TST e Victor Jara: música como ferramenta para discutir trabalho e dignidade
A utilização de 'Quando Vou ao Trabalho' pelo TST reabre debate sobre dignidade do trabalho, papel pedagógico do Judiciário e limites do uso público de obras autorais.

O Tribunal Superior do Trabalho veiculou, em programação institucional, a canção "Quando Vou ao Trabalho", de Victor Jara, integrando reflexão cultural sobre emprego, afetos e rotina laboral. A iniciativa tem efeito imediato pedagógico e simbólico: reforça a dimensão humana do direito do trabalho e coloca em evidência questões sobre uso público de obras artísticas por órgãos estatais.
Contexto
A interseção entre cultura e direito do trabalho não é apenas retórica: historicamente, debates sobre condições laborais passaram também pelo campo simbólico — literatura, música e outras formas artísticas contribuem para formar a consciência social sobre trabalho e direitos. No plano institucional, tribunais e órgãos públicos têm adotado conteúdos culturais para educação e divulgação de valores constitucionais e laborais, o que suscita, em paralelo, questões sobre liberdade de expressão, finalidade institucional e observância das normas de propriedade intelectual.
A controvérsia importa porque trata de três vetores que se cruzam na prática forense e administrativa: (i) a promoção da dignidade do trabalho perante a população e operadores do direito; (ii) os limites legais ao uso de obras protegidas pelo direito autoral em iniciativas públicas; e (iii) o papel pedagógico do Poder Judiciário na formação de valores sociais vinculados ao mundo do trabalho. Para operadores do direito, entender esses vetores é útil tanto para litígios individuais (ex.: direitos de imagem, remuneração de artistas) quanto para ações coletivas e de políticas públicas que invocam conteúdo cultural.
O que foi decidido
Não se trata de decisão jurisdicional, mas de opção institucional adotada pelo TST ao incluir a canção do autor chileno em sua programação informativa e educativa. A escolha expressa uma tese prática: a música foi usada como instrumento de aproximação entre o tema trabalho e a vivência cotidiana dos trabalhadores, valorizando sentimentos como esperança e aspirações por melhores condições. Em termos jurídicos, a iniciativa indica que o tribunal entende ser legítimo o emprego de conteúdo cultural para fins de educação judicial e promoção de valores constitucionais relacionados ao trabalho.
Os fundamentos subjacentes são de natureza constitucional e administrativa: a promoção dos direitos sociais e a educação para o trabalho, ao lado da necessidade de respeitar direitos de terceiros, notadamente os direitos autorais. Assim, a atuação institucional combina mensagem pedagógica (fortalecer a ideia de dignidade e proteção ao trabalhador) e dever de compliance com normas de propriedade intelectual e de gestão pública de conteúdo.
Base normativa e precedentes
- Art. 5º, CF/88 — garante, entre outros, a liberdade de expressão, que tem repercussão na difusão cultural e no uso de obras para fins educativos.
- Art. 7º, CF/88 — elenca direitos dos trabalhadores, embasando a função educativa que aproxima música e temas laborais para promoção da dignidade no trabalho.
- CLT (Decreto-Lei 5.452/1943) — estrutura o direito do trabalho no país; seu conjunto de normas sustenta a relevância institucional de políticas educativas e de valorização do trabalhador.
- Lei 9.610/1998 (Direitos Autorais) — disciplina a titularidade, direitos morais e patrimoniais sobre obras musicais; impõe requisitos para uso de fonogramas e interpratações por entes públicos, salvo exceções legais.
- Lei de Licitações e Contratos (Lei 8.666/1993 e subsidiariamente a nova Lei 14.133/2021) — aplicável quando houver contratação de serviços para reprodução, divulgação ou utilização comercial de obra protegida pela administração pública.
- Jurisprudência: a utilização de obras por entes públicos costuma ser examinada com base na finalidade pública e na necessidade de autorização/licenciamento; em casos análogos, a jurisprudência consolidada do tribunal e de cortes superiores exige observância dos direitos patrimoniais e morais dos autores.
Impacto prático
- Para advogados trabalhistas: reforça a relevância de argumentos que valorizem a dimensão humana do trabalho nas peças e sustentações, especialmente em pedidos que envolvam dignidade, saúde mental e qualidade de vida no trabalho.
- Para órgãos públicos e gestores de conteúdo: chama atenção para a necessidade de diligência quanto à autorização de reprodução de obras protegidas e à eventual contratação de direitos junto a titulares ou sociedades de gestão coletiva.
- Para artistas e titulares de direitos autorais: sublinha que iniciativas institucionais com fins educativos podem aumentar a visibilidade da obra, mas não dispensam a observância de autorizações e a remuneração quando aplicável.
- Para operadores da política pública: abre espaço para programas de educação jurídica-laboral que usem cultura como instrumento, desde que estruturados em conformidade com normas de direito autoral e princípios da administração pública.
O que observar
- Autorização e licenciamento: verificar se houve, nos autos administrativos, a autorização dos titulares e se a utilização se deu em condições que respeitam direitos patrimoniais e morais, evitando risco de litígio por reprodução indevida.
- Finalidade pública e limites: monitorar eventuais críticas sobre uso de conteúdo artístico com teor político — inclui avaliar riscos de alegações de viés ideológico e a necessidade de justificativa institucional objetiva.
- Possibilidade de precedentes: litígios que discutam uso institucional de obras poderão gerar precedentes sobre compatibilidade entre promoção institucional e remuneração de titulares; advogados devem preparar fundamentos tanto contrários quanto favoráveis à utilização fundada no interesse público.
- Estratégia processual: em eventual ação, caberá discutir legalidade do uso (licitude, exceção) e eventual indenização por violação de direitos autorais; o manejo probatório exigirá documentos de autorização, comprovação de finalidade educativa e eventual previsão orçamentária para pagamento de direitos.
Em síntese, a iniciativa do TST ao divulgar a canção de Victor Jara funciona como vetor simbólico para reafirmar princípios constitucionais relativos ao trabalho, mas também impõe rigor técnico quanto ao cumprimento das regras de propriedade intelectual e aos limites da atuação estatal em matérias culturais. Operadores do direito devem extrair dessa prática lições sobre como articular argumentos sobre dignidade no trabalho, ao mesmo tempo em que garantem a legalidade formal nas ações de comunicação institucional.
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