turbantes) e um exercício de escrita reflexiva sobre processos de reconhecimento da identidade e construção da autoestima.
A opção institucional por promover esse tipo de ação indica um posicionamento proativo do Judiciário fluminense em matéria de políticas culturais e de promoção da igualdade racial, entendidas como complementares à prestação jurisdicional. Na prática, a iniciativa funciona como medida educativa e simbólica que visa fortalecer a inclusão e a representatividade no ambiente do próprio tribunal e na relação entre a Justiça e a sociedade.
Base normativa e precedentes
- Art. 5º, CF/88 — princípio da igualdade e vedação a discriminações, fundamento para ações públicas que promovam direito à não discriminação.
- Art. 3º, CF/88 — objetivos fundamentais da República, entre eles a construção de uma sociedade justa e solidária, que legitima políticas de promoção social e cultural.
- Art. 37, CF/88 — princípios da administração pública (legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência), que informam a forma como órgãos públicos podem desenvolver ações educativas.
- Lei 12.288/2010 (Estatuto da Igualdade Racial) — estabelece medidas de promoção da igualdade racial, incluindo ações de promoção cultural, educação e políticas públicas destinadas a reduzir desigualdades.
- Lei 7.716/1989 — tipifica crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional, contextualizando a dimensão repressiva que complementa medidas educativas.
- Jurisprudência: a jurisprudência consolidada dos tribunais reconhece a possibilidade de órgãos públicos adotarem medidas afirmativas e ações educativas no âmbito de suas competências administrativas, sem que isso configure violação automática do princípio da imparcialidade, desde que observados os limites da legalidade administrativa.
Impacto prático
- Para o Poder Judiciário: reforça a função institucional do Judiciário enquanto ator social que pode promover inclusão e formação cultural, mas exige mecanismos de governança interna para compatibilizar esse papel com os princípios do art. 37 da CF/88.
- Para magistrados e servidores: estimula a incorporação de práticas de diversidade e de combate à discriminação no cotidiano institucional, o que pode repercutir em procedimentos internos de acolhimento, capacitação e políticas de diversidade.
- Para a sociedade e litigantes: contribui para a visibilidade de pautas raciais no ambiente da Justiça, potencialmente melhorando a percepção de acesso e sensibilidade cultural em procedimentos que envolvam demandas de grupos racializados.
- Para operadores do direito (advogados e defensoria): amplia o repertório de argumentos e de provas de dano moral e de invisibilidade cultural, ao demonstrar iniciativas institucionais de reconhecimento simbólico.
O que observar
- Limites administrativos e políticas públicas: a promoção de ações culturais por tribunais exige observância de critérios de finalidade pública, transparência e compatibilidade com orçamento e normas internas para evitar alegações de ativismo institucional ou desvio de finalidade.
- Neutralidade e imparcialidade: embora ações de promoção da igualdade sejam legítimas, é prudente que o Judiciário delimite claramente o caráter institucional (educacional e cultural) dessas iniciativas para prevenir questionamentos sobre parcialidade em processos específicos.
- Proteção de dados e imagem: exercícios de escrita reflexiva e eventuais registros fotográficos demandam atenção à Lei 13.709/2018 (LGPD) e à necessidade de consentimento para tratamento de dados pessoais e uso de imagem.
- Mensuração de resultados: recomenda-se que iniciativas semelhantes sejam acompanhadas por indicadores qualitativos e quantitativos que permitam avaliar impacto institucional e social, evitando ações puramente simbólicas sem efetividade.
- Repercussão normativa: ações práticas de promoção da igualdade podem alimentar demandas por normatizações internas (políticas de equidade, programas de formação) e influenciar precedentes administrativos e judiciais sobre a extensão das atribuições culturais do Judiciário.
Em síntese, a oficina do Napjus no TJRJ não é apenas um evento cultural: representa um ponto de contato entre obrigações constitucionais de igualdade e a prática administrativa do Poder Judiciário. A iniciativa sinaliza uma ampliação do papel institucional para além do julgamento de conflitos, com consequências práticas e desafios jurídicos que exigem procedimentos internos claros, respeito às normas de proteção de dados e avaliação contínua de impacto.
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